Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Marcelo Ricardo dos Santos (UFBA)

Minicurrículo

    Doutorando em Comunicação e Culturas Contemporâneas pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, é mestre em Estudos Étnicos e Africanos pelo PósAfro – UFBA. Jornalista e Bacharel em Humanidades, Marcelo Ricardo é também realizador em audiovisual.

Ficha do Trabalho

Título

    Habitar o mundo em si: Procedimentos encantatórios de Jeferson De para Narciso (2026)

Resumo

    Este trabalho analisa Narciso (Jeferson De, 2026) a partir dos procedimentos encantatórios para fabular modos de se ver no mundo, articulando mito, cinema e epistemologias negras. Ao revisitar o mito grego, o filme nos permite tensionar o “fora-do-mundo” oriundo do colonialismo e propor, com o encanto de Oxóssi, outras possibilidades para estilhaçar o espelho, abrir frestas na tela e estender o abismo em uma relação, em que a obra se configura como corpo e forma de habitar.

Resumo expandido

    Este trabalho toma o longa-metragem Narciso (Jeferson De, 2026) enquanto aspirações dos modos de habitar o mundo. Na obra, De revisita Narciso Rap (2005), convocando, por meio das infâncias e juventudes negras, uma reflexão sobre as tramas da identidade. A casa de passagem assoma como espaço provisório de afetos, cercado pelo mundo exterior, onde abandono e promessas de pertencimento implicam nos modos de ver a si. É o Mundo dos Sonhos que sustenta Narciso como “filho redentor” de uma família branca e rica, mas noutras partes do mundo, que se delineiam seus possíveis fins, e recomeços. Um plano aberto do mundo evidencia o sinal fechado para Narciso, que é mais uma vez como mercadoria avariada. A cena parece aderir a elaboração de Ferdinand (2022) ao descrever a violência dos fundamentos do habitar colonial, que restringe a existência de certos sujeitos e nega a coexistência com o outro. Ao designar o “fora-do-mundo”, revela-se um estranhamento radical: ver-se a partir das políticas do porão, que instituem a recusa do mundo ao sujeito negro, cujas funções não são reconhecidas.

    No mito grego, Narciso morre ao se fixar na própria imagem, na premissa de De o herói não pode ver seu reflexo. A interdição produz uma duplicidade: a tela é nosso espelho criando uma dobra entre personagem e espectador. Para Wilderson III (2010), o esforço de inscrever o negro no campo do “ser” assume uma forma narcísica de alguns teóricos e cineastas negros, ao tentar situá-lo em um mundo que o exclui estruturalmente. A analogia com outros sujeitos oprimidos operaria como mistificação, pois o negro é posicionado por uma violência que o retira da relacionalidade. Em De, contudo, o mito é fundamento como são para as matrizes africanas. Sob o encanto de Oxóssi, Narciso desbrava outra possibilidade de existência. A tríade caçador (ser do desejo), flecha (força do desejo) e caça (desejo), articula desejo e movimento, enquanto o ewo (proibição) organiza o conflito: não ver o próprio reflexo. Assim, a projeção do olhar, que como uma flecha, fere da tela e o mundo do Narciso negro, a proposta de Glissant (2021) nos leva do abismo em direção à relação. A estética em preto e branco veste o realismo mágico expandindo o mundo-caos que afirma a busca da relação para o conhecimento do Todo.

    O romance Um Dia para as Famílias Negras (Malê, 2024), de Davi Nunes, também nos oferece uma chave de leitura ao tensionar a construção de um mundo próprio frente à recusa do mundo imposto. Diferentemente de Narciso, Amira e Areta crescem em um lar que celebra a negritude, mas têm suas subjetividades interditadas na escola branca. Ainda assim, seus pais constroem um “quilombo íntimo”, onde viver não se reduz à utilidade ou ao sofrimento, mas frutifica o dengo, como força poética da relação. Na obra de De, o olhar de Narciso para o reflexo fragmenta o mundo, e assim como o conto mobilizado na perspectiva Irê Ayó, da educadora Vanda Machado (2019), reconfigura simbolicamente o espelho. Se Fanon (2020) lembra que a pessoa negra se percebe como um espelho quebrado, aqui, o espelho fragmentado é o que deixa ver e se enxergar nas frestas entre os mundos.

    A realização do longa, ao dobrar o curta, sugere um campo de aprendizagem com a própria imagem e com a ancestralidade, constituindo um “ser sendo” coletivo. Trata-se de um mundo do dengo, elaborado na oralitura (Leda Maria Martins, 2003), em que o corpo inscreve saberes. O corpo de Narciso, inicialmente rejeitado, admirado em closes prolongados imprime o ânimo para a fuga, ainda que na tensão e resistência, que propicia a radicalidade do otimismo (Moten, 2022). Cenas como as de Joaquim que se comunica por meio do violão acumulam a densidade do filme, até desaguar no choro que evidencia a radicalidade dos afetos. Retomamos, assim, a tríade de Oxóssi, agora como Fariomá, noção de corporeidade como comunicação com o mundo, proposta por Francislene Sales (2023), na qual o corpo não apenas sente, mas é o próprio mundo em relação.

Bibliografia

    FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: Ubu Editora, 2020

    FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial: pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu, 2022.

    GLISSANT, Édouard. Poética da Relação. Tradução de Eduardo Jorge de Oliveira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021

    MACHADO, Vanda. Irê Ayó: uma epistemologia afro-brasileira. Salvador: EDUFBA, 2019

    MARTINS, Leda. Performances da oralitura: corpo, lugar da memória. Letras (Santa. Maria). Santa Maria, v, 25, p. 55-71, 2003

    MOTEN, Fred. Otimismo negro/Operção Negra, Chicago, 10/19/08. Tradução livre. Bibliopreta, 2022. (Título Original: black optimism/black operation. Fred Moten)

    NUNES, Davi. Um dia para famílias negras. Rio de Janeiro: Malê, 2024.

    ÒSÓSI, Mãe Stella de. Òsósi: O Caçador de Alegrias. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo, 2006.

    SALES, Francislene C. F.. Título da dissertação. Ano. Dissertação (Mestrado em Programa de Pós-Graduação em Artes Cênica