Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Cristian Borges (USP)

Minicurrículo

    Professor Associado do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da ECA-USP. Doutor pela Université Sorbonne Nouvelle – Paris 3 (CAPES) e mestre pela University of Bristol (CAPES), graduou-se na UFF e realizou pós-doutorado na NYU (FAPESP). Cineasta e curador, dirigiu o CINUSP, presidiu a SOCINE e coordena o LAICA. Publicou EM BUSCA DE UM CINEMA EM FUGA (Perspectiva/ Fapesp, 2019), além de artigos e capítulos de livros no Brasil e na França.

Ficha do Trabalho

Título

    A atuação audiovisual como inefável discurso sensorial

Mesa

    Atuação audiovisual: metodologias e aplicações

Resumo

    O que acontece quando pessoas impelidas a se amar são socialmente impedidas? Apela-se a uma linguagem “primitiva e distante dos refinamentos da arte da palavra” (Balázs, 1952), composta de olhares e microações que remetem antes ao interior das personagens do que à sua aparência. Partindo da “estética do silêncio” (Sontag, 1987) e da superfície do rosto (Aumont, 1992) no cinema, analisaremos como esse inefável “discurso sensorial” explora o corpo e a voz para exprimir desejo e sedução.

Resumo expandido

    Há certas cenas, em filmes narrativos, nas quais os diálogos são substituídos por uma coreografia de olhares, sorrisos e microações que remetem antes ao interior das personagens do que à sua aparência, ainda que permaneçam ou se manifestem no exterior. É como se essa aparência adquirisse um brilho próprio, um relevo em profundidade – ou melhor, uma espécie de “baixo-relevo” perceptivo – que parte da superfície do rosto, com sua miríade expressiva de micromovimentos, em direção à inefável intimidade multi-camadas do interior do ser.
    O close, que proporciona ao mesmo tempo uma aproximação extrema do rosto e seu engrandecimento na tela, torna-o, analogamente, uma piscina de emoções na qual mergulhamos (ou somos tragados), acessando nuances, ambiguidades, desejos ocultos ou inconfessos, confusão afetiva etc. É como se adentrássemos um universo (bastante pessoal) que escapa ou se nega ao sentido verbal ao abraçar a complexidade das emoções.
    Susan Sontag, em seu ensaio “A estética do silêncio” (1967), sugeria que “ninguém via tanto da variedade e da sutileza do semblante humano antes da era do cinema” (Sontag, 1987, p. 20); enquanto Béla Balázs (1952, p. 42) via nessa “arte das expressões faciais e dos gestos” um enorme potencial para “expressar coisas que escapam aos artistas do verbo”, capaz de tornar o homem interior visível e de nos atingir tão diretamente quanto a música.
    Na cena de sedução em Barry Lyndon (Stanley Kubrick, 1975), vemos como a respiração ofegante de Marisa Berenson – insuflada de um desejo proibido, pois casada –, traduz-se pelo seio que infla e se contrai através do decote do vestido, seja de frente (à mesa de jogo) ou de perfil (no terraço externo), além da troca de olhares lascivos.
    Por outro lado, o inaudito, próprio à cultura queer, com seus tantos segredos e mentiras, parece servir como um prato cheio à voracidade perscrutante do close. À mudez (auto)imposta ao amor queer – aquele que muitas vezes não ousa dizer seu nome –, sobrepõe-se uma profusão de “sussurros” subliminares que transbordam sem jamais se reduzir a sentidos unívocos: sua “voz” é plural, multidirecional, indisciplinada e indefinível. Ela pode, ao mesmo tempo, desejar e repelir, amar e odiar, aceitar e negar, pois sua natureza é ambígua e contraditória.
    Nesse sentido, encontraremos cenas nas quais personagens queer compartilham emoções, gestos e tensões sem precisar recorrer a palavras, em filmes como Carol (Todd Haynes, 2015) – no qual a conjunção do jogo contido das atrizes alia-se a elementos da linguagem fílmica (a música cadenciada à montagem, aos movimentos de câmera e à imagem ralentada) para intensificar uma cena em que nada é dito, mas muito é sentido –, e em séries como Rivalidade Ardente (Jacob Tierney, 2025) – em que uma conversa trivial é substituída pelo jogo de olhares que começam a fragmentar os corpos dos atores (pescoço, mãos, pernas) que se encontram duplicados pelo espelho.
    Ao citar a cineasta colombiana Simon(e) Jaikiriuma Paetau – que dirigiu O sussurro do jaguar (2018) ao lado de Thais Guisasola –, quando esta afirma que a queerness “não é apenas uma identidade, mas também uma perspectiva sobre o mundo e o meio ambiente”, Molly Moss (2019) sugere que o olhar queer (queer gaze) deslocaria a ênfase que Laura Mulvey (1983) colocou no ato de ver para uma “maneira de ser”, não havendo sujeitos ativos ou passivos nesse jogo de relações.
    Vejamos de que modo o jogo dos atores, total ou parcialmente mutados, consegue comunicar sua maneira de ser através do audiovisual, exprimindo seus desejos e subvertendo regras e convenções, a partir de um inefável “discurso sensorial”.

Bibliografia

    AUMONT, Jacques. Du visage au cinéma. Paris: Cahiers du Cinéma, 1992.
    BALÁZS, Béla. Theory of the film: character and growth of a new art. Londres: Dennis Dobson, 1952.
    MOSS, Molly. “Thoughts on a Queer Gaze”, in 3:AM Magazine, 2019.
    MULVEY, Laura. “Prazer visual e cinema narrativo”, in XAVIER, I. (org.). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Graal/ Embrafilme, 1983, p. 437-453.
    SONTAG, Susan. “A estética do silêncio”, in A vontade radical. São Paulo: Companhia das Letras: 1987, p. 11-40.