Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Kimberly Palermo Eiras (UFF)

Minicurrículo

    Kimberly Palermo é bacharel em Cinema e Audiovisual pela UFF e mestranda pelo PPGCine na linha de Narrativas e Estéticas, com pesquisa sobre o camp na telenovela brasileira. Atua também como realizadora de curtas-metragens independentes e curadora de festivais audiovisuais.

Ficha do Trabalho

Título

    Dissolvendo a moral: Uma análise panorâmica sobre a vilania camp nas telenovelas de Aguinaldo Silva

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    O presente trabalho procura analisar panoramicamente o conjunto de vilãs inscritas na obra do telenovelista Aguinaldo Silva para o horário nobre da TV Globo através da categoria estética do camp. Ao estabelecer pontos de contato entre os excessos dessas personagens, busca-se tensionar as leituras dicotômicas acerca do projeto melodramático moderno da telenovela brasileira, assim como identificar a contribuição do camp à produção de representações mais carismáticas e moralmente ambíguas.

Resumo expandido

    Operando através do dispositivo da paródia queer (Meyer, 1994), a categoria estética do camp se traduz como uma combinação entre ironia, visualidade exacerbada, teatralidade e humor (Babuscio, 1993) – esses quatro elementos aqui compreendidos pelo termo guarda-chuva do antinaturalismo. Elaborado formalmente pela primeira vez no ensaio “Notas sobre Camp” (1964), de Susan Sontag, o conceito permeia até hoje diferentes tipos de mídia, sobretudo aquelas pertencentes à cultura popular de massas. Nessas produções, o camp surge como uma estratégia valiosa para tecer críticas sociais, principalmente relacionadas a gênero e sexualidade, uma vez que complexifica representações de figuras socialmente marginalizadas, mascaradas como “humor inofensivo” (Horn, 2017). Simultaneamente, ele também se manifesta como um recurso que amplifica o prazer provocado por essas obras, graças à presença de códigos afetivos compartilhados entre performance e público consumidor (sobretudo LGBT+ e mulheres) e à atuação dos excessos como intermediários desse processo.

    No contexto da indústria cultural brasileira, a telenovela se destaca como um dos maiores bens culturais do país, cuja história complexa acaba posicionando a TV Globo como sua principal produtora desde o final dos anos 1960. O sucesso nacional e internacional do modelo latino-americano de telenovela deve-se, em termos estéticos, principalmente à utilização dos excessos, que atuam em prol de uma obviedade narrativa estratégica (Baltar, 2024) tanto para lidar com as especificidades do formato (duração, número de personagens) quanto para pedagogizar o telespectador através da mobilização sensorial de acordo com os valores societários de sua época. Utilizando-se do modo melodramático como estruturação desses excessos, os múltiplos departamentos de criação da telenovela priorizam a construção “externa” (mise-en-scène) em detrimento do “interno” (psicologização) de suas personagens. Por conta disso, há uma instantaneidade (Sontag, 1964) no arco narrativo dessas figuras, uma vez que devem manter uma espécie de “essência” aristotélica (Pallottini, 1998) do início ao fim do relato audiovisual, de modo a serem retidas na memória e assimiladas como modelos de conduta espectatorial.

    Essa instantaneidade é compartilhada não apenas como característica marcante da personagem de telenovela – e do melodrama em geral – mas também do camp, tornando o formato particularmente poroso à aparição de personagens com essa característica. A capacidade de adesão do camp é ainda maior nas vilãs, visto que são associadas recorrentemente a elementos visuais exacerbados (beleza, elegância), performances eloquentes e pitadas de humor, que aliviam a tensão emocional causada pela sordidez da vilania (Martín-Barbero, 2001). Nem toda vilã pode, porém, ser compreendida como camp. Distingue-se a vilã camp por sua construção paródica, que promove uma dimensão mais articulada do humor capaz de gerar ambiguidade. Sob a carapuça do deboche inofensivo, essa figura colabora concomitantemente como recurso moralizante e como inserção antinaturalista dentro de um tecido audiovisual majoritariamente naturalista. Essa inserção pode, consequentemente, provocar tensionamentos críticos e leituras debochadas de determinados valores societários dentro da narrativa melodramática.

    Como conjunto amostral, o trabalho elege para análise as vilãs camp do autor Aguinaldo Silva na TV Globo, com destaque para Tereza Cristina (Christiane Torloni) de “Fina Estampa” (2011 – 2012), Silvia (Alinne Moraes) de “Duas Caras” (2007) e Nazaré (Renata Sorrah) de “Senhora do Destino” (2004 – 2005) – três ícones recentes da cultura popular, como evidenciado por suas representações humorísticas em espaços virtuais e em outros produtos de consumo. Analisadas sob a ótica do camp, busca-se compreender a contribuição de seus excessos para a construção de representações mais carismáticas e moralmente ambíguas no projeto melodramático televisivo.

Bibliografia

    BABUSCIO, Jack. The cinema of camp (AKA: camp and the gay sensibility). In: BERGMAN, David (Orgs.). Camp grounds: style and homosexuality. Massachusetts: University of Massachusetts Press, 1993, p. 19–39.
    BALTAR, Mariana. “Pornô e romance: : ou o que pode a matriz do melodrama e da telenovela na exaltação de prazeres e corpos”. Logos, Rio de Janeiro, v. 31, n. 1, 2024.
    HORN, Katrin. Women, Camp, and Popular Culture: Serious Excess. Cham: Palgrave Macmillan, 2017.
    MEYER, Moe. “Reclaiming the discourse of camp”. In: MEYER, Moe (Org.). The politics
    and poetics of camp. London: Routledge, 1994.
    PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia de televisão. São Paulo: Moderna. 1998.
    ROCHA, Larissa Leda Fonseca. Má! Maravilhosa! Lindas, Louras e Poderosas: O Embelezamento da Vilania na Telenovela Brasileira. Tese de Doutorado em Comunicação Social, Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, 2016.
    SONTAG, Susan. “Notas sobre Camp”. In: Contra a interpretação, p. 311–322. Porto
    Alegre: L&PM, 1987.