Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    João Pedro Silva dos Santos (Unicamp)

Minicurrículo

    Doutorando em Multimeios na Unicamp. Mestre em Ciências Sociais pela UFRRJ, com pesquisa financiada pela CAPES. Graduado em Ciência Política e Sociologia pela UNILA e em formação docente pelo IFSP – Campus Sertãozinho. Pesquisa cinema e cultura no Brasil, com ênfase em pensamento social, indústria cultural e esquerdas (1946-1964). Integra grupos de pesquisa do CNPq em história e audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema, cultura e formação: o debate em torno da inexistência do cinema brasileiro nos anos 1940

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O texto analisa comparativamente as divergências entre o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Clube de Cinema de São Paulo, evidenciadas no debate entre os críticos Carlos Ortiz e Benedito Junqueira Duarte. A controvérsia gira em torno da existência e das condições de possibilidade de um “cinema brasileiro”. Nesse debate, opõem-se uma visão idealista e outra materialista, que revelam concepções antagônicas de cultura e projetos distintos para o cinema no país.

Resumo expandido

    Criado em 1947 por Assis Chateaubriand, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) funcionava no segundo andar do Edifício Guilherme Guinle. A partir de 1949, esse mesmo andar passou a abrigar também o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), fundado por Francisco Matarazzo Sobrinho. Assim como o MASP, o MAM dispunha de um espaço para atividades cineclubísticas, assumidas pelo segundo Clube de Cinema de São Paulo. Diferentemente dos editores da revista Clima, fundadores do primeiro cineclube, os sócio-fundadores dessa segunda experiência não ignoravam completamente o debate em torno do cinema brasileiro. Ainda assim, como observa Maria Rita Galvão (1981, p. 32), tratavam a questão de modo incipiente, concebendo o desenvolvimento de uma “cultura cinematográfica” como condição prévia para a própria existência do cinema no Brasil.
    Na comparação entre o Seminário de Cinema do MASP e o Clube de Cinema de São Paulo, evidenciam-se não apenas diferenças de propósito, mas também distintas compreensões do cinema brasileiro. Tais divergências podem ser aferidas no célebre debate travado entre Carlos Ortiz – um dos fundadores do Seminário de Cinema do MASP – e Benedito Junqueira Duarte – crítico vinculado ao segundo Clube de Cinema de São Paulo – em suas colunas na Folha da Manhã e n’O Estado de S. Paulo. O debate tem início, de modo significativo, no próprio Seminário, em maio de 1949, quando Ortiz critica o desconhecimento do cinema brasileiro por parte dos cineclubes paulistanos e é interpelado por um aluno, Manuel Tavares da Silva, membro do Clube de Cinema de São Paulo: “cinema nacional é coisa que não existe”. Ao relatar o episódio, B. J. Duarte dá início à controvérsia.
    Tomando como referência a análise de Galvão (op. cit., p. 29) sobre a cisão entre produção e pensamento cinematográfico em São Paulo no final dos anos 1940, o presente texto examina comparativamente as posições em disputa nesse debate. No centro da polêmica, que diz respeito à existência e às condições de possibilidade de um “cinema brasileiro”, B. J. Duarte sustenta uma perspectiva idealista que nega a existência de um cinema nacional em razão da precariedade das produções e da “falta de cultura” dos realizadores, entendida como formação erudita, domínio técnico e familiaridade com obras consagradas. Carlos Ortiz, por sua vez, afirma a existência concreta de um cinema nacional, ainda que incipiente, e defende uma concepção materialista de cultura, na qual o cinema é simultaneamente produto e agente do processo cultural. Em vez de aguardar condições ideais, propõe o fomento à produção existente como caminho para a consolidação de uma cinematografia nacional.
    Como observa Arthur Autran (2004, p. 11), a tese da inexistência da produção cinematográfica no Brasil foi recorrente no pensamento cinematográfico nacional, ao menos até a criação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em um dos textos de B. J. Duarte, Autran (op. cit., pp. 12-13) identifica a recorrência de termos como “cimento”, “argamassa” e “sedimento”, cuja associação à ideia de construção o leva à hipótese de uma defesa do modelo de grande estúdio. O argumento de Duarte, contudo, aponta antes para a necessidade de integrar a “argamassa de uma cultura especializada” àquilo que denomina “esse algo imponderável que insere a obra no ‘universal’, na tradição e na dignidade do cinema”. Mais do que a construção de um estúdio, o que está em jogo para o crítico – assim como para os intelectuais uspianos do Grupo Clima (Pontes, 1998) – é a ideia de formação nacional. A inexistência do cinema corresponderia à ausência de um “sistema cinematográfico”, isto é, de uma cultura cinematográfica autônoma e historicamente acumulada no Brasil. Assim, a hipótese aqui defendida é que o debate entre Carlos Ortiz e B. J. Duarte revela não apenas concepções antagônicas de cultura – uma apartada da vida social e outra integrada a ela -, mas também projetos distintos para o desenvolvimento do cinema no país.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. Tese (Doutorado em Multimeios) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2004.
    BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. A política dos autores: França, Brasil anos 50 e 60. São Paulo: Brasiliense / EdUSP, 1994.
    CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira (momentos decisivos), 2 vols. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Itatiaia 1993.
    GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e Cinema: O caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
    MELO SOUZA, José Inacio. A carga da brigada ligeira: Intelectuais e crítica cinematográfica, 1941-1945. São Paulo: Mnemocine Produções Editoriais Ltda ME., 2017.
    PONTES, Heloísa. Destinos mistos: Os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-1968). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
    XAVIER, Ismail. Sétima arte: Um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.
    WILLIAMS, Raymond. Cultura e materialismo. São Paulo: Unesp, 2011.