Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcia T Medeiros (sem vínculo)

Minicurrículo

    Mestre em Cinema pelo PPGCine-UFF e Esquizoanalista. Trabalha na área de audiovisual desde a década de 90 como diretora e editora. Dirigiu e editou curtas metragens, documentários e séries para a TV. É colaboradora em projetos formativos de interlocução entre Cinema, Educação e Práticas de Cuidado, entre eles: “Redução de Danos – Um Olhar de Dentro” ; “Revelando os Brasis” ; Cinequilombola e Cinemar.

Ficha do Trabalho

Título

    Redução de Danos – Um Olhar de Dentro

Seminário

    Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos

Resumo

    Redução de Danos – Um Olhar de Dentro foi realizado em 2003 e contou com a participação de 18 associações de Redução de Danos de todo o Brasil. O objetivo era contribuir para que os agentes redutores de danos pudessem, eles próprios, realizar os seus filmes. Esta apresentação tem como objetivo investigar de que forma o cinema pode operar nas políticas públicas de Estado, propondo modos inventivos de manejo do audiovisual, articulando memória, territórios e imagens.

Resumo expandido

    O projeto Redução de Danos – Um Olhar de Dentro foi realizado em 2003. Representantes de 18 associações de Redução de Danos (RD) de todo o Brasil participaram do projeto que tinha como objetivo contribuir para que os agentes redutores de danos pudessem, eles próprios, realizar os seus filmes. A ideia de uma oficina de introdução ao audiovisual surgiu como solução para o imenso desafio de atender à demanda do Ministério da Saúde por um “vídeo institucional” sobre redução de danos. Eu e Beth Formaggini, minha parceira na coordenação do projeto, entendemos a complexidade que seria uma equipe de profissionais de cinema terem acesso aos usuários de drogas em seus mocós – a forma como eram chamados os locais de uso de drogas injetáveis. Por outro lado, eram os agentes redutores de danos que trabalhavam na ponta, em contato direto com os usuários.
    O Ministério da Saúde, através de uma parceria entre a DST/Aids e a Política Nacional de Humanização do SUS (PNH) convidou dois representantes de cada uma das 18 associações de RD, de todas as regiões do país, para participarem das oficinas de audiovisual, que aconteceram em Brasília-DF.
    A RD é uma política que surgiu no Brasil em função da disseminação do HIV entre usuários de drogas injetáveis e se tornou fundamental no combate à AIDS. A PNH aposta nas práticas de saúde focando no protagonismo de todos os sujeitos implicados no processo de produção de saúde: gestores, trabalhadores e usuários. A RD é um paradigma importante no campo do anti-proibicionismo e da saúde pública que não trabalha com o pressuposto da abstinência e valoriza o direito dos usuários de drogas. O projeto RD – Um olhar de dentro foi pensado como um dispositivo potente para a valorização da perspectiva dos usuários de drogas.
    Durante as oficinas de audiovisual, foram oferecidas aulas de roteiro, produção, fotografia, som e edição, ministradas por quatro professores, todos profissionais do mercado audiovisual: Marcia Medeiros, Beth Formaggini, Aloysio Raulino e Bruno Vianna. Nas aulas de roteiro, a proposta era que os alunos listassem os diferentes projetos e ações de suas associações, para que então pudessem escolher as mais representativas para o registro audiovisual. A ideia era focar naquilo que era mais singular do trabalho de cada associação e que coubesse em vídeos de aproximadamente 20 minutos. A produção dos vídeos tinha dois objetivos principais: a mobilização dos redutores para o trabalho de ressignificação de suas experiências e a inserção dos mesmos em outros circuitos de produção. Transformar parte da dura realidade da RD em vídeos produzidos pelos próprios redutores, com o aval do Ministério da Saúde, era uma prova do reconhecimento da importância do trabalho desenvolvido pelas associações. Depois das oficinas, todos voltaram para as suas cidades comprometidos com a tarefa de gravação de seus vídeos. Dois meses depois, os relatos das gravações que chegavam pelo correio junto com as caixas de fitas, traziam as dificuldades e os desafios pelos quais passaram, mas também o orgulho pela tarefa realizada. A edição ficou a cargo de uma equipe no Rio de Janeiro. Das 18 associações que participaram das oficinas, 10 finalizaram a tarefa. O conjunto de vídeos produzidos pelas associações de RD retratam realidades distintas das ações nas diferentes regiões do país e expressam coletivamente uma parte significativa do cenário da RD no Brasil, no início dos anos 2000. Os filmes se tornaram acervos históricos essenciais para entender aquele momento político e nos ajudam a analisar os movimentos da Redução de Danos no presente. Esta apresentação tem como objetivo investigar de que forma o cinema pode operar nas políticas públicas do estado, fortalecendo e reformulando seus movimentos e propondo modos inventivos de manejo do audiovisual, tanto como uma memória viva, quanto como possibilidade de articular territórios e as imagens que se manifestam nos filmes.

Bibliografia

    BENEVIDES, R. & PASSOS, E. (2005). A humanização como dimensão pública das políticas de saúde. Ciência e Saúde Coletiva, 10(3), 561-571.
    FORUM NICARÁGUA – A pedagogia do dispositivo: pistas para a criação com imagens. In: Cinema-Educação: políticas e poéticas – Orgs: Cezar Leite, Fernanda Omelczuk, Luis Augusto Rezende. Socine. 2021
    Marques, F. & Doneda, D. (1998). A política brasileira de Reduçăo de Danos. In F. I. Bastos (Org.), Troca de seringa: drogas e Aids (pp. 137-152). Brasília: Ministério da Saúde.
    MEDEIROS, MARCIA – Revelando e Inventando Brasis, o cinema como dispositivo de invenção de mundos / Cinemas e Educações – 2024
    MIGLIORIN, Cezar. Cinema e clínica: a criação em processos subjetivos e artísticos. Rio de Janeiro, RJ
    PASSOS E, BARROS RB. A cartografia como método de pesquisa-intervenção. In: processos In: Passos E, Kastrup V, Escossia L, organizadores. Pistas do método da cartografia: pesquisa e produção de subjetividade Porto Alegre: Editora Sulina; 2009. p. 17-3