Ficha do Proponente
Proponente
- Sofia Sayuri Miyamoto (UEFS)
Minicurrículo
- Mestranda do programa de pós graduação em Desenho, Cultura e Interatividade da Universidade Estadual de Feira de Santana; bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, onde foi bolsista do programa de educação tutorial (PET) Cinema UFRB; Atualmente é membro do VISU, grupo de Pesquisa e Extensão em Arte, Imagem e Visualidades da Cena. Tem experiência na área de Artes e Cinema e realiza pesquisas com ênfase em direção de artes e videogames
Ficha do Trabalho
Título
- A direção de arte como parte do discurso do filme
Eixo Temático
- ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL
Resumo
- Este trabalho propõe uma abordagem da Direção de Arte audiovisual a partir da Análise do Discurso de Michel Pêcheux, compreendendo-a como uma instância de produção discursiva e não apenas como organização estética da cena. Argumenta-se que a materialidade visual produzida pela Direção de Arte mobiliza um interdiscurso — repertório de já-ditos — que orienta a construção do espaço fílmico. Defende-se, assim, que a visualidade cênica atua como materialidade discursiva produtora de sentidos.
Resumo expandido
- Quando se trata das produções cinematográficas, diversos departamentos colaboram para compor o produto final, cada um com suas responsabilidades específicas. Entre esses, destaca-se o departamento de Direção de Arte, cuja atuação se estende, sobretudo, às etapas de pré-produção e produção. Essa área é responsável por transpor visualmente os elementos do roteiro para a materialidade do filme, atuando em conjunto com a direção de fotografia, na concepção da linguagem visual do projeto. Nesse sentido, a Direção de Arte pode ser compreendida como o campo que organiza e materializa os aspectos visuais da cena, sendo o diretor de arte o profissional incumbido de conceber e executar o conceito visual da obra, além de coordenar a equipe de arte. Tal função implica uma relação direta com diferentes agentes, como cenógrafos, figurinistas, maquiadores, técnicos de efeitos especiais, continuístas, designers gráficos, produtores de arte e produtores de locação (Paiva, 2015).
Essa dimensão da visualidade cinematográfica pode ser analisada a partir das contribuições do filósofo Michel Pêcheux, especialmente no que concerne à noção de discurso. Para o autor, o sentido não está contido no texto em si, portanto não é possível analisar um enunciado como uma unidade linguística autossuficiente. Indo de encontro com os linguísticos estudiosos de sua época, Pêcheux afirma que o sentido do discurso seria produzido a partir de suas condições de produção. Tais condições englobam o contexto histórico, social e ideológico, o lugar social dos sujeitos envolvidos no processo enunciativo e a memória discursiva que atravessa aquilo que é dito. Essa memória discursiva pode ser compreendida, em Pêcheux, como o interdiscurso — isto é, o conjunto de já-ditos que circulam historicamente e que tornam possível todo novo dizer (Pêcheux, 1990).
Nessa perspectiva, o sujeito não é concebido como origem autônoma de seu discurso, mas como efeito das formações discursivas que o constituem. Trata-se de uma posição-sujeito, inscrita em um dado lugar social específico, que orienta e condiciona a produção de sentidos a partir da ideologia na qual está inserido. Assim, aquilo que o sujeito enuncia não emerge puramente de si, mas de um campo histórico e ideológico que o precede e o atravessa (Pêcheux, 1990). Nenhum discurso emerge de forma isolada, mas se constitui a partir de um repertório prévio de sentidos disponíveis. O discurso, portanto, constitui-se como o espaço em que a linguagem se articula com a ideologia, sendo atravessado por formações discursivas que delimitam o que pode ou não ser dito.
Pensando nessas ideias no campo da Direção de Arte, torna-se possível compreender o espaço cênico como uma forma de materialidade discursiva. A escolha de determinadas representações visuais não apenas situa a narrativa, mas inscreve a obra em posições ideológicas específicas. Desse modo, o espaço “fala” antes mesmo da enunciação verbal, produzindo sentidos que orientam a leitura do espectador. No campo da Direção de Arte, o interdiscurso pode ser relacionado ao repertório visual mobilizado pelo diretor de arte, que se apoia em referências estéticas, históricas e culturais previamente sedimentadas para construir o universo visual da obra.
Assim, é possível pensar a Direção de Arte também como um lugar social de enunciação. Ao articular os diversos elementos visuais da cena, o diretor de arte ocupa uma posição de sujeito discursivo, sendo responsável por traduzir o roteiro — entendido aqui como discurso escrito — em uma materialidade. Suas escolhas, que envolvem a paleta de cores, composição dos figurinos, configuração de cenários e objetos de cena, constituem formas de nomeação do real, orientando a construção de sentido e definindo, para o espectador, o modo como aquele universo deve ser compreendido.
Bibliografia
- PAIVA, M. L. A DIREÇÃO DE ARTE NO AUDIOVISUAL BRASILEIRO: uma abordagem sobre suburbia. 2015. 145 f. Dissertação (Mestrado) – Curso de Multimeios, Instituto de Artes, Unicamp, Campinas, 2015.
PÊCHEUX, M. ([1969] 1990). “Análise automática do discurso (AAD-69)”. Trad.: Eni P. Orlandi. In: GADET, F.; HAK. T. (Orgs.). Por uma análise automática do discurso; uma introdução à obra de Michel Pêcheux. Campinas: Ed. da UNICAMP.