Ficha do Proponente
Proponente
- Pedro Cardoso Freitas (UFRJ)
Minicurrículo
- Pedro Freitas é graduado em Cinema/ Audiovisual pela UFF e doutor em Artes da Cena pelo PPGAC/ECO/UFRJ. Há mais de dez anos participa da realização de projetos como documentários, videoclipes e ficções, principalmente nas funções: diretor de fotografia, filmmaker, iluminador e editor de vídeo. Atualmente sua pesquisa prática se desenvolve em torno do tema da fotografia analógica e da utilização de processos históricos fotográficos por artistas da cena contemporâneos.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens sencientes ou paranoIAs: processos contemporâneos de circulação nos dispositivos digitais.
Resumo
- Esta comunicação investiga modos de circulação de imagens no contemporâneo, em especial as geradas por IAs como o ChatGPT, e sua função de alimentar os algoritmos das redes sociais. Partimos da hipótese que tal sistema se estrutura em um formato paranóide, submetido por tais tecnologias. Neste contexto, nos valeremos dos escritos de Beiguelman(2021), para pensar como artistas e fotógrafos podem propor uma criação contrahegemônica de imagens como dispositivos de empatia e encontro com outro(s).
Resumo expandido
- Há algumas décadas a imagem fotográfica tem se desviado de seu caráter realista, processo que se intensificou desde a hegemonização das imagens em suporte digital. Ultimamente, contudo, essa tendência tem escalonado. Se as manipulações possibilitadas pelo tratamento digital das imagens passaram a dar o tom na virada do século XX, elas se intensificaram de forma mais premente nestes anos 2020, com a ascensão das tecnologias de geração de imagens por prompts proporcionados pelas ferramentas de Inteligência Artificial.
Nesse sentido, nos vale deter o olhar sobre essas transformações. Em que posição encontra-se agora os artistas e os fotógrafos em relação à crescente automatização na criação de imagens?Este artigo segue na esteira de uma pesquisa de Doutorado sobre o uso de imagens analógicas por artistas da Cena, no PPGAC//UFRJ. Nesta ocasião, me utilizei de um binômio bastante em voga na discussão sobre imagens na contemporaneidade, entre imagens digitais e analógicas, binômio sugerido por autores brasileiros que refletem sobre as imagens na contemporaneidade, como Fatorelli e Gonçalves.
Neste artigo buscarei aprofundar essa análise considerando os atuais desdobramentos das imagens geradas por IAs. Dada a rápida transformação pela qual passa o estatuto das imagens digitais – que parecem tornar dispensável a presença de um referente – nos parece insuficiente discutir apenas a questão dos suportes. Sendo assim, proponho um deslocamento da questão para como as imagens afetam aqueles que concebem as mídias contemporâneas- artistas , cineastas e fotógrafos.
No lugar do binômio citado, proponho outro, derivado deste. Em um dos pólos deste encontram-se as imagens capazes de afetarem os sentidos dos que as realizam – durante e após o seu processo de fazimento. Nos referiremos a elas aqui através da noção de imagens sencientes.
Do outro lado desse binômio, sugerimos a denominação de imagens paranóides para aquelas geradas por IAs generativas. Nessas imagens, os artistas perdem uma considerável parte de sua autonomia, visto que a própria estética das imagens está pré-definida pela programação, ou realizadas pela interação com aparelhos automatizados.
Como ressalta Beiguelman (2021), hoje em dia as imagens não são apenas quadros, mas “espaços de sociabilidade”. Elas não apenas representam o sujeito, mas o projetam. Nesse contexto, a ação dos artistas não se limita à criação, mas, também ao ato de colocar em circulação imagens que sejam incorformáveis. Por sua vez, no contexto contemporâneo, as imagens compartilhadas nas redes sociais são a todo tempo modelizadas pelos algoritmos. Elas são fontes de dados que se transmutam em ferramentas de vigilância. É nesse sentido que sugerimos que as imagens geradas por IAs podem ser entendidas como paranóIAs – meios imagéticos que alimentam uma superconsciência maquínica. Ao invés de se fazerem a partir de uma experimentação estética e corporal, surgem alimentadas por sentimentos como a ansiedade e fobia social, tornando-se frequentemente a reiteração de um padrão estético pré-existente.
A busca por essa conceituação para as imagens geradas por IA busca ainda inscrevê-la em um campo interdisciplinar entre as práticas artísticas e a clínica. Buscamos, portanto compreender também como as IAGens impõem novos desafios na defesa da saúde mental dos usuários das redes.
Por sua vez, a fotografia compreendida como um meio sensciente traz à tona uma capacidade empática – uma forma de partilhar com outro(s) uma determinada dor ou sofrimento, conforme sugere Sontag (2003). Considerar as imagens criadas por artistas como senscientes sugere um elo que se extende a seres não-humanos, como animais e vegetais. Este sentimento empático surge assim como oposto ao sensacionalismo dos discursos de ódio. Em tempos de sujeição radical dos sujeitos ao capitalismo de vigilância – compreender as imagens como elos empáticos não é apenas uma escolha estética, mas uma necessidade na busca por lutas políticas comuns.
Bibliografia
- BEIGUELMAN, Giselle. Politicas da Imagem: Vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Ubu Editora, 2021.
BENJAMIN, Walter. Pequena História da Fotografia. In: Magia e Técnica, Arte e Política. São Paulo: Brasiliense, (1931) 1994.
BENTES, Anna. Quase um Tique: economia da atenção, espetáculo e vigilância em uma rede social. Rio de Janeiro: Ed. UFRJ, 2021.
BRUNO, Fernanda. Máquinas de Ver, Modos de Ser: vigilância, tecnologia e subjetividade. Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2013.
CRARY, Jonathan. Terra Arrasada. Além da Era Digital, rumo a um mundo pós-capitalista. São Paulo: UBU Editora, 2023.
FATORELLI, Antônio (org.). Pós-Fotografia, Pós-Cinema. São Paulo. Edições SESC, 2019.
HAN, Byung-Chul. A expulsão do Outro. Petrópolis: Editora Vozes, 2022.
HUI, Yuk. Tecnodiversidade. São Paulo: UBU Editora, 2020.
SONTAG, Susan. Diante da dor dos outros. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
STEYERL, Hito. In defense of poor image. In: The Wretched of the Screen. Sternberg, 2020.