Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Daniela da Silva (UNOCHAPECÓ)

Minicurrículo

    Professora titular do curso de Bacharelado em Cinema e Mídias Digitais, na Unochapecó. Doutora em Educação pela UFRGS, com tese voltada à investigação dos processos de criação de artistas, a partir de um olhar expandido entre a arte, a filosofia e a educação. Integra os grupos de pesquisa: Núcleo de Estudos sobre Mídia, Educação e Subjetividade (NEMES/UFRGS/CNPq) e Imagem e Cultura Digital (ECRÃ/UNOCHAPECÓ/CNPq).

Ficha do Trabalho

Título

    Arte e modos de existência: uma proposta de filme-ensaio entre estudantes de cinema

Resumo

    Esta comunicação apresenta discussões iniciais acerca do processo de criação de estudantes de cinema, tendo como base as realizações advindas de uma atividade prática de criação, chamada: “Minidocumentário – Arquivos Inacabados”. Para tanto, são movimentadas as seguintes noções: “memórias de formação” (Silva, 2024), “filme-ensaio” (Corrigan, 2015) e “teoria dos cineastas” (Graça; Baggio; Penafria, 2015), como possibilidade para refletir acerca do fazer fílmico, da arte e de modos de existência.

Resumo expandido

    A ideia do inacabamento é uma noção que permeia o cinema e a arte. Na literatura, temos os romances nunca escritos de Roland Barthes; na filosofia, as obras não finalizadas de Walter Benjamin. Sobretudo, podemos falar do inacabamento contido no exercício de fazer do cinema uma colagem de si, a exemplo dos filmes de Agnès Varda, diretora que revive a si nos arquivos de suas obras, ao retomar seus filmes já feitos enquanto narra a si e aos outros de maneira transitória, aberta, inacabada.
    Estes questionamentos surgem no cotidiano do exercício da docência, especialmente durante a construção da disciplina de “Não Ficção”, ministrada por mim em um curso de Bacharelado em Cinema e Mídias Digitais. Na busca de provocar as/os estudantes a refletirem acerca da noção de documentário como movimento de representação, montagem e experimentação da linguagem audiovisual, constitui uma proposta prática de criação, chamada: “Minidocumentário – Arquivos Inacabados”. Nesta atividade, as/os estudantes deviam realizar uma obra de não ficção, a partir daquilo que lhes era caro e familiar – mas nem sempre conhecido –, seus arquivos inacabados. Uma proposta acompanhada do desejo de que elas e eles pudessem expandir a própria noção de arquivo, de imagem em movimento e de inacabamento. Desse modo, não se tratou, necessariamente, de propor a constituição de uma biografia pessoal, mas, sobretudo, de acionar um rastreio de materialidades, de memórias e de narrativas que a elas/es pertencessem.
    A partir dessa experiência didática com cineastas em formação, creio que algumas narrativas têm nos permitido testemunhar a arte se-fazendo. Pois, na medida em que determinados trabalhos, apresentados ao final da atividade, eram constituídos de eixos narrativos que abordavam a criação cinematográfica, o próprio fazer fílmico se evidenciou, dando origem a filmes em que a/o cineasta reflete acerca do seu fazer e da sua relação com as imagens e com o cinema ao longo da vida. Logo, como uma proposição ainda inicial, inaugurada nesta comunicação, evidencio elementos do processo de criação de um dos estudantes que participou da atividade, aqui chamado de Dominique (nome fictício), tendo como base as seguintes chaves de leitura: “memórias de formação” (Silva, 2024), “filme-ensaio” (Corrigan, 2015) e “teoria dos cineastas” (Graça; Baggio; Penafria, 2015).
    Dito isso, ao considerar a forma arquivística como matéria-prima audiovisual, tornada, pela experimentação da linguagem, uma obra de não ficção, chegamos a um documentário de 5 minutos; captado, montado e finalizado pelo estudante de cinema Dominique. Nesta obra, ele constrói um roteiro baseado nos documentos/arquivos de sua mãe, quais sejam, carteira de identidade, título eleitoral, manuscritos de estudo para uma formação como agente de saúde, fotos de família e um caderno de receitas, entre outros. Aqui, é possível situar a proximidade dessa produção com a concepção de filme-ensaio (Corrigan, 2015), ao passo que a subjetividade do sujeito que filma encontra uma certa exterioridade no mundo.
    Em relação às características éticas e estéticas da obra, pela câmera posicionada em zenital, somos levadas/os a conhecer a protagonista da história, enquanto seus arquivos de vida são folheados e montados em cima de uma mesa. No tempo do cinema, ouvimos, em voice-over, Dominique, que, não constitui uma narrativa explicativa da personagem; por outro lado, deixa rastros dos próprios pensamentos, ideias e desejos em torno do processo de concepção do filme – como se esta obra, em si, nunca chegasse a ser finalizada. Trata-se, assim, de uma metanarrativa, na qual a história em tela se entrelaça ao fazer fílmico, nos dando acesso ao pensamento e à poética do cineasta (Graça; Baggio; Penafria, 2015). Logo, de um lado, temos a materialidade dos arquivos de uma vida, montados para construir uma história no cinema de não ficção; e de outro, o registro das “memórias de formação” de um cineasta no instante mesmo da criação cinematográfica.

Bibliografia

    GRAÇA, André Rui; BAGGIO, Eduardo Tulio; PENAFRIA, Manuela. Teoria dos cineastas: uma abordagem para a teoria do cinema. Revista Científica/FAP, Curitiba, v. 12, n. 1, 2015.
    CORRIGAN, Timothy. O Filme-Ensaio: desde Montaigne e depois de Marker. Campinas: Papirus, 2015.
    SILVA, Daniela da. Escrita de si e amizade no filme “Gabriel e a Montanha”, de Fellipe Barbosa. Educação e Filosofia, Uberlândia, v. 38, p. 1–27, 2024.