Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Vanessa Maria Rodrigues (UFJF)

Minicurrículo

    Doutora em Cinema e Audiovisual (PPGCine-UFF). Mestra em Artes, Cultura e Linguagens (PPGACL-UFJF). Especialista em Transformação Digital em Gestão Documental (Arquivologia/UFES). Bacharela em Comunicação Social/Jornalismo (UniAcademia). Atualmente, faz pós-doutorado no Centro Integrado de Preservação Audiovisual da Universidade Federal de Juiz de Fora (CIPAv-UFJF) / Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Preservação e Restauração Audiovisuais (INCT PreRes).

Ficha do Trabalho

Título

    “Ela ri a todos pulmões”: visualidade, gênero e arquivo em uma foto encontrada

Resumo

    Esta comunicação pretende discutir cultura visual e gênero a partir de um retrato adquirido em uma feira de antiguidades. Para tanto, explora a foto como espaço crítico onde palavras e imagens agenciam as fissuras do arquivo e produzem novos sentidos. A análise imagética será feita a partir do cruzamento teórico de autores como Barthes (2012), Didi-Huberman (2012), Mulvey (1983) e Sontag (2004). Como resultado, o trabalho contribui para ampliar pesquisas acerca dos acervos iconográficos antigos.

Resumo expandido

    A partir de um retrato antigo comprado em uma feira de antiguidades, esta comunicação pretende discutir convenções de visualidade e gênero. Para tanto, explora a frente e o verso da foto como espaço crítico onde palavras e imagens agenciam as fissuras do arquivo e possibilitam novos sentidos, novos meios para permanecer em diálogo com o presente.

    A Feira de Antiguidades da Rua da Lama, no bairro Jardim da Penha, em Vitória (ES), é realizada no primeiro sábado de cada mês. Lá, há vários objetos antigos expostos: telefones, câmeras fotográficas, cartões postais, moedas, selos, chaveiros, livros, ímãs de geladeira. Em meio a toda essa variedade de artefatos, em março de 2026, uma das barracas nos chamou a atenção: ela abrigava uma pilha de fotografias de crianças, jovens e adultos em diversos ambientes, contextos e situações ao longo do século XX. Escolhemos onze retratos para a compra, seleção motivada pelas qualidades estéticas da imagem e as dedicatórias escritas no verso delas. O vendedor não tinha informações sobre nenhum dos registros.

    Desse conjunto de onze itens, um deles, tal qual a noção de punctum em Roland Barthes (2012), feriu-nos subjetivamente no detalhe: o olhar e o sorriso de uma jovem ao lado de uma senhora séria. Parecia que o rosto alegre da moça e o movimento dos passos dela pela calçada pulsavam na cena tomada em preto e branco. No entanto, apesar da altivez da jovem no registro, no fora de campo (no dorso do papel fotográfico), notamos que a emoção que vimos ali talvez não nos visse de volta, talvez não fizesse parte do “ser” cotidiano daquela mulher. É que, atrás da foto, escrito em letras cursivas acima do ano 1943, lê-se: “Ela ri a todos pulmões, mas… não vão pensar que ela é feliz”.

    Seria ela, então, alguém infeliz? Ou seria essa apenas uma dedicatória sarcástica? Quem teria escrito essa frase e por quê? O punctum que nos afetou teria sido uma reação natural da jovem diante do fotógrafo? Uma performance para “sair bem na foto”? Um ato de rebeldia frente à seriedade dos retratos da época ou mesmo ao que se esperava dela? Quais histórias a imagem não nos conta?

    Para complementar os debates em torno da análise iconográfica e discursiva desse retrato, exploramos o conceito de “arquivo lacunar” (Didi-Huberman, 2012), segundo o qual os arquivos não constituem uma verdade única e fixa; eles são abertos a múltiplas camadas de interpretação, a fim de potencializar, atualizar e reinscrever novas narrativas e discussões. Articulamos também os estudos da crítica e teórica de cinema Laura Mulvey (1983) sobre como o cinema clássico contribuiu para moldar padrões visuais e de gênero, reforçando, a partir de um viés patriarcal, ideais de beleza e docilidade para as mulheres. Abordamos ainda as análises da escritora, filósofa e crítica de arte Susan Sontag (2004), que investigam a relação entre fotografia, memória e tecnologia na representação simbólica do passado.

    Assim, como resultado, a comunicação evidencia como a circulação de uma fotografia preexistente é também uma possibilidade de fazer com que acervos fotográficos antigos adentrem novos espaços, ganhem visibilidade e produzam cada vez mais conhecimento, saber e poder.

Bibliografia

    BARTHES, Roland. A Câmara Clara: notas sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.

    DIDI-HUBERMAN, Georges. Quando as imagens tocam o real. In: Pós, vol. 2, no. 4, p. 204-219, nov. 2012.

    FARGE, Arlete. O Sabor do Arquivo. Tradução de Fátima Murad. São Paulo: Edusp, 2009.

    LINDEPERG, Sylvie. O caminho das imagens: três histórias de filmagens na primavera-verão de 1944. Revista Estudos Históricos, v. 26, n. 51, p. 9–34, 2013.

    MACHADO, Patrícia. Cinema de arquivo: imagens e memória da ditadura militar. Rio de Janeiro: Sagarana; Faperj, 2024.

    MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (organizador). A Experiência do Cinema: antologia. Rio de Janeiro: Edições Graal: Embrafilme, 1983.

    SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.