Ficha do Proponente
Proponente
- Letícia Badan Palhares Knauer de Campos (UNICAMP)
Minicurrículo
- Doutora em história da arte pela Universidade Estadual de Campinas, com a tese “O imaginário artístico e cultural do cinema de horror italiano e do giallo: origens, metamorfoses e tramas” (orientação: Prof. Dr. Jorge Coli e fomento FAPESP). Mestre em história da arte, e graduada em história pela mesma instituição. Membro do corpo editorial da Revista de História da Arte e da Cultura (Unicamp). Tem pesquisas sobre o uso das artes visuais no cinema italiano do período mudo, no horror e no giallo.
Ficha do Trabalho
Título
- Nuvens de dioxina e antenas da Mediaset: ecocrítica e horror político no cinema post-nuke italiano
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- A comunicação investiga o cinema italiano post-nuke e o apocalisse zombi sob a lente da ecocrítica e da crise cinematográfica dos anos 80. Analisa-se como o trauma ecológico de Seveso e a ascensão da telecracia de Silvio Berlusconi moldaram distopias que denunciam a falência institucional e a manipulação midiática, a partir da análise fílmica e histórica de Incubo sulla città contaminata (Lenzi, 1980), Endgame – Bronx lotta finale (D’Amato, 1983) e I guerrieri dell’anno 2072 (Fulci, 1984).
Resumo expandido
- Em 10 de julho de 1976, o imaginário do progresso industrial italiano fraturou-se. O rompimento de um tanque de dioxina na planta da ICMESA, em Seveso, liberou uma nuvem tóxica sobre a Lombardia. Este desastre biopolítico, que exigiu o sacrifício de milhares de animais e marcou a saúde pública local, não se encerrou em relatórios epidemiológicos. Foi Italo Calvino quem apontou o desastre como um colapso de ordem humana, em artigo veiculado no Corriere della Sera, em agosto daquele ano. O autor associou os cataclismas naturais às investidas capitalistas contra o ecossistema.
É neste período que um outro braço da corrupção italiana encontra vias de supremacia. Aprovada em 1975, a “Riforma della Rai” instituiu o fim do monopólio estatal televisivo, possibilitando a criação de emissoras privadas de TV – evento que confirma o eclipse do cinema de gênero no país. Já restritos aos “pidocchietti” (as salas de seconda e terza visione) os filmes de gênero passam a sofrer com o ostensivo ataque daquilo que Riccardo Freda identificava como “um vírus terrível”, o “anti-cinemascope”: a televisão. Na Itália, esse corruptor pode ser identificado por sua antonomásia menos discreta: Silvio Berlusconi.
Como um evidente sismógrafo de seu tempo, esse cinema evidenciou as rachaduras políticas e sociais da Itália. É particularmente em dois subgêneros do horror e da ficção científica, o post-nuke e o apocalisse zombi, que essas questões se endereçam de maneira patente. Incubo sulla città contaminata (Umberto Lenzi, 1980) reconfigura a mitologia zumbi ao afastar-se do sobrenatural, em favor de uma problemática de ordem social e política. Refletindo diretamente o trauma de Seveso e a poluição industrial da região de Brianza, o filme apresenta a contaminação como fruto das perversões humanas. No epicentro de um sistema autocrático, o exército contaminado de Lenzi é impelido pelo ensejo de uma desestabilização sistêmica totalizante, através de uma manipulação insurgente das instituições de poder: mídia, igreja, ciência e forças armadas. As criaturas são resultado direto de um desastre radioativo, e se coordenam sob o único intuito comum de entropia civilizatória.
Às margens das transformações zumbis, mas igualmente talhados na crítica à hegemonia televisiva, estabelecem-se outros dois filmes: I guerrieri dell’anno 2072 (Lucio Fulci, 1984) e Endgame – Bronx lotta finale (Joe D’Amato, 1983). Ambos oferecem uma leitura terminal do aparelho midiático-capitalista, sob a sombra dos satélites da Mediaset. Lançado durante o Decreto Berlusconi – normativa de Bettino Craxi que consolidou o duopólio televisivo através da redifusão (lottizzazione) –, o filme de Fulci projeta uma Roma ultramoderna onde o extermínio é codificado como entretenimento visual. A trama gira em torno da WBS, que utiliza condenados em combates de gladiadores futuristas para manter sua audiência. De forma análoga, o longa de D’Amato apresenta gladiadores mutantes obrigados a duelar em uma cidade vetusta, calcada no medievalismo e desbastada pelo desastre atômico. Ali, a barbárie pós-industrial se codifica sob as leis de um regime fascista, e a TV opera como instrumento panóptico do controle social.
Sob prismas distintos, Lenzi, Fulci e D’Amato satirizam o cenário apocalíptico da Itália pós anos de chumbo, tendo a distopia como pano de fundo. A presente proposta de comunicação tem, portanto, o intuito de evidenciar como tais exemplares do cinema post-nuke canalizam uma crítica axiomática e vernacular da Itália de seu tempo, por meio de uma análise fílmica, histórica e comparativa. Distante dos modelos internacionais do gênero, o post-nuke nostrano configura uma ambiguidade que se sustenta em signos sociais do passado, postos à luz de uma civilização futura, para evidenciar as mazelas de sua época coetânea. Propomos que, em tais obras, o fim do mundo não é uma possibilidade futura, mas um evento em curso, consolidado pela fusão entre degradação ambiental e hegemonia midiática.
Bibliografia
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