Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Helosa Maria de Castro Araujo (UFC)

Minicurrículo

    Helosa Araújo é mestre pelo PPGCOM-UFC (com bolsa funcap) e estudante do terceiro ano de doutorado (PPGCOM-UFC) com bolsa CAPES, orientanda da professora Beatriz Furtado. Pesquisa cinema de mulheres negras e indígenas como produção de memória, pertencimento e conhecimento a partir da encruzilhada de Leda Maria Martins (2022). Palavras-chave: memória-corpo; memória-territorio; memória-arquivo; cinema; fotografia; contracolonialidade.

Ficha do Trabalho

Título

    Esù faz o erro virar acerto: processos metodológicos das encruzilhadas entre a análise e a educação.

Seminário

    (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências

Resumo

    “Esù faz o erro virar acerto”, no momento em que torna um caminho, antes considerado inadequado, naquilo que produz sentido. Entre a memória e o pertencimento, este trabalho apresenta a encruzilhada (Leda Martins, 2022) enquanto método, tanto para análises fílmicas de obras de mulheres negras e indígenas quanto no âmbito do ensino da fotografia e do vídeo, para entender até que ponto estamos promovendo o encontro na fronteira entre a produção de conhecimento e a atuação na educação?

Resumo expandido

    Esù é o orixá da comunicação (Gonzalez, 2022). Aquele que nomeia, que não engole as escolhas das quais não aceita, e regurgita em sinal de resposta. É o orixá que abre o mercado, o das negociações (Prandi, 2020), que leva a informação e garante que ela seja entregue devidamente ao remetente, aquele que abre os caminhos. Para Leda Maria Martins (2022), “Èsù funciona como o princípio do qual emergem as possibilidades de criação e tradução de saberes” (p.53).
    A colonização, por outro lado, é também um método (Moten, 2024). O que afeta desde as escolhas às definições impostas por saberes pré-julgados. O cinema, enquanto tecnologia ou ferramenta capaz de promover um quilombo (Beatriz Nascimento, 2022), é “a resistência. Uma possibilidade nos dias da destruição” (p.130), pode não dialogar com análises realizadas a partir de métodos eurocêntricos, como pode não dialogar com os caminhos para uma educação a partir da forma como se propõe contar sua história ou passar seu conteúdo.
    É preciso não só uma metodologia para movimentar da margem ao centro (bell hooks, 2019) sujeitas de uma pesquisa, passando por quem analisa ou como educa, mas em como, a partir de um lugar do encontro, as fronteiras entre ambas possam se unir. Quando comunicação é um “ato de contar o que pensa aos seus semelhantes” (Sodré, 2015) e passa a ser elaborada e organizada a partir dos sujeitos e sujeitas (Kilomba, 2019) que escolhem seus métodos para fazê-la, ela se torna centrada em pessoas.
    Na cosmopercepção iorubá (Oyewumí, 2021), os saberes se instauram pela encruzilhada (Martins, 2022) enquanto “ponto nodal que encontra o sistema filosófico-religioso de origem iorubá uma complexa formulação” (p.52). E é neste ponto em que encontrei caminhos para atuação, seja para análises, seja na educação. Enquanto professora do CCBJ (Centro Cultural Bom Jardim) do ateliê de Fotos e Vídeos para redes sociais nos anos de 2023, 2024 e 2025, pude observar o quanto não somente o método da encruzilhada, mas o dos encontros (Azoulay, 2024) foram relevantes e apreciáveis para que o sentido do trabalho girasse, não somente, na entrega do conteúdo, na participação da turma, mas no sentido e na centralidade de um grupo de pessoas onde a maioria era negra, periférica e mulher. Ouvir de Roberta “Professora, agora eu me vejo” ou do Jorge “Isso fez muito sentido na minha vida” me fez perceber o quanto, a partir de nós mesmas, dos nomes que damos às coisas, do espiralar do tempo, se faz necessário e urgente a promoção de perguntas simples como: quem fez, onde fez e quem contou?
    De que maneira observar o quanto essas turmas conseguiram seguir um caminho crítico da imagem, a partir do encontro com esses questionamentos como base na estrutura do pensamento e do modo como, a partir delas, apresentei imagens, histórias e modos de fazer. E ver que, de maneira inicial, a fotografia fez sentido para elas. O que não se distancia dos processos e caminhos analíticos entre quem fez, onde fez e quem contou, analisar filmes racializados também precisa propor questionamentos para a promoção da continuidade de seus sentidos.
    Uma obra fílmica negra ou indígena analisada a partir da encruzilhada é capaz de acolher as contradições de nossas imagens (Mariana Lacerda, 2026) da mesma forma que atravessa as contradições das imagens entregues em uma sala de aula plural e diversa no encontro com os sentidos. No entanto, até que ponto estamos promovendo o encontro na fronteira entre a produção de conhecimento e a atuação na educação?
    Por fim, é inegável que estejamos, enquanto pesquisadoras/es, passando por momentos de negociações em torno das escolhas metodológicas. Mais precisamente, dentro dos campos da contracolonialidade, anticolonialidade e até decoloniais. Os modos de fazer, juntamente com as escolhas epistemológicas, precisam partir daquilo que faz sentido para objetos, sujeitos e sujeitas de pesquisa que não se esgotam em caminhos únicos, sendo plurais, assim como suas e seus autores e autoras.

Bibliografia

    AZOULAY, Ariella Aisha. História potencial: desaprender o imperialismo. Ubu Editora, 2024.
    GONZALEZ, Lélia; HASENBALG, Carlos. Lugar de negro. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2022.
    hooks, bell. Olhares negros: raça e representação. Editora Elefante, 2019.
    KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Editora Cobogó, 2020.
    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar, poéticas do corpo-tela. Editora Cobogó, 2022.
    MOTEN, Fred. Sobcomuns: Planejamento fugitivo e estudo negro. Ubu Editora, 2024.
    NASCIMENTO, Beatriz. O negro visto por ele mesmo: ensaios, entrevistas e prosa. Ubu Editora, 2022.
    OYEWUMI, Oyeronkẹe. A invenção das mulheres: construindo um sentido africano para os discursos ocidentais de gênero. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA, 2021.
    PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. Companhia das Letras, 2020.
    SODRÉ, Muniz. A ciência do comum: notas para o método comunicacional. Editora Vozes Limita