Ficha do Proponente
Proponente
- Naira Evine Pereira Soares (UNEB)
Minicurrículo
- Doutoranda em Crítica Cultural (UNEB) e mestre em Cinema (UFF). Cineasta e pesquisadora. Desenvolveu o roteiro de longa-metragem “Francisca Luis”, pelo Rumos Itaú Cultural. Integra o grupo de pesquisa NUTOPIA. Curadora em cineclubes, mostras e festivais. Pensa o cinema na teoria e prática. Diretora da Pé de Mangue Audiovisual, onde conta histórias escondidas na história.
Ficha do Trabalho
Título
- Fragmentos e memórias de famílias negras em “De tudo um pouco sabia costurar” de Yérsia Assis
Seminário
- (Re)existências negras e africanas no audiovisual: epistemes, fabulações e experiências
Resumo
- Memória é campo de disputa e poder. Bamba (2008) identifica o “dever de memória” como um “exercício catártico, terapêutico e de luta contra a amnésia das gerações presentes”. Cineastas negros que abordam suas memórias familiares tentam confrontar não apenas a ausência de registros, mas apagamentos, esquecimentos, silêncios e fragmentos. Este trabalho se propõe analisar os ecos de memória no filme “De tudo um pouco sabia costurar” (2022) da diretora sergipana Yérsia Assis.
Resumo expandido
- Este trabalho é parte do desenvolvimento da tese de doutorado em andamento em Crítica Cultural (UNEB) no qual se investiga como cineastas negros brasileiros tem proposto diálogos coletivos a partir de filmes que exploram memórias em contextos familiares. Compreendo aqui memórias de famílias negras como raízes de mangue em diálogo direto com a “sabedoria dos cipós” de Bona (2025) que utiliza a planta para brincar com o imaginário colonial sobre selvageria, mas também como homenagem ao “legado histórico da marronagem – a arte de fuga dos escravizados” em regiões caribenhas. Da mesma forma, os manguezais são lugares “perigosos” pelo olhar colonizador, mas também de salvaguarda e sobrevivência de muitas espécies.
Nestes filmes, um dos temas mais comuns é a busca por origens, respostas e arquivamentos de lembranças. No caminho, os cineastas geralmente se deparam com formas de resistência por meio de documentos, oralidade, mas também sobrevivência com silêncios e esquecimentos. Muitas vezes, somos guiados pela voz da direção-filha, direção-neta, direção-sobrinha, ou seja, direção-parente que seguem o desejo do dever de memória (Bamba, 2008) e estruturam suas narrativas através do que lhes atravessam, sejam os afetos, traumas, dores, ruínas.
Hartman (2021) questiona: “como escrever uma história sobre um encontro com o nada?” (p. 25) e Sharpe (2023) afirma: “há muitos silêncios na minha família” (p.10). Ambas evocam um desejo comum entre pessoas subalternizadas, especialmente as negras, que é o de resgatar algo que não se sabe o que é, mas que se esconde entre os silêncios, evidenciando as estratégias encontradas por famílias colonizadas para manter sua história viva.
O “dever de memória” pode ser entendido de diferentes formas. Ricœur (2007) o define, sob uma perspectiva ocidental, como uma responsabilidade coletiva e constitucional, ligada à justiça: “o dever de memória é o dever de fazer justiça, pela lembrança, a um outro que não a si” (p.101). Bamba (2008) vai defender “como uma forma de se reapropriar da sua história”, tanto no continente africano quanto em comunidades afrodiaspóricas, ele se manifesta como um compromisso ético naturalizado, uma forma de respeito aos mais velhos e ancestrais. No Brasil, esse dever se choca com a ausência de registros e a fragmentação das histórias familiares. Ás vezes o que se tem é o que se tem é o “arquivo do pobre” (Costa, 2016).
Rosana Paulino destaca a força das imagens na estruturação da subjetividade: “muitas coisas não precisam ser ditas, mas são vistas, colocadas para serem vistas, ou não colocadas”. A ausência de imagens de corpos negros na história oficial reforça o apagamento. Nesse sentido, a arte possibilita uma reconexão com o passado, permitindo que as pessoas se vejam e se reconheçam na história.
A memória, portanto, é uma ficção fundamental para indivíduos e comunidades, pois constrói identidades e fortalece a noção de pertencimento. No contexto brasileiro, refletir sobre memória significa necessariamente pensar em colonialidade. Dessa forma, este estudo busca compreender como o Cinema Negro Brasileiro contemporâneo tem lidado com esses atravessamentos, transformando o vazio.
O cinema negro brasileiro contemporâneo não opera como dispositivo de resgate, mas como prática que elabora a memória a partir da ausência, da falta, mobilizando vestígios e lacunas como procedimentos estéticos, sociais e políticos. Em diálogo com autores, como Sharpe (2024), Hartman (2021 e 2022), Bona (2020 e 2025), Glissant (2021), Nyong’o (2019), entre outros.
Bibliografia
- BAMBA, M. O dever da memória. Abidjan: Presses Universitaires, 2008.
BONA, Dénètem Touam. 2025. Sabedoria dos Cipós: Cosmopoética do refúgio. São Paulo: Ubu Editora. 144p
COSTA, Edil. Arquivos do pobre: considerações sobre culturas populares, memórias e
narrativas. In: SANTOS, Osmar Moreira dos (org.). Arquivos, testemunhos e pobreza no
Brasil. Salvador: EDUNEB, 2016, p. 51-62.
GLISSANT, Édouard. Poética da Relação. Trad. Marcela Vieira e Eduardo Jorge de Oliveira. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
HARTMAN, S. Perder a mãe: uma jornada pela rota atlântica da escravidão. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2021.
NYONG’O, Tavia. Afro-Fabulations: The Queer Drama of Black Life. New York: NYU Press, 2018. 280 p.
RICOEUR, Paul. A memória, a história, o esquecimento. Tradução Alain François et. al. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007.
SHARPE, C. In the wake: on Blackness and being. Durham: Duke University Press, 2023.