Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Adriana Isabel Rodrigues Marcos (PUCPR)

Minicurrículo

    Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Mestra em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Bacharel em Comunicação Social. É professora da educação básica. Pesquisadora da imagem com foco no conceito de antropofagia (iconofagia) e literacia visual. Desenvolve investigações sobre a interface entre artes e materialidades artísticas e o cinema brasileiro e a formação docente e na curadoria de cinema para a educação básica. Bolsista Capes.

Ficha do Trabalho

Título

    De Retirante a Cangaceiro: cristalizações e mutações do estereótipo do nordestino no cinema brasilei

Resumo

    Esta comunicação analisa a cristalização e as mutações dos estereótipos do nordestino no cinema brasileiro, focando nas figuras do retirante e do cangaceiro. Através de uma perspectiva histórica e imagética, investiga-se como essas representações operam entre o estigma e a resistência. O objetivo é discutir como a cinematografia nacional, da “estética da fome” à produção contemporânea, ora reforça, ora subverte essas imagens, moldando a percepção identitária da região no imaginário social.

Resumo expandido

    A imagem do Nordeste no cinema brasileiro não é apenas um registro geográfico, mas uma construção política e estética que fundamentou o que se entende por brasileiridade. Segundo Albuquerque Jr. (2011), o Nordeste foi “inventado” por meio de discursos que cristalizaram a região como o lugar do atraso, da seca e do exótico, criando uma identidade que servia aos interesses de centralização nacional. Esta comunicação propõe uma análise crítica sobre os dois polos mais persistentes dessa representação no audiovisual: o retirante, símbolo da passividade e da carência, e o cangaceiro, ícone da violência e da honra rústica.

    Historicamente, o cinema brasileiro utilizou o Nordeste como o cenário do “outro” arcaico. Na década de 1950, com o sucesso de O Cangaceiro, de Lima Barreto , o sertão foi traduzido para a linguagem do western, criando uma iconografia de couro e poeira que operava sob a lógica do espetáculo. Com o advento do Cinema Novo na década de 1960, ocorre uma ruptura radical. Rocha (1965), em seu manifesto A Estética da Fome, defende que o cinema deveria revelar a face trágica e faminta do Brasil, transformando a carência em força revolucionária. Sob essa ótica, o retirante em Vidas Secas deixa de ser uma figura de piedade para se tornar um “homem-bicho”, uma denúncia da desumanização provocada pela estrutura fundiária, conforme analisa Xavier (2007) ao discutir a relação entre o sertão e o mar na obra de Glauber Rocha.

    Analisamos esse fenômeno sob a lente do Nordeste real, urbano e plural, muitas vezes é invisibilizado por uma “imagem-mestra” que exige a presença do sertão seco para que a obra seja validada como “autêntica”. Bernardet (2007) já apontava como o cinema brasileiro, por vezes, recai em um sociologismo que acaba por aprisionar o personagem nordestino em sua própria condição de classe ou de estigma geográfico.

    Na produção contemporânea, especialmente após o cinema da retomada” (NAGIB, 2002), observamos uma tentativa de implodir esses polos. Se em alguns filmes o retirante ainda busca uma redenção mística, a produção atual tem operado uma desestereotipização. Carvalho (2010) destaca que o cinema feito no Nordeste hoje reivindica uma identidade própria que foge do binarismo vítima/agressor. O cangaceiro dá lugar ao sujeito político contemporâneo e o retirante é substituído por subjetividades urbanas que dialogam com o que Santiago (2004) define como o “cosmopolitismo do pobre”, onde a precariedade não impede o trânsito cultural e a inserção na modernidade globalizada.

    Esta comunicação pretende demonstrar que a história do cinema brasileiro é a história da negociação com esses estereótipos. Espera-se provocar uma reflexão sobre como o olhar cinematográfico pode atuar tanto como ferramenta de estigmatização quanto como dispositivo de emancipação visual, permitindo que o Nordeste deixe de ser apenas “visto” como arquétipo e passe a ser, de fato, compreendido em sua alteridade e complexidade histórica.

Bibliografia

    ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
    BAITELLO JR., Norval. A era da iconofagia: reflexões sobre a imagem, comunicação, mídia e cultura. São Paulo: Paulus, 2014
    BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em Tempo de Cinema: Ensaio sobre o Cinema Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
    CARVALHO, Maria do Socorro. Cinema Nordestino: Identidade e Diferença. Salvador: Edufba, 2010.
    NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
    ROCHA, Glauber. A estética da fome. In: ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 63-67.
    SANTIAGO, Silviano. O Cosmopolitismo do Pobre: Crítica Literária e Cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004.
    XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo: Cosac Naify, 2007.