Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Ananda Fortunato da Cruz (UNICAMP)

Minicurrículo

    Doutoranda em História, Teoria e Crítica de Arte pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Mestre em Artes Visuais pelo Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP). Possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Nos últimos anos, tem pesquisado as intersecções entre cinema e as artes plásticas.

Ficha do Trabalho

Título

    O olhar de Aleksandr Sokurov sobre as ruínas de Hubert Robert

Resumo

    A comunicação volta-se para os aspectos culturais e estéticos nas ruínas pictóricas elaboradas pelo artista setecentista francês Hubert Robert (1733-1808) que aparecem no curta-documentário Hubert Robert: uma vida afortunada (1996), de Aleksandr Sokurov (1951-). Enquanto narra a biografia do artista, Sokurov filma os detalhes de suas paisagens situadas no Museu Hermitage, moduladas por efeitos atmosféricos e justaposições, que se confundem com o próprio interior do museu.

Resumo expandido

    Em uma de suas incursões cinematográficas em museus, Aleksandr Sokurov prestou homenagem a Hubert Robert, o proeminente artista francês conhecido por suas paisagens idílicas e composições de monumentos em ruínas. Filmado no Museu Hermitage, que abriga uma vasta coleção de obras do pintor, Hubert Robert: uma vida afortunada (1996) une a história de vida do artista à captação de suas pinturas. Além disso, o filme atua como um arquivo do próprio Hermitage, possibilitando novos sentidos e construindo outras camadas perceptivas para as obras de arte e para o seu espaço arquitetônico.
    Filmando os detalhes das obras sob efeitos atmosféricos que introduzem névoas e embaçamentos na imagem, as construções elaboradas por Hubert Robert se confundem com os próprios ornamentos do museu. Seguindo a narração de Sokurov no documentário: “Como em um sonho, eu entro no Hermitage e nada me impede de me aproximar de qualquer pintura. Os fantasmas vivos deste gigantesco palácio me ajudam a enxergar melhor as telas”, notamos a influência do potencial histórico e narrativo das ruínas pictóricas nas estratégias visuais de Sokurov, como se o próprio espírito do pintor indicasse ao cineasta que a melhor forma de visualizar suas telas seja perscrutando seus fragmentos.
    Ao analisar esses fragmentos pictóricos, nota-se a natureza paradoxal das ruínas – expressa pelas dicotomias entre construção e degradação, passado e presente – reveladas nas imagens de Robert em suas implicações culturais, que se estendem de uma preocupação aos valores evocados pelos remanescentes de antigas civilizações para a apreensão sobre a mortalidade humana como sintoma de que tanto os indivíduos como a sociedade estão sujeitas às mesmas leis imutáveis da natureza. Mas o que as pinturas de Hubert Robert também indicam (e Sokurov declara em sua homenagem ao pintor) é que apesar das grandes estruturas construídas em tempos pretéritos estarem suscetíveis à ação da natureza, a arte tem o poder de resistir às catástrofes do tempo.
    O teor nostálgico das ruínas é destacado na própria estrutura dos sonhos desenvolvida neste curta como um recurso narrativo e um pilar conceitual que define a estética e a própria suscetibilidade invocada pelos monumentos desintegrados. Além de narrar a vida de Robert de forma descontínua, Sokurov filma as telas do Hermitage sob uma perspectiva oblíqua, em algumas passagens destacando-as da parede do museu, e realocando-as em suspensão no centro da sala. E, por vezes, “adentrando” as obras ao aproximar a câmera nos detalhes das estruturas arquitetônicas, as imagens pictóricas se embaralham com o interior do próprio museu. Esse arranjo evidencia que a arte de Hubert Robert se integra ao Hermitage, pois há uma continuidade histórica (e artística) que une esses registros temporais, demonstrando que a ruína não é apenas a evidência da passagem do tempo; a natureza a transforma em uma peça de arte em constante mutação. Para Georg Simmel (1911), a cumplicidade da vontade humana com o poder corrosivo da natureza imprime o efeito estético e trágico das ruínas, da dialética entre a elevação do espírito e a queda da natureza, entre a vida e a morte, num processo contínuo de finalidade e acaso.
    A relação da nostalgia com a atração das ruínas no contexto setecentista está vinculada ao gosto pelo pitoresco, que fortalece a imaginação, e oferece alívio à realidade presente. Nesse âmbito, a memória de um culto das ruínas pautado no equilíbrio entre natureza e espírito (a força humana) investigada por Simmel e elaborada por Hubert Robert, nos auxiliam a pensar como as ruínas (reais e imaginárias) cultivam os valores do sublime e do pitoresco, do espanto com esse gesto simbólico de estranha beleza. Nesse sentido, o valor das ruínas reside nesse sentimento ambivalente, necessário para nossa reflexão sobre a história da arte, como meio de se explorar as construções do passado e transformar a memória em um ato de criação e sobrevivência.

Bibliografia

    BOYM, Svetlena. The Future of Nostalgia. Nova York: Basic Books, 2001.
    BOYM, Svetlana. Ruinophilia: Appreciation of Ruins. Atlas of Transformation, 2008.
    BURKE, Edmund. Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias do sublime e do belo. Campinas, SP: Papirus: Editora na Universidade de Campinas, 1993.
    DIDEROT, Denis. Ruines et Paysages. Salon de 1767. Paris: Hermann, 1995.
    HUBERT ROBERT: A Fortunate Life. Moscou, 1996. Direção: Aleksándr Sokúrov.
    HUYSSEN, Andreas. Culturas do passado-presente: modernismos, artes visuais, políticas da memória. Tradução Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Contraponto: Museu de Arte do Rio, 2014.
    LOWENTHAL, David. The past is a foreign country. 10. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2002.
    RIEGL, Alois. O culto moderno dos monumentos: a sua essência e sua origem. São Paulo: Perspectiva, 2014.
    SIMMEL, Georg. A ruína. In: SOUZA, Jessé e ÖELZE, Berthold. Simmel e a
    modernidade. Brasília: UnB. 1998. p. 137-144.