Ficha do Proponente
Proponente
- Adriana Isabel Rodrigues Marcos (PUCPR)
Minicurrículo
- Doutoranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), Mestra em Educação pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e Bacharel em Comunicação Social. É professora da educação básica. Pesquisadora da imagem com foco no conceito de antropofagia (iconofagia) e literacia visual. Desenvolve investigações sobre a interface entre artes e materialidades artísticas e o cinema brasileiro e a formação docente e na curadoria de cinema para a educação básica. Bolsista Capes.
Ficha do Trabalho
Título
- De Retirante a Cangaceiro: cristalizações e mutações do estereótipo do nordestino no cinema brasilei
Resumo
- Esta comunicação analisa a cristalização e as mutações dos estereótipos do nordestino no cinema brasileiro, focando nas figuras do retirante e do cangaceiro. Através de uma perspectiva histórica e imagética, investiga-se como essas representações operam entre o estigma e a resistência. O objetivo é discutir como a cinematografia nacional, da “estética da fome” à produção contemporânea, ora reforça, ora subverte essas imagens, moldando a percepção identitária da região no imaginário social.
Resumo expandido
- A imagem do Nordeste no cinema brasileiro não é apenas um registro geográfico, mas uma construção política e estética que fundamentou o que se entende por brasileiridade. Segundo Albuquerque Jr. (2011), o Nordeste foi “inventado” por meio de discursos que cristalizaram a região como o lugar do atraso, da seca e do exótico, criando uma identidade que servia aos interesses de centralização nacional. Esta comunicação propõe uma análise crítica sobre os dois polos mais persistentes dessa representação no audiovisual: o retirante, símbolo da passividade e da carência, e o cangaceiro, ícone da violência e da honra rústica.
Historicamente, o cinema brasileiro utilizou o Nordeste como o cenário do “outro” arcaico. Na década de 1950, com o sucesso de O Cangaceiro, de Lima Barreto , o sertão foi traduzido para a linguagem do western, criando uma iconografia de couro e poeira que operava sob a lógica do espetáculo. Com o advento do Cinema Novo na década de 1960, ocorre uma ruptura radical. Rocha (1965), em seu manifesto A Estética da Fome, defende que o cinema deveria revelar a face trágica e faminta do Brasil, transformando a carência em força revolucionária. Sob essa ótica, o retirante em Vidas Secas deixa de ser uma figura de piedade para se tornar um “homem-bicho”, uma denúncia da desumanização provocada pela estrutura fundiária, conforme analisa Xavier (2007) ao discutir a relação entre o sertão e o mar na obra de Glauber Rocha.
Analisamos esse fenômeno sob a lente do Nordeste real, urbano e plural, muitas vezes é invisibilizado por uma “imagem-mestra” que exige a presença do sertão seco para que a obra seja validada como “autêntica”. Bernardet (2007) já apontava como o cinema brasileiro, por vezes, recai em um sociologismo que acaba por aprisionar o personagem nordestino em sua própria condição de classe ou de estigma geográfico.
Na produção contemporânea, especialmente após o cinema da retomada” (NAGIB, 2002), observamos uma tentativa de implodir esses polos. Se em alguns filmes o retirante ainda busca uma redenção mística, a produção atual tem operado uma desestereotipização. Carvalho (2010) destaca que o cinema feito no Nordeste hoje reivindica uma identidade própria que foge do binarismo vítima/agressor. O cangaceiro dá lugar ao sujeito político contemporâneo e o retirante é substituído por subjetividades urbanas que dialogam com o que Santiago (2004) define como o “cosmopolitismo do pobre”, onde a precariedade não impede o trânsito cultural e a inserção na modernidade globalizada.
Esta comunicação pretende demonstrar que a história do cinema brasileiro é a história da negociação com esses estereótipos. Espera-se provocar uma reflexão sobre como o olhar cinematográfico pode atuar tanto como ferramenta de estigmatização quanto como dispositivo de emancipação visual, permitindo que o Nordeste deixe de ser apenas “visto” como arquétipo e passe a ser, de fato, compreendido em sua alteridade e complexidade histórica.
Bibliografia
- ALBUQUERQUE JR., Durval Muniz de. A Invenção do Nordeste e Outras Artes. 5. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
BAITELLO JR., Norval. A era da iconofagia: reflexões sobre a imagem, comunicação, mídia e cultura. São Paulo: Paulus, 2014
BERNARDET, Jean-Claude. Brasil em Tempo de Cinema: Ensaio sobre o Cinema Brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
CARVALHO, Maria do Socorro. Cinema Nordestino: Identidade e Diferença. Salvador: Edufba, 2010.
NAGIB, Lúcia. O cinema da retomada: depoimentos de 90 cineastas dos anos 90. São Paulo: Editora 34, 2002.
ROCHA, Glauber. A estética da fome. In: ROCHA, Glauber. Revolução do Cinema Novo. São Paulo: Cosac Naify, 2004. p. 63-67.
SANTIAGO, Silviano. O Cosmopolitismo do Pobre: Crítica Literária e Cultural. Belo Horizonte: UFMG, 2004.
XAVIER, Ismail. Sertão Mar: Glauber Rocha e a Estética da Fome. São Paulo: Cosac Naify, 2007.