Ficha do Proponente
Proponente
- Lorena Carneiro Almeida Andrade (UFBA)
Minicurrículo
- Lorena Andrade é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA) e integra o grupo de pesquisa (an)arqueologias do sensível. É também membro do Mirá – Núcleo de Animação da EBA/UFBA, onde contribui na área de pesquisa. Jornalista e mestre em Comunicação, ambas pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), se interessa em investigar o cinema negro de animação baiano e suas contribuições nas disputas de memória sobre o Brasil.
Ficha do Trabalho
Título
- Literatura-terreiro em cena: a ginga das cosmopercepções afrodiaspóricas em “Òpárá de Òṣùn”
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- O artigo analisa o curta-metragem de animação “Òpárá de Òṣùn: Quando Tudo Nasce” (2018), de Pâmela Peregrino, à luz do conceito de literatura-terreiro (FREITAS, 2025). Partindo da encruzilhada (RUFINO, 2019; MARTINS, 2021) como operador conceitual, buscamos sugerir alguns dos modos a partir dos quais seja possível compreender esta obra audiovisual também como parte do campo literário e como esta ginga contribui com a expressão da multimodalidade de uma estética negra.
Resumo expandido
- O artigo analisa o curta-metragem de animação “Òpárá de Òṣùn: quando tudo nasce” (2018), de Pâmela Peregrino, obra produzida a partir de um projeto do terreiro de candomblé Abassá da Deusa Òsùn de Idjemim, em Paulo Afonso (BA). A partir do entendimento do caráter multimodal das artes negras e seu rompimento com a lógica grafocêntrica da literatura (FREITAS, 2016, p. 59), apontamos cruzamentos possíveis entre a obra audiovisual, que se insere no conceito de Cinema Negro de Animação proposto por Peregrino e Edileuza Penha de Souza (2020), e a noção de literatura-terreiro apontada por Freitas (2025). Para a análise, utilizamos como operador conceitual a noção de encruzilhada (RUFINO, 2019; MARTINS, 2021), que destaca a necessidade de se romper com as lógicas monológicas e desencantadas dos pensamentos ocidentais para abrir novas possibilidades de invenção e afirmação da vida e do mundo (RUFINO, 2019, p. 13).
O curta-metragem apresenta a força da Òrìṣà Òsùn, divindade ligada às águas doces e à fertilidade, e como a partir dela tudo nasce na força do asè. A construção do roteiro e produção do filme — realizado com a técnica de stop motion, em que cenários e pequenos bonecos são produzidos e fotografados quadro a quadro — se deu em âmbito comunitário, dentro do terreiro, numa dinâmica integrada aos cuidados cotidianos e às funções religiosas da casa.
Para entender essas trocas e trânsitos da construção fílmica, a pesquisadora e diretora do filme Pâmela Peregrino (2023) parte da encruzilhada como um operador conceitual de análise (p.17). Leda Maria Martins (2021) explica que a encruzilhada pode ser entendida como uma instância simbólica e metonímica que é “lugar radial de centramento e descentramento, interseções e desvios, texto e traduções, confluências e alterações, influências e divergências, fusões e rupturas, multiplicidade e convergência, unidade e pluralidade, origem e disseminação” (p.34).
A partir disso, podemos entender que a animação de narrativas ancestrais contadas a partir do terreiro, que compõe o que a pesquisadora chama de Cinema Negro de Animação – CNA (2020), não se enrijece nas lógicas hegemônicas do fazer cinema, nem se inicia ou finaliza com a produção da obra em si. Na encruzilhada deste fazer fílmico, o curta-metragem não surge tentando traduzir ou enquadrar no limite das telas um saber ancestral. Ao nascer desses saberes, o curta-metragem os expande, construindo novas formas de tecer essas narrativas que aliam o tecnológico ao ancestral.
Assim como o CNA, Henrique Freitas (2025) aponta que a literatura-terreiro “liga-se aos textos produzidos desde o corpo negro permeado pela cosmogonia africana e negro-brasileira” (p.88). Ancorada na filosofia da ancestralidade, ela emerge das epistemologias que fundam as religiões afrobrasileiras e exploram a multimodalidade. Nesse sentido, para além do texto escrito, a dança, escrita, música, imagens, etc, constituem o que Gunther Kress e Theo Van Leewen chamam de texto multimodal ou a Arkhé de uma estética negra (FREITAS, 2016, p. 59-60).
Nesse sentido, podemos sugerir que o curta “Òpárá de Òṣùn…” também se inscreve no campo da literatura a partir de uma ginga que rompe com as fronteiras entre literatura e audiovisual. Mais do que dissolver ou criar barreiras, esse entendimento reitera que a produção artística é um cruzo de diversos matizes – uma encruzilhada criativa que expressa a riqueza das cosmopercepções afrodiaspóricas.
Bibliografia
- CRUZ, Pâmela Peregrino da. Arte na encruzilhada: Candomblé, cenografia, cinema negro de animação e processo pedagógico. Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, 2023.
FREITAS, Henrique. Literatura terreiro. Salvador: Segundo Selo, 2025.
FREITAS, Henrique. O arco e a arkhé: ensaios sobre literatura e cultura. Salvador: Ogum’s Toques Negros, 2016.
MARTINS, Leda Maria. Afrografias da Memória: o Reinado do Rosário no Jatobá. 2 ed. São Paulo: Perspectiva: Belo Horizonte: Mazza Edições, 2021.
ÒPÁRÁ de Òṣùn: quando tudo nasce”. Direção de Pâmela Peregrino. Brasil, 2018. WEB.
PEREGRINO, Pâmela; SOUZA, Edileuza Penha. Candomblé e Cinema de Animação: Estratégias de resistência e territorialidade. Avanca Cinema International Conference – Capítulo II – Cinema. Avanca: 2020, p. 351 – 358.
RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.