Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cláudia Cardoso Mesquita (UFMG)

Minicurrículo

    Professora do curso de graduação e do programa de pós-graduação em Comunicação Social da UFMG, onde integra os grupos de pesquisa Poéticas da Experiência e Poéticas Femininas, Políticas Feministas. Pesquisadora do cinema brasileiro, com mestrado e doutorado na ECA-USP. Publicou, com Consuelo Lins, o livro “Filmar o real – sobre o documentário brasileiro contemporâneo” (Jorge Zahar, 2008); e organizou, com André Brasil, “Cinemas da Terra” (Selo Editorial PPGCOM/UFMG, 2024).

Ficha do Trabalho

Título

    Emergências das mulheres como protagonistas políticas – uma interpelação feminista ao documentário

Seminário

    Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos

Resumo

    A memória das lutas populares no Brasil, tal como inscritas nas imagens do cinema brasileiro, esboça – com limites, mas também com potências – o protagonismo das mulheres. Partimos aqui do desejo de inventariar algumas dessas imagens, examinando as aparições das mulheres, os sentidos atribuídos à sua experiência e os efeitos subjetivos e políticos das lutas. Nosso intento é metodológico: estabelecer os contornos de uma metodologia que interpele de modo feminista o documentário brasileiro.

Resumo expandido

    A apresentação aqui proposta se soma a outras que, no campo de estudos do cinema brasileiro, têm buscado resgatar cineastas mulheres e obras invisibilizadas por um cânone majoritariamente masculino (HOLANDA & TEDESCO, 2017). Nossa proposta se diferencia não apenas pelo foco no documentário, mas por olhar para quem se posiciona frente à câmera: as personagens reais dessa filmografia (desviando-nos, assim, da tendência a privilegiar a autoria). Desejamos inventariar cenas e examinar a emergência fílmica do protagonismo político de diferentes mulheres, especialmente em movimentos sociais e lutas populares – processos que o cinema não apenas registrou, mas nos quais, a seu modo, interviu. Vamos nos concentrar, inicialmente, em registros realizados entre as décadas de 1970 e 1990 – “quando novos personagens entraram em cena”, como afirma o título do estudo de Eder Sader (1988) sobre a (re)emergência dos movimentos sociais na cidade de São Paulo, a partir da década de 1970.

    Como mostra a historiadora Michelle Perrot (2019: 21), durante muito tempo a falta de fontes, documentos e vestígios dificultou a escrita da história por/de mulheres: “sua presença é frequentemente apagada, seus vestígios, desfeitos, seus arquivos, destruídos”. Já Miriam Goldenberg (1997) nos diz que a história da esquerda brasileira, no período da ditadura (1964-85) e da redemocratização, foi escrita majoritariamente em torno das trajetórias de “grandes homens”. Militantes em um mundo quase exclusivamente masculino, as mulheres que enfrentaram o poder repressivo dos senhores de terra, do Estado, dos patrões e/ou dos “homens de casa” foram vítimas de violência de gênero e de todo tipo de silenciamento – não raramente aparecendo, nas narrativas oficiais, como “coadjuvantes”. Pensamos que a emergência fílmica do protagonismo político das mulheres oferece matéria para outra abordagem daquele contexto, assim como para “escovar a contrapelo” a história do documentário brasileiro.

    Tendo realizado alguns estudos em torno de personagens dessa filmografia – caso de Elizabeth Teixeira, militante das Ligas Camponesas (MESQUITA, 2023a); Roseli Celeste Nunes, a Rose, liderança sem-terra (MESQUITA, 2022); e das trabalhadoras reunidas no I Congresso da Mulher Metalúrgica, em 1978 (MESQUITA, 2023b) -, nosso intento agora é sobretudo metodológico. Queremos dar contornos a uma metodologia de análise que busque – de modo a fazer jus à complexidade da experiência das mulheres que são retratadas ou fazem suas aparições nos filmes – ultrapassar as bordas do quadro fílmico, recorrendo a outras imagens, documentos, arquivos e testemunhos. Como escrevemos em nossa abordagem da trajetória de Elizabeth Teixeira (MESQUITA, 2023), “a atenção à elaboração fílmica da personagem não deve prescindir do exame de lacunas e silenciamentos sobre sua trajetória”, já que “a especificidade de sua atuação (e das opressões por ela sofridas)”, como mulher e militante, “não cabe inteiramente em Cabra marcado para morrer, que acompanha também outras trajetórias” (p. 81).

    Nas análises das cenas, propomos examinar os sentidos atribuídos à experiência feminina e os efeitos subjetivos e políticos, tal como elaborados nos filmes, de sua participação nas lutas por direitos e por liberdade, por melhores condições de trabalho e de vida. Camponesas sem-terra, boias frias, operárias, donas de casa, estudantes, militantes – na cidade ou no campo, interessa pensar como as lutas partem de (e incidem sobre) a experiência das mulheres, levando-as a questionar opressões, desigualdades e assimetrias históricas, inclusive no espaço doméstico. Nessa direção, parece-nos importante “historicizar a estética”, como formula Naara Fontinele Santos (2020): não apenas analisar as imagens, mas buscar enredá-las na complexidade de processos mais abrangentes, de que os filmes participam.

    Desejamos, por fim, contribuir para inscrever de maneira mais resoluta a participação das mulheres na história – do cinema e das lutas.

Bibliografia

    GOLDENBERG, Mirian. Mulheres & militantes. Estudos Feministas, Florianópolis, v.5, n.2, 1997.
    HOLANDA, K. & TEDESCO, M. (Org.) Feminino e plural: mulheres no cinema brasileiro. Campinas: Papirus, 2017.
    MESQUITA, C. “Minha vida mudou muito, do acampamento até aqui”: o documentário brasileiro e a emergência das mulheres sem-terra como sujeitas políticas. In: Ana A. Gomes; (Org.). Poéticas de pesquisa: cartografando o audiovisual. Aracaju: Criação Editora, 2022.
    ________. “A ferida que começou a abrir para nunca mais fechar”: Elizabeth Teixeira, militância e maternidade no redemoinho da história. In: R. Almeida; C. Souza; K. Medeiros. (Org.). Cabra Marcado para Morrer. SP: Faculdade de Educação/USP, 2023a.
    ________. Trabalhadoras metalúrgicas (1978): encontros e desencontros entre novo sindicalismo e feminismo. In: G. Vale; J. Torres (Org.). Catálogo forumdoc.bh 2023. BH: Filmes de Quintal, 2023b.
    PERROT, Michele. Minha história das mulheres. São Paulo: Contexto, 2019.