Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lucas Waltenberg (ESPM Rio)

Minicurrículo

    Lucas Waltenberg é doutor e mestre em comunicação pelo PPGCOM/UFF. Atualmente, é consultor em estratégia de conteúdo para marcas e professor da ESPM Rio, onde está à frente de disciplinas com ênfase em branding, comunicação e marketing digital e estratégias narrativas, para cursos de graduação e pós-graduação. Possui interesse de pesquisa em cultura digital e entretenimento, indústria da música e consumo.

Ficha do Trabalho

Título

    Botar uma música para mudar o clima: trilhas sonoras para o fim do mundo

Resumo

    Em mundos onde a esperança parece estar cedendo cada vez mais espaço ao medo e à apatia, que músicas serão tocadas enquanto tudo desaparece de vez? O objetivo do trabalho é investigar a presença da música diegeticamente utilizada em narrativas audiovisuais distópicas, mapeando nuances, pausas e catalogando possibilidades para uma pesquisa sobre trilha sonora, cinema e fim do mundo, tendo como conceitos centrais a própria ideia de distopia e teorias sobre construção de mundo.

Resumo expandido

    Em um mundo onde a esperança parece estar cedendo, de forma acelerada, cada vez mais espaço ao medo e à apatia, que músicas serão tocadas enquanto tudo desaparece de vez?

    No quarto episódio da segunda temporada da série “The Last of Us”, distopia pós-apocalíptica exibida pela HBO em 2025, a protagonista Ellie, junto de sua amiga e interesse amoroso Dina, encontra um violão abandonado entre destroços de uma loja abandonada. Ao se aproximar dele, o tom da série muda. Entre cenas intensas de perseguição, drama e terror, neste momento, a personagem pega o violão para tocar e cantar uma versão melancólica do sucesso pop “Take on Me”, da banda norueguesa A-ha, lançada em 1984/85.

    Durante a cena, adaptação de uma já existente no jogo, fica no ar a pergunta: por que tocar e ouvir música, mesmo em um universo que tem a desesperança, o medo e a tensão como marcas centrais da existência cotidiana? Seria uma forma de recuperar parte dessa esperança, por mais longe que ela esteja? Ou, ainda, escapar, mesmo que por alguns momentos, de um mundo em ruínas?

    O objetivo deste trabalho é investigar a presença da música diegeticamente utilizada em narrativas audiovisuais distópicas, mapeando nuances sensoriais, pausas e catalogando possibilidades para uma pesquisa futura sobre trilha sonora, cinema e fim do mundo.

    Distopias, assim como utopias, afirma Sand (2018, p. 177), “são alternativas imaginadas ao presente do autor”. A produção delas, sendo um dos tipos mais populares a pós-apocalíptica, passa e muito a produção de utopias ao longo do século XX e neste século atual. Uma das respostas a esse fenômeno, para Sand (2018) e Wolf (2012), pode ser uma reação aos sucessivos choques do século XX, como as grandes guerras, aumento da consciência ecológica – e a sensação cada vez mais forte de que estamos perto de um colapso ambiental irreversível –, além dos diversos conflitos relacionados a papéis de gêneros e direitos civis. Cunha (2020, p. 19) complementa, ao dizer que distopias “são pensadas em função de uma época, em função dos debates sociais e culturais que estão em jogo na sociedade em que seus autores vivem”.

    Podemos dizer que as músicas que fazem parte desses mundos distópicos são também parte das informações que sugerem um certo tipo de mundo, construído para se encaixar nas necessidades da história (Wolf, 2018). Temos aqui a música aplicada em um nível dramático/ narrativo (Carrasco, 2010, on-line), como um dos elementos usados para contar uma história. Ou seja, “a música se liga a personagens, situações, conflitos, locais, épocas, ajudando a identificá-los e contribuindo para a definição de seu caráter”.

    Em “O Agente Secreto”, filme de Kleber Mendonça Filho, lançado em 2025, a personagem Dona Sebastiana, durante uma reunião em sua casa, identificando uma energia tensa, triste e preocupada entre o grupo, solta uma de suas falas marcantes: “Vamos mudar esse clima, vou botar uma música”. Seria esse o ponto? A música muda o clima? E o que mais ela muda? Que elemento narrativo é esse que vem da música na construção de mundos, especialmente aqueles que parecem prestes a acabar?

    Wolf (2018) aponta que um dos elementos que fazem mundos narrativos bem construídos serem percebidos como bem construídos é a consistência com que eles trazem seus elementos constitutivos; mundos que não caem em contradição. Se partirmos dessa premissa, e da que o mundo de “The Last of Us” é um mundo bem construído, então não é contraditório que as pessoas parem um pouco para ouvir música, para mudar o clima, mesmo quando ele está acabando.

    Como pontua Sand, (2018, p. 182), “utopias e distopias são uma expressão da tendência humana fundamental para imaginar alternativas.” O nosso mundo real é um terreno fértil para imaginar distopias – muitas das quais, quase proféticas, parecem estar a ponto de realização. Que esses personagens e cenas nos convidem, então, a parar e ouvir música, mudar o clima e, com essa trilha sonora, reimaginar e reinventar o futuro.

Bibliografia

    Carrasco, Ney. Trilhas: o som e a música no cinema. ComCiência, Campinas, n. 116, 2010 . Disponível em . acessos em 25 abr. 2026.

    Cunha, Ivan Ferreira da. Distopias: algumas reflexões filosóficas. In: Ripoll, Leonardo; Markendorf, Marcio & Silva, Renata Santos da (Orgs.). Cinema e distopia: exploração de conceitos e mundos paralelos. Florianópolis: BU Publicações/ UFSC, 2020.

    Sands, Peter. Utopias and Dystopias. In: Wolf, Mark J. P. (Org.). The Routledge Companion to Imaginary Worlds. Routledge: New York, 2018.

    Wolf, Mark J. P. Building Imaginary Worlds: The Theory and History of Subcreation. New York: Taylor and Francis, 2012.

    Wolf, Mark J. P. World Design. In: Wolf, Mark J. P. (Org.). The Routledge Companion to Imaginary Worlds. Routledge: New York, 2018.