Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Felipe Lopes (ESPM-Rio)

Minicurrículo

    Formado em Comunicação Social e Mestre em Cinema pela UFF, com especialização em Gestão Empresarial e Marketing pela ESPM, Felipe Lopes atua há mais quinze anos no mercado audiovisual, passando pela distribuição, produção, festivais e gestão pública.
    É professor no curso de graduação em Cinema e Audiovisual na ESPM-Rio e sócio-diretor da distribuidora Retrato Filmes. Foi responsável por lançamentos de mais de 100 longas-metragens como “Valor Sentimental”, “Sirat”, “Nosso Sonho” e “Bacurau”.

Ficha do Trabalho

Título

    Os fracassos escondidos do cinema hollywoodiano no Brasil

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    Há mais de um século, as distribuidoras majors ocupam o mercado brasileiro de sala de exibição com práticas concorrenciais agressivas e uma produção de discurso de superioridade do cinema americano. Esse estudo busca contra-argumentar um usual discurso pejorativo para os filmes brasileiros, com dados sobre o cinema americano no Brasil. Em um ano, mais de 100 obras estrangeiros não alcançaram 10 mil de público e filmes americanos com mais de 500 salas chegam a menos de 100 pessoas em média total.

Resumo expandido

    Há mais de um século, as distribuidoras majors ocupam o mercado brasileiro de sala de exibição com práticas concorrenciais agressivas e uma produção de discurso de superioridade do cinema americano. Em paralelo, o cinema brasileiro luta por regulação e fomento para que haja maior proximidade de uma isonomia na busca por telas e pelo público. Nesta arena de disputas, os dados possuem importância central – e os Estados Unidos já o utilizavam para sua política de estado promocional desde a década de 1910, conforme já apontado por Butcher (2024). Os relatórios do governo americano sobre a ocupação de mercado realizavam análises periódicas da ocupação das salas brasileiras por filmes dos EUA.

    Em complemento à análise de dados e a uma atuação política e de mercado forte, Hollywood contou ainda com uma narrativa de destaque qualitativo de seus filmes pelos trades, veículos de comunicação que chegavam ao público final – sejam os agentes de mercado brasileiros, sejam os espectadores. Era comum o uso de superlativos para falar das obras dos estúdios norte-americanos e de comparativos que depreciavam tanto os filmes brasileiros como de outras nacionalidades.

    Ultrapassada a concorrência de ocupação global do cinema europeu, o que vemos hoje é uma batalha do audiovisual brasileiro por sua soberania imaginativa e também por maior equilíbrio concorrencial no mercado. Ainda hoje, há artigos e matérias em veículos de relevância no cinema brasileiro que jogam luz em dados negativos dos filmes nacionais. Um exemplo recente é a matéria “Vitórias incríveis, salas vazias: 54,7% dos filmes brasileiros lançados em 2025 não alcançaram 1.000 espectadores” publicada na Filme B em fevereiro de 2026. Mesmo havendo no texto complexificação de questões, inclusive de políticas públicas, o destaque da manchete e outros pontos sobre os números “ruins” apresentados foram apropriados e repetidos em debates do setor, inclusive por autoridades públicas.

    Apesar de encontrar na lista da Filme B um problema metodológico, que inclui na contagem filmes exibidos apenas em festivais, não se busca aqui questionar que é algo negativo um filme brasileiro não alcançar mil espectadores. O que esse estudo tem como objetivo é contra-argumentar um usual discurso pejorativo para os filmes brasileiros, com dados sobre o cinema americano no Brasil e trazer foco para outras informações que mostram que a solução não passa por apenas um único indicador ou sem uma análise complexa do setor.

    Quando vemos uma diferença quantitativa a críticas do público ao cinema hollywoodiano, observa-se uma tendência a ocultar outras coisas ruins sobre o resultado em salas de cinema. Alguns exemplos dos lançamentos ano de 2024 são:
    – 106 filmes estrangeiros tiveram menos de 10 mil espectadores;
    – Dentre os filmes com menos de 10 mil espectadores, estrangeiros são lançados em média em 29 salas, enquanto os brasileiros, apenas 20;
    – 74 filmes ocuparam mais de 500 salas; todos de origem estrangeira.
    – Destes 74 filmes, 51 tiveram média de espectadores por sala abaixo de 500, sendo 4 deles abaixo de 100 pessoas por sala.

    Aprofundando a análise, vemos a diferença do poder de barganha entre distribuição estrangeira e nacional, quando analisamos as dobras, ou seja, a programação do filme por mais uma cine-semana. Um exemplo analisado é o filme “O Senhor dos Anéis – A Guerra dos Rohirrim”, lançado pela Warner em 597 salas de 480 cinemas. Mesmo com a média de público por cinema abaixo de 100 espectadores, ele se manteve em 236 cinemas na semana seguinte. Enquanto isso, muitos filmes brasileiros com resultados superiores não possuem a mesma manutenção de circuito.

    Este estudo segue uma linha de pesquisa que aprofunda a análise de dados de mercado para questionar narrativas dominantes e propor uma complexificação do debate olhando também os fracassos de Hollywood, visando questionar falácias que questionam políticas como a de cota de tela e da defesa e do fomento à difusão e circulação do cinema brasileiro.

Bibliografia

    BUTCHER, Pedro. Hollywood e o mercado de cinema no Brasil: Princípios de uma hegemonia. Belo Horizonte: Letramento, 2024.
    CALABRE, Lia. Políticas públicas e indicadores culturais: algumas questões. In V ENECULT – UFBa, Bahia, 2009.
    CHALUPE DA SILVA, Hadija. O filme nas telas – a distribuição do cinema nacional. São Paulo: Ecofalante, 2012.
    GALVÃO, Alex Patez. A cadeia de valor ramificada do setor audiovisual. Políticas públicas e regulação do audiovisual, In: DOS SANTOS, Rafael; COUTINHO, Angélica (Ed.). Políticas públicas e regulação do audiovisual. Editora CRV, 2012.
    GOMES, Paulo Emilio. Uma situação colonial? São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
    IKEDA, Marcelo. Utopia da autossustentabilidade: impasses, desafios e conquistas da Ancine. Editora Sulina, 2021.
    SOUSA, Ana Paula. O cinema que não se vê. 1º. ed. Belo Horizonte: Fino Traço, 2022.
    ULIN, Jefrey C. The Business of media distribution – monetizing film, TV and video content in a online world.Burlington: Focal Press, 2010.