Ficha do Proponente
Proponente
- Rafael de Amorim Albuquerque e Mello (Sem vínculo)
Minicurrículo
- Rafael Mello é pernambucano, pesquisador e professor de Imagem e Criação do Sesc em Minas. Formado em Jornalismo (UFPE), em 2020 ingressou no PPGCOM/UFMG com a pesquisa de mestrado “Cinema que inventa o território”, onde investigou relações entre oficinas de cinema em ocupações urbanas em Belo Horizonte e Recife. Em 2025, ministrou a oficina “Imagens do Comum: Cinema, Educação e Direitos Humanos”, dentro da Mostra de Cinema e Direitos Humanos de BH.
Ficha do Trabalho
Título
- Retratar o mundo, experimentar o cinema: retrato audiovisual como percurso de criação
Eixo Temático
- ET 5 – ETAPAS DE CRIAÇÃO E PROCESSOS FORMATIVOS EM CINEMA E AUDIOVISUAL
Resumo
- O trabalho reflete sobre o percurso formativo do Núcleo de Formação Audiovisual do Sesc em Minas, propondo um ensino de montagem voltado à experimentação e ao olhar sensível. A partir da criação de retratos audiovisuais em que os alunos escolheram uma pessoa, um lugar ou uma memória como ponto de partida baseados em memórias e afetos, foram exploradas práticas que articulam território, identidade e experiência, destacando o “ver como criança” como princípio pedagógico.
Resumo expandido
- Este trabalho propõe uma reflexão crítica do percurso formativo durante o segundo semestre de 2025 do curso do Núcleo de Formação Audiovisual do Sesc em Minas. Distanciando-se de um padrão de ensino limitado ao domínio de técnica e software, nossa proposta foi criar uma experiência de ensino de montagem aberta à experimentação audiovisual e conectada aos gostos, desejos e intuições dos participantes.
Antes de adentrar no percurso, é importante situar o contexto do curso e o perfil dos alunos. O Núcleo é um projeto social gratuito que acontece desde 2023 no Centro de Belo Horizonte, voltado para jovens de 16 a 21 anos da região metropolitana, com duração de dois anos. Nosso objetivo é proporcionar a criação e discussão da prática audiovisual a partir da experimentação, escuta e envolvimento com subjetividades, histórias e territórios dos alunos. Reunindo jovens de diferentes realidades periféricas da RMBH, temos como desafio possibilitar expressões artísticas sem omitir contradições sociais, construindo um espaço fértil para aprendizagem e experimentação.
Nosso primeiro encontro foi centrado na discussão sobre as múltiplas formas de experienciar o cinema a partir da prática e do pensamento. O cinema elabora uma prática com o mundo capaz de criar desejos e desenvolver afetações em relação às formas e sentidos ao redor da vida. Trouxemos a ideia de “olhar para o mundo como uma criança”, recuperando uma ingenuidade tomada no processo de embrutecimento do olhar. A criança chora, questiona, ri, se machuca, tateia os limites do mundo. Nesse gesto mora uma premissa de ação cinematográfica: perceber e elaborar a multiplicidade de sentidos através da experimentação.
Assistimos uma cena de Os Incompreendidos (1959), em que Antoine e René caminham por Paris e entram numa centrífuga de um parque de diversões. À medida que o brinquedo gira, seus corpos ficam suspensos, as perspectivas se invertem e surge uma nova sensação de liberdade e caos. Em busca dessa experimentação, realizamos exercícios da cartilha do Fórum Nicarágua, como: filmar três coisas amarelas (mesmo que não sejam), fazer vídeos de desvios e prender o celular em algum lugar. Também vimos filmes que brincam com território, identidade e memória, como Mutirão, Praça Walt Disney, Trópico de Capricórnio e Fartura, entre outros.
Os alunos receberam a proposta de elaborar um retrato audiovisual a partir de uma pessoa. lugar ou acontecimento. Os retratos deveriam partir de algo com valor afetivo, criando abordagens que refletissem seus pontos de vista. O começo foi desafiador: alguns estavam empolgados, outros diziam que nada em suas vidas era interessante. Com o tempo, por meio de conversas coletivas e orientações individuais, os temas surgiram. Bruna resolveu retratar o irmão, que deixou de ser obreiro da Universal para virar candomblecista, gerando conflitos familiares. A partir de arquivos caseiros, realizou “Família Tradicional Brasileira”. Em “Memórias de Ontem”, Luiza falou sobre o condomínio onde mora desde sempre. A locução, em contato com as imagens, investiga arquivos familiares e narra lembranças como prova de existência: “as imagens provam que eu fui criança um dia”. Outro caso foi Ana, que quase desistiu do curso e dizia gostar apenas de seus cachorros. Propus então que os retratasse. Ela disse que seus cães pedem para olhar a paisagem da janela de sua casa, no bairro da Providência, Zona Norte da cidade, quando ela fala “Paisagem”, o que originou o vídeo de mesmo nome, um dos mais curtos e provocantes. Ao todo foram produzidos onze retratos. Eles foram divididos em dois grupos que sintetizam os processos: imagens que habitam lugares e fazer imagens porque se ama.
Ao compartilhar esse percurso, buscamos colocar em questão desafios e descobertas da experiência, sem produzir um roteiro pronto de ensino, mas defendendo o ponto de partida de “ver o mundo como criança” para reativar um olhar sensível, curioso e aberto à experimentação.
Bibliografia
- DUARTE, Rosália. Cinema & educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2002.
FRESQUET, Adriana. Cinema, infância e educação. Rio de Janeiro: Booklink, 2006. JARDIM, Gustavo da Rocha. A imagem emaranhada: territórios e singularidades em cinema e educação. 2023. Tese (Doutorado em Comunicação Social) – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2023.
LOBO, Liana. Montaulas: cenas de educação audiovisual com crianças. Belo Horizonte: Editora Multifoco, 2024.
MEDRADO SOARES ARAÚJO, Arthur. Cinema e contra-monumentos: inventários e cartografias com Olhares (Im)Possíveis (Ouro Preto/MG – 2017–2022). 2022. Tese (Doutorado em Cinema e Audiovisual) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2022.
MIGLIORIN, Cezar; PIPANO, Isaac. Cinema de brincar. Belo Horizonte: Relicário, 2019.
BERGALA, Alain. A hipótese-cinema: pequeno tratado de transmissão do cinema dentro e fora da escola. Rio de Janeiro: Booklink; CINEAD-LISE/FE-UFRJ, 2008.