Ficha do Proponente
Proponente
- Pedro Vieira Pinto (UFRJ)
Minicurrículo
- Arquiteto, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FAU UFRJ), e mestre em Arquitetura, formado pelo Programa de Pós-Graduação em Arquitetura da mesma universidade (PROARQ UFRJ). Sua dissertação, desenvolvida no Laboratório de Narrativas em Arquitetura (LANA) e financiada pela CAPES, investigou a conversão de cinemas em templos da Igreja Universal e as consequências dessas transformações para a preservação do patrimônio cinematográfico.
Ficha do Trabalho
Título
- Fantasia e exorcismo: O patrimônio cinematográfico carioca ocupado pela Igreja Universal
Resumo
- Diante do avanço da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) sobre o patrimônio cinematográfico do Rio de Janeiro e das limitações que predominam nas políticas públicas de salvaguarda que estão em vigor, o presente trabalho tem como objetivo principal analisar as intervenções feitas pela IURD nos cinemas que ocupou. Através da pesquisa histórica em documentos e de dados coletados em campo, a pesquisa busca contribuir para o debate de novas políticas de preservação do patrimônio cinematográfico.
Resumo expandido
- A rápida expansão da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) ao longo dos anos 70, 80 e 90 foi viabilizada pela estratégica aquisição de cinemas, cuja ocupação dispensava grandes investimentos. No Rio de Janeiro, ao menos 9 templos ativos puderam ser identificados como antigos cinemas convertidos, que variam consideravelmente em grau de preservação e reconhecimento enquanto patrimônio cultural. Na Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro está localizada a maioria: Universal Cine Carioca (Cine Carioca), Universal Comodoro (Cine Comodoro), Universal Irajá I (Cine Irajá), Universal Méier II (Cine Paratodos), Universal Brás de Pina I (Cine Santa Cecília) e Universal Uranos (Cinema Ramos). Os demais estão distribuídos pela Zona Oeste – Universal Campo Grande (Cine Palácio Campo Grande) e Universal Praça Seca (Cinema Baronesa) – e Centro – Universal Cinelândia (Cinema Pathé-Palace). Embora o poder público reconheça a maior parte desses cinemas enquanto parte de patrimônio que deve ser preservado, a legislação vigente não foi capaz de conter a ameaça predatória que paira sobre o patrimônio cinematográfico do Rio de Janeiro.
No caso do Palácio Campo Grande, tombado pelo município após ser comprado pela IURD em 1990, foi decretado que as características que identificam o espaço como cinematográfico devem ser preservadas, sem que fosse apontado exatamente quais características seriam essas. Já o decreto municipal nº 39232 de 2014, que tombou exemplares da arquitetura art déco, não impediu que a entrada do antigo Paratodos fosse convertida em estacionamento com vagas delimitadas no chão. Similarmente, os frágeis mármores que guardam o foyer do antigo Pathé-Palace passaram a conviver com os carros e motos que tomaram o lugar dos cavaletes que anunciavam a programação em cartaz e das multidões aglomeradas em volta das bilheterias. Apesar do Pathé ser o único cinema ocupado pela IURD que está inserido na área abrangida pelo Corredor Cultural, onde a legislação obriga a manutenção da função cultural em casas de espetáculo, o espaço nunca foi reaberto enquanto cinema depois que o imóvel começou a ser alugado pela Igreja Universal, em 1998.
Por outro lado, a ocupação o Cine Carioca sugere que a IURD voluntariamente preserva alguns aspectos cinematográficos nos cinemas que converte em templos. Ainda que o letreiro tenha sido retirado da fachada, o Carioca se difere dos demais por ser o único onde o nome do templo faz uma referência explícita à memória do cinema que ali funcionava. Apesar de nunca ter sido tombado, o edifício também se destaca por ter sido a conversão que mais manteve elementos do cinema original. A tela e os projetores originais foram retirados, assim como em todos os outros cinemas-templo iurdianos, mas foi instalada uma tela retrátil onde são projetadas imagens e, eventualmente, filmes. Há indícios de exibição de filmes em outros espaços cujo acesso é restrito, além do auditório onde são realizados os cultos. O mesmo pôde ser observado no caso do Cinema Baronesa, que também não é tombado, onde a antiga sala de projeção aparenta ser utilizada para sessões do CineUniver – o cineclube da IURD.
Portanto, diante das limitações que caracterizam as políticas de salvaguarda do patrimônio cinematográfico, nota-se que a Igreja Universal preserva ao mesmo tempo que também promove, de certa forma, a destruição desse patrimônio. Como retratado em “Retratos Fantasmas” (2023), a arquitetura dos cinemas – cuja função se assemelhava a um documento histórico, através do qual a vida era narrada por meio de palavras de fantasia – é manipulada, conforme o projeto de poder posto em prática pela IURD. À luz dos apontamentos de Castro (2009) sobre a impossibilidade de predeterminar a manutenção do uso por meio do tombamento, o presente trabalho aponta a necessidade de debatermos novas políticas públicas que incentivem – e não apenas imponham – a manutenção da função cultural, mesmo em cinemas que foram adaptados à outros empreendimentos.
Bibliografia
- AVRAMI, Erica; MASON, Randall; DE LA TORRE, Marta. Report on research. In: _________. Values and Heritage Conservation: Research Report. Los Angeles: The Getty Conservation Institute, 2000. Disponível em: . Acesso em: 15 ago. 2024.
CAMPOS, Leonildo Silveira. Teatro, templo e mercado: Organização e marketing de um empreendimento neopentecostal. Petrópolis-São Paulo: Vozes Simpósio UMESP, 1997.
CASTRO, Sônia Rabello de. O Estado na preservação de bens culturais. Rio de Janeiro: IPHAN, 2009.
FARRÉ, Catia Montes de Oca. A sacralidade do profano: da mudança do espaço urbano a neurolingüística – as novas práticas de conversão do neopentecostalismo (1980-2000). Tese (Doutorado em História Social) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.
RETRATOS Fantasmas. Direção: Kleber Mendonça Filho. Brasil: CinemaScópio, 2023. (93 min)