Ficha do Proponente
Proponente
- Sara de Oliveira Paoliello (UFMG)
Minicurrículo
- Sara Paoliello é doutoranda em Comunicação Social na UFMG, na
linha de pesquisa Pragmáticas da Imagem, e mestre pela mesma
instituição, na linha de pesquisa Territorialidades e Vulnerabilidades.
Formada em Cinema e Audiovisual (UNA), possui licenciatura em
Artes Visuais (Claretiano) e é especialista em Audiodescrição pela
PUC Minas. Sua pesquisa é voltada para a interseção entre deficiência
e cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- O FEMININO DEF NOS FILMES DE ESTELA LAPPONI E JÉSSICA TEIXEIRA
Resumo
- O presente trabalho investiga como cineastas DEF no Brasil subvertem as ideias de abjeção e monstruosidade em suas práticas fílmicas. Em diálogo com as teorias de Julia Kristeva e Barbara Creed, analisa-se como o corpo com deficiência, historicamente construído como desviante, torna-se lugar de enunciação e agência. A pesquisa propõe que essas produções confrontam regimes normativos, convertendo o estigma em uma poética que tensiona as fronteiras de uma suposta normalidade corporal.
Resumo expandido
- O presente trabalho investiga a emergência do “Cinema DEF” no Brasil, com foco na produção de cineastas que operam a partir do protagonismo da deficiência. O termo “DEF”, cunhado por Ana Carolina Bezerra Teixeira (2016) é aqui mobilizado como uma categoria i como um posicionamento político e estético que ressignifica o corpo dissidente como potência criativa.
A pesquisa parte da transição dos modelos de entendimento da deficiência, do médico-patológico ao biopsicossocial, para situar essas obras como atos de posicionamento político e subjetivo que tensionam a hegemonia do corpo normata (Garland-Thomson, 2017). Rosemarie Garland-Thomson demonstra que os freak shows, (1835- 1940), operaram como dispositivos centrais na invenção da normalidade ao transformar corpos não normativos em espetáculo. Esse processo encontra continuidade no cinema de horror clássico, no qual, como argumenta Angela Smith (2012), a deficiência foi mobilizada como signo de perigo ou degeneração articulada a discursos eugênicos. Nesse contexto, o “monstro” constitui um corpo a ser exibido e controlado.
É nesse campo que se insere a teoria da abjeção de Julia Kristeva (1982), entendida como aquilo que perturba identidades e sistemas, situando-se na fronteira instável entre o “eu” e o “outro”. O corpo (especialmente o corpo feminino e o corpo com deficiência) ocupa historicamente esse lugar liminar, associado ao excesso e à ruptura da ordem simbólica. Barbara Creed (1986) articula essa lógica ao “feminino monstruoso”, demonstrando como o cinema construiu o corpo feminino como fonte de horror. Em sua formulação recente (2022), a autora identifica uma inflexão na qual o monstruosa deixa de ser apenas objeto de rejeição para se constituir como sujeito e agente da narrativa, em um movimento que denomina “revolta íntima”.
A análise se concentra nos filmes Seliberation 3, de Estela Lapponi, e Partindo do princípio que a terra é plana, sou toda curva e desvio, de Jéssica Teixeira e Victor Di Marco. Observa-se que, nesses trabalhos, o corpo com deficiência não é submetido a uma lógica de correção ou ocultamento, mas afirmado como campo de experimentação estética. Em Lapponi, a hemiparesia torna-se eixo da imagem; em Teixeira, a exposição do corpo “curvo” confronta o espectador e desloca a relação entre ver e ser visto.
A partir das formulações de Garland-Thomson e Angela Smith, compreende-se que a sociedade tende a inscrever a mulher com deficiência no campo do abjeto (Kristeva), posicionando-a como corpo que perturba a ordem estética e funcional. No cinema de horror clássico, esse corpo foi mobilizado sobretudo como recurso para produzir medo ou piedade, reiterando o “stare” que o fixa como objeto. Em contraste, Estela Lapponi e Jéssica Teixeira operam no horizonte daquilo que Barbara Creed (2022) identifica como uma nova inflexão da monstruosa: não buscam a normalização, mas ocupam esse lugar como estratégia de enunciação. Ao filmarem seus próprios corpos, curvas e desvios, transformam o que seria o “colapso do significado” em uma forma de produção de sentido em emergência que talvez ainda não consigamos nomear.
Bibliografia
- CREED, Barbara. The Monstrous-Feminine: Film, Feminism, Psychoanalysis. London: Routledge, 1993.
CREED, Barbara. Return of the Monstrous-Feminine: Feminist New Wave Cinema. London: Routledge, 2022.
KRISTEVA, Julia. Powers of Horror: An Essay on Abjection. New York: Columbia University Press, 1982.
LAPPONI, Estela. Seliberation 3, 2021, 6min.
SMITH, Angela M. Hideous Progeny: Disability, Eugenics, and Classic Horror Cinema. New York: Columbia University Press, 2012.
TEIXEIRA, Ana Carolina Bezerra. A estética da experiência: trajetórias do corpo
deficiente na cena da dança contemporânea. 2016. 240p. Tese (Doutorado) – Programa de
Pós-Graduação em Artes Cênicas, Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2016.
TEIXEIRA, Jéssica; DI MARCO, Victor. Partindo do princípio que a terra é plana, sou toda curva e desvio, 2022. 16 min.
THOMSON, Rosemarie GARLAND. Extraordinary Bodies: Figuring Physical Disability in American Culture and Literature. New York: Columbia University Press, 1997.