Ficha do Proponente
Proponente
- João Pedro Silva dos Santos (Unicamp)
Minicurrículo
- Doutorando em Multimeios na Unicamp. Mestre em Ciências Sociais pela UFRRJ, com pesquisa financiada pela CAPES. Graduado em Ciência Política e Sociologia pela UNILA e em formação docente pelo IFSP – Campus Sertãozinho. Pesquisa cinema e cultura no Brasil, com ênfase em pensamento social, indústria cultural e esquerdas (1946-1964). Integra grupos de pesquisa do CNPq em história e audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema, cultura e formação: o debate em torno da inexistência do cinema brasileiro nos anos 1940
Eixo Temático
- ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS
Resumo
- O texto analisa comparativamente as divergências entre o Seminário de Cinema do Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Clube de Cinema de São Paulo, evidenciadas no debate entre os críticos Carlos Ortiz e Benedito Junqueira Duarte. A controvérsia gira em torno da existência e das condições de possibilidade de um “cinema brasileiro”. Nesse debate, opõem-se uma visão idealista e outra materialista, que revelam concepções antagônicas de cultura e projetos distintos para o cinema no país.
Resumo expandido
- Criado em 1947 por Assis Chateaubriand, o Museu de Arte de São Paulo (MASP) funcionava no segundo andar do Edifício Guilherme Guinle. A partir de 1949, esse mesmo andar passou a abrigar também o Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM), fundado por Francisco Matarazzo Sobrinho. Assim como o MASP, o MAM dispunha de um espaço para atividades cineclubísticas, assumidas pelo segundo Clube de Cinema de São Paulo. Diferentemente dos editores da revista Clima, fundadores do primeiro cineclube, os sócio-fundadores dessa segunda experiência não ignoravam completamente o debate em torno do cinema brasileiro. Ainda assim, como observa Maria Rita Galvão (1981, p. 32), tratavam a questão de modo incipiente, concebendo o desenvolvimento de uma “cultura cinematográfica” como condição prévia para a própria existência do cinema no Brasil.
Na comparação entre o Seminário de Cinema do MASP e o Clube de Cinema de São Paulo, evidenciam-se não apenas diferenças de propósito, mas também distintas compreensões do cinema brasileiro. Tais divergências podem ser aferidas no célebre debate travado entre Carlos Ortiz – um dos fundadores do Seminário de Cinema do MASP – e Benedito Junqueira Duarte – crítico vinculado ao segundo Clube de Cinema de São Paulo – em suas colunas na Folha da Manhã e n’O Estado de S. Paulo. O debate tem início, de modo significativo, no próprio Seminário, em maio de 1949, quando Ortiz critica o desconhecimento do cinema brasileiro por parte dos cineclubes paulistanos e é interpelado por um aluno, Manuel Tavares da Silva, membro do Clube de Cinema de São Paulo: “cinema nacional é coisa que não existe”. Ao relatar o episódio, B. J. Duarte dá início à controvérsia.
Tomando como referência a análise de Galvão (op. cit., p. 29) sobre a cisão entre produção e pensamento cinematográfico em São Paulo no final dos anos 1940, o presente texto examina comparativamente as posições em disputa nesse debate. No centro da polêmica, que diz respeito à existência e às condições de possibilidade de um “cinema brasileiro”, B. J. Duarte sustenta uma perspectiva idealista que nega a existência de um cinema nacional em razão da precariedade das produções e da “falta de cultura” dos realizadores, entendida como formação erudita, domínio técnico e familiaridade com obras consagradas. Carlos Ortiz, por sua vez, afirma a existência concreta de um cinema nacional, ainda que incipiente, e defende uma concepção materialista de cultura, na qual o cinema é simultaneamente produto e agente do processo cultural. Em vez de aguardar condições ideais, propõe o fomento à produção existente como caminho para a consolidação de uma cinematografia nacional.
Como observa Arthur Autran (2004, p. 11), a tese da inexistência da produção cinematográfica no Brasil foi recorrente no pensamento cinematográfico nacional, ao menos até a criação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Em um dos textos de B. J. Duarte, Autran (op. cit., pp. 12-13) identifica a recorrência de termos como “cimento”, “argamassa” e “sedimento”, cuja associação à ideia de construção o leva à hipótese de uma defesa do modelo de grande estúdio. O argumento de Duarte, contudo, aponta antes para a necessidade de integrar a “argamassa de uma cultura especializada” àquilo que denomina “esse algo imponderável que insere a obra no ‘universal’, na tradição e na dignidade do cinema”. Mais do que a construção de um estúdio, o que está em jogo para o crítico – assim como para os intelectuais uspianos do Grupo Clima (Pontes, 1998) – é a ideia de formação nacional. A inexistência do cinema corresponderia à ausência de um “sistema cinematográfico”, isto é, de uma cultura cinematográfica autônoma e historicamente acumulada no Brasil. Assim, a hipótese aqui defendida é que o debate entre Carlos Ortiz e B. J. Duarte revela não apenas concepções antagônicas de cultura – uma apartada da vida social e outra integrada a ela -, mas também projetos distintos para o desenvolvimento do cinema no país.
Bibliografia
- AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. Tese (Doutorado em Multimeios) – Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas. Campinas, 2004.
BERNARDET, Jean-Claude. O autor no cinema. A política dos autores: França, Brasil anos 50 e 60. São Paulo: Brasiliense / EdUSP, 1994.
CANDIDO, Antonio. Formação da Literatura Brasileira (momentos decisivos), 2 vols. Belo Horizonte; Rio de Janeiro: Itatiaia 1993.
GALVÃO, Maria Rita. Burguesia e Cinema: O caso Vera Cruz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
MELO SOUZA, José Inacio. A carga da brigada ligeira: Intelectuais e crítica cinematográfica, 1941-1945. São Paulo: Mnemocine Produções Editoriais Ltda ME., 2017.
PONTES, Heloísa. Destinos mistos: Os críticos do Grupo Clima em São Paulo (1940-1968). São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
XAVIER, Ismail. Sétima arte: Um culto moderno. São Paulo: Perspectiva, 1978.
WILLIAMS, Raymond. Cultura e materialismo. São Paulo: Unesp, 2011.