Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Josué da Silva Bochi (UFF)

Minicurrículo

    Graduado em Cinema (UFF) e Publicidade e Propaganda (UFRGS). Mestre em Filosofia (UFF), na linha de pesquisa de Estética e Filosofia da Arte, com uma dissertação sobre Eduardo Coutinho. Doutor em Filosofia (UFF), também na linha de Estética e Filosofia da Arte, com uma tese sobre Jacques Rancière.

Ficha do Trabalho

Título

    Subtração ou excesso: o documentário de Eduardo Coutinho entre duas compreensões de realismo

Resumo

    A apresentação propõe que a obra documentária de Eduardo Coutinho, sobretudo a partir de “Santo Forte” (1999), pode ser compreendida a partir da conjugação de duas operações contraditórias que partilham o mesmo nome de realismo: um realismo da subtração, orientado à fundação de uma comunidade ética, e um realismo do excesso, orientado à fundação de uma comunidade estética. Para tanto, dialogo com diferentes leituras das transmutações do realismo na arte contemporânea: Foster, Rancière e Badiou.

Resumo expandido

    Talvez a potência da obra do documentarista brasileiro Eduardo Coutinho (1933-2014) – sobretudo a partir de “Santo Forte” (1999), que estabelece a poética minimalista de seus últimos filmes – resida na conjugação de duas operações contraditórias que partilham o mesmo nome de realismo.

    Primeiro, “o realismo [que] pretende ser a sadia atitude do espírito que se restringe às realidades observáveis” (Rancière, 2018, p. 145): concentrando-se nas cenas de encontro do cineasta com pessoas anônimas, Coutinho abre mão de quase todos os recursos cinematográficos que, no “modelo sociológico” (Bernardet, 2003) de documentário, sobrepunham à fala viva do outro o discurso do intelectual que se julgava “porta-voz do povo”. O resultado, enunciado de diferentes modos por diversos críticos, é o testemunho de acontecimentos absolutamente singulares de expressão e de sociabilidade capazes de fundar certa comunidade ética inscrita na materialidade do filme. Nesse sentido, José Carlos Avellar observa a respeito de “Jogo de Cena” (2007) que “talvez seja possível dizer que o documentário é […] o instante em que o gesto da pessoa que filma se alinha com o da pessoa filmada e com o da pessoa que vê o filme” (Avellar, 2010, p. 133).

    Por outro lado, a obra de Coutinho também é realista segundo uma operação contrária à da subtração: é o realismo do “excesso descritivo” ou do “excesso de representação das coisas” (Rancière, 2010, p. 76), da tagarelice democrática que, segundo Rancière, funda uma “comunidade estética” ao distanciar, pela palavra ficcional, uns dos outros e cada um de si mesmo. Por mais que, ao escolher a ordem das personagens em seus filmes, Coutinho julgasse que “ninguém é consequência de ninguém” (cf. Berg, 2017, p. 9), ele tinha a consciência de que a potência de seus filmes não derivava apenas da singularidade de cada encontro, como também das aproximações e contrastes entre as diferentes cenas. Seus filmes se apresentam como mosaicos que cada espectador “observa, seleciona, compara, interpreta” (Rancière, 2012, p. 17) e monta inevitavelmente à sua maneira, de maneira ativa e não conformada à injunção ética de testemunho de mundos absolutamente singulares. É apenas ao admitir que as interpretações extrapolam a “energia vital” (ibid., p. 17) supostamente própria a cada performance que a obra de Coutinho pode alcançar certa universalidade, certa ideia ou certo afeto de mundo (ou de mundos), de Brasil (ou de Brasis) que nenhum tratado sociológico poderia oferecer.

    Meu interesse é pensar tal tensão entre duas compreensões de realismo em relação com as transformações de paradigmas da arte nas últimas décadas. Se pensarmos com Hal Foster, um autor atento às transmutações do realismo na arte contemporânea, a “traição” da singularidade de cada cena de encontro pela justaposição com outras cenas pode ser tomada não com um mal necessário, e sim como uma prática de “atenção e cuidado” (Latour apud Foster, 2021, p. 175) com as ficções que a “postura de desconstrução” até então julgava necessário desmascarar. Após o “retorno do real” característico da virada ética da década de 1990, uma “última mudança no enquadramento do real” (Foster, 2021, p. 183) colocaria o “brilho utópico da ficção […] a serviço do real”. Quero avaliar o quanto o desenvolvimento da obra de Coutinho, de “Santo Forte” até o radical experimento narrativo de “Jogo de Cena”, corresponde à narrativa de Foster, ou se, mais do que uma mudança de “enquadramento” condicionada pelo processo histórico, não seria o caso de pensar em uma dobra de um enquadramento sobre o outro. Para tanto, dialogarei também com a crítica de Rancière à “virada ética contemporânea” (Rancière, 2023, p. 117) e com o conceito de Badiou de “paixão do real”.

Bibliografia

    AVELLAR, José Carlos. “A câmera lúcida”. Em: MIGLIORIN, Cezar (org.). Ensaios no real. Rio de Janeiro: Beco do Azougue, 2010.

    BERNARDET, Jean-Claude. Cineastas e imagens do povo. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

    BADIOU, Alain. Em busca do real perdido. Belo Horizonte: Autêntica, 2017.

    BERG, Jordana. “Diário de montagem”. Em: ALTMANN, Eliska; BACAL, Tatiana (orgs.). Últimas conversas. Rio de Janeiro: 7Letras, 2017.

    FOSTER, Hal. O que vem depois da farsa? São Paulo: Ubu, 2021.

    RANCIÈRE, Jacques. “O efeito de realidade e a política da ficção”. Novos Estudos CEBRAP, n. 86, março 2010. pp. 75-90.

    RANCIÈRE, Jacques. O espectador emancipado. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2012.

    RANCIÈRE, Jacques. O desentendimento: política e filosofia. São Paulo: Editora 34, 2018.

    RANCIÈRE, Jacques. “Pensar entre as disciplinas: uma estética do conhecimento”. Punkto. Edição 33. 2021.

    RANCIÈRE, Jacques. Mal-estar na estética. São Paulo/Rio de Janeiro: Editora 34/Editora PUC-Rio, 2023.