Ficha do Proponente
Proponente
- SUELEN CRISTINA NINO FERNANDES (UFPA)
Minicurrículo
- Doutoranda em Artes (PPGARTES-UFPA), desenvolvendo pesquisa a respeito de anti-heróis em séries brasileiras, bolsista CAPES, Mestre em Artes (PPGARTES-UFPA), Bacharel em Cinema e Audiovisual (UFPA) e em Direito (UNAMA), Analista Audiovisual no Sesc AR-PA, atuando nos campos de programação e curadoria, Assistente de Direção e Produtora Audiovisual. Membro da Inovador Talvez Filmes.
Ficha do Trabalho
Título
- ANTI-HEROÍNAS EM AÇÃO: JUSTIÇA E VINGANÇA EM NARRATIVAS SUL-COREANAS
Resumo
- Este texto propõe uma análise dos diferentes modos de construção narrativa de justiça a partir das ações das protagonistas anti-heroínas de duas séries sul-coreanas: A Esposa do Meu Marido e A lição. O objetivo é verificar como as questões culturais e a ineficácia institucional contribuem para a legitimação da vingança como forma de aplicação da justiça de maneira individualizada e moralmente ambígua, uma vez que punição é conduzida pelas próprias personagens.
Resumo expandido
- Cada vez mais populares, os K-dramas diversificam-se nos gêneros e estilos. Suas narrativas, embora frequentemente limitadas em número de episódios, apresentam elevada complexidade estrutural, Muitas destas histórias apresentam protagonistas anti-heroinas, seguindo uma tendência mundial para as séries contemporâneas (Mittell, 2015).
Da produção recente, escolhemos duas séries que trazem como protagonistas mulheres que sofreram algum tipo de violência por pessoas próximas de seu convívio social. Em A Esposa do Meu Marido (Marry My Husband, Criação, 2024, Prime Vídeo), Kang Ji-won (Park Min-Young) vive uma paciente com câncer terminal que descobre a traição do marido com a melhor amiga e é morta por ele. Em uma narrativa de viagem no tempo, ela recebe a oportunidade de voltar para antes de seu casamento, mas com todas as memórias. Isso faz com que ela elabore um complexo plano para fazer com que a amiga se case com seu noivo e receba toda a sua má fortuna. Já em A Lição (The Glory, 2022, Netflix), Moon Dong-eun (Song Hye-Kyo) sofreu bullying na escola por um grupo de colegas. Leva o caso até a polícia e à direção, porém nada é feito e eles saem impunes. Em sua fase adulta, Dong-eun atua na desarticulação do grupo, de maneira a trazer à tona todas as ações danosas do presente e do passado.
Destacam-se, nesta análise, três aspectos centrais. O primeiro refere-se à relação entre justiça e vingança, compreendidas como instâncias em continuidade no interior da narrativa. As personagens, ao não encontrarem reparação pelos meios institucionais – seja por falhas em estruturas legais e educacionais, seja pela ausência de lógica kármica que assegure a retribuição – assumem para si o papel de agentes da justiça, utilizando a vingança como mecanismo retributivo (Souza Júnior, 2018). No primeiro caso, a efetivação se dá pela redistribuição do destino da personagem a terceiros que gravitam suas relações interpessoais, materializando em si própria a figura do karma (equilíbrio entre ação e reação, ou seja ações boas = bom retorno kármico, ações ruins = retorno negativo nesta ou em outras vidas). No segundo exemplo, a vingança se baseia na infiltração e manipulação das relações entre seus algozes, fazendo com que a imagem construída pelo grupo se desintegre de dentro para fora de maneira pública.
O segundo aspecto diz respeito à centralidade da ação individualizada, na medida em que as protagonistas tomam para si a responsabilidade pela aplicação da justiça, deslocando a função atribuída a outros agentes (karma e leis humanas). neste sentido, é revelado uma faceta íntima e egoísta das personagens em sua jornada à aplicação do que lhes parece justo, fazendo com que este conceito – a justiça – não seja apenas visto pela ótica social/legal, mas individual. Desta maneira, as personagens rompem com o modelo consagrado do herói virtuoso, abnegado (Vogler, 2015), honrado pela sociedade e dotado de dons excepcionais (Campbell, 2007) quando mobilizam práticas moralmente ambíguas, porém legitimadas narrativamente, principalmente quando se coloca em xeque os atos destas com seus antagonistas (Rocha et al. 2024).
A terceira se dá pela construção de uma ética narrativa que tende a justificar as ações das protagonistas pela intensidade da violência sofrida. Nos K-dramas analisados, o uso recorrente dos flashback atuam como estratégia de reforço dessa lógica, relembrando ao espectador as motivações das personagens e consolidando a caracterização dos antagonistas como moralmente condenáveis. A contraposição age sobre o espectador, suspendendo seus valores e moral e alimentando a conexão com o protagonista.
A partir desses elementos, observa-se que as narrativas analisadas não apenas tensionam a oposição clássica entre justiça e vingança, mas as reorganizam, partindo de uma perspectiva subjetiva e afetiva, centrada na experiência das protagonistas.
Bibliografia
- A ESPOSA do meu marido (Marry My Husband). Direção: Park Won-guk. Coreia do Sul: tvN, 2024. Série de televisão.
A LIÇÃO (The Glory). Direção: Ahn Gil-ho. Coreia do Sul: Netflix, 2022–2023. Série de televisão.
CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces. Trad. Adail Ubirajara Sobral. São Paulo: Pensamentos, 2007.
MITTELL, Jason. Complex TV: the poetics of contemporary Television Storytelling. Nova York: New York University: 2015.
ROCHA, Simone Maria et al.. “Agora eu vou fazer do meu jeito”: a construção de anti-heróis e anti-heroínas na ficção seriada para streaming no Brasil. In: Encontro Anual da Compós, 34., 2024, Curitiba. Disponível em: Compós. Acesso em: 24 abr. 2026.
SOUZA JUNIOR, Odonias Santos de. A vingança discursivizada em Justiça. In: LARA, Renata Marcelle (org.). Minissérie em análise: sujeito, corpo(s), imagens. Londrina: Syntagma Editores, 2018. p. 132-155.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor: estrutura mítica para escritores. Trad. Petê Russatti. São Paulo: Aleph,