Ficha do Proponente
Proponente
- MARINA OROSCO KAISER (UEM)
Minicurrículo
- Graduanda em Artes Visuais pela UEM, onde pesquisa as intersecções entre cinema e artes-visuais. Tem interesse em Cinema e outras artes, Gênero e sexualidade, História do Cinema e Teorias do cinema. Atualmente é bolsista do Programa de Bolsas de Iniciação Científica financiada pela CNPq, estuda corpos femininos e body horror.
Ficha do Trabalho
Título
- Ditadura da Beleza e Monstruosidade Feminina em “A Substância” (Fargeat) e “Arte Carnal” (Orlan)
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este projeto de pesquisa analisa a ditadura da beleza e a monstruosidade feminina no filme “A Substância” (2024) e na série “Arte Carnal” (1989-1993), de Orlan. O objetivo é investigar como a representação visual da deformidade questiona padrões estéticos sociais e históricos, a partir de uma investigação que conecta as cirurgias performativas de Orlan às mutações corporais no longa, promovendo uma reflexão de como o cinema e a arte contemporânea tensionam a lógica da perfeição feminina.
Resumo expandido
- O presente resumo apresenta os resultados parciais da pesquisa de Iniciação Científica financiada pela CNPq, desenvolvida entre setembro de 2025 e março de 2026. O estudo investiga a “ditadura da beleza” juntamente com a construção da “monstruosidade feminina”, utilizando como objetos de análise o longa-metragem A Substância (2024), da diretora Coralie Fargeat, e a coleção de obras Arte Carnal (1989-1993), da artista francesa Orlan, que mistura fotografia e performance nas obras. A pesquisa fundamenta-se na hipótese de que a feiura e a deformidade não são fatores naturais, porém, conceitos criados para impor limites ao socialmente aceito, especialmente no que diz ao envelhecimento da mulher em uma sociedade patriarcal e capitalista.
A metodologia empregada consiste em análise bibliográfica e análise fílmica. Para a análise do longa-metragem, utiliza-se a proposta de Francis Vanoye, que decompõe a obra cinematográfica em sistema de significação, distinguindo o relato da narração e considerando elementos técnicos como enquadramento, montagem e som como ferramentas de construção de sentido. Além disso, serão utilizadas bibliografias que consistem em estudos sobre corpos e horror visual. A construção da identidade feminina tanto na era moderna quanto na contemporânea é atravessada por tensões constantes entre o ideal de beleza e a ameaça da monstruosidade, um fenômeno que se manifesta tanto na história política quanto em tantas outras áreas. Pensar a bruxa como monstro exige compreender que a feiura e a deformidade não são fatos naturais, mas que são conceitos e parâmetros criados para impôr limites do socialmente aceito. Diante disso, a figura da bruxa tornou-se monstruosa por representar uma falha na lógica do capital, é uma mulher que envelhece, perde a “utilidade” reprodutiva e que, por isso, tem seu direito à sexualidade negado “a velhice impede a possibilidade de uma vida sexual para as mulheres, a contamina, transforma a atividade sexual em uma ferramenta da morte em vez de um meio de regeneração” (pg. 347). Essa discriminação e desqualificação do corpo que envelhece é o que Umberto Eco (2014) define como “uma feiura política e social”, usada como um espelho negativo para ressaltar a beleza clássica, jovem e reprodutiva, que veremos no longa A Substância (2024).
A análise de A Substância foca na personagem Elisabeth Sparkle, uma celebridade fitness demitida aos 50 anos por ser considerada com imagem “vencida”. Ao recorrer a um procedimento clandestino que gera uma versão jovem de si, Sue, Elisabeth inicia um processo de degradação física e psicológica que culmina na figura monstruosa “Elisasue”. Esse fenômeno é relacionado ao conceito de “feiura política e social” de Umberto Eco e à “guerra contra as mulheres” descrita por Silvia Federici.
Em diálogo com o filme, a Arte Carnal de Orlan apresenta cirurgias plásticas performativas como ato político. No artigo Presenças do corpo feminino na arte: aproximações a partir de Orlan, a autora explica: “A aplicação de novos sentidos resulta no nascimento de um novo corpo, que é marcado pela subjetivação, pela perda de organicidade e, metamorfoseado […]” (Marchi, 2009, p. 37). A relação de ambos, a mudança corporal grotesca resulta nesse nascimento de um novo corpo, que não necessariamente segue as mesmas linhas de pensamento que seguia, assim como acontece com Elisabeth quando traz vida à Sue, sua versão mais nova, mas que tem pensamentos e ambições diferentes do corpo matriz que, traz esse destaque para a narrativa do longa-metragem.
Na narrativa do longa, a diretora não foca no “monstro lá fora” mas sim, no monstro do autoódio que criamos dentro de si, que será explicado por José Gil. Em uma era de filtros e cirurgias fáceis, o filme funciona como um espelho distorcido que nos pergunta: até onde você iria para ser a “melhor versão” de si mesmo? Ele nos obriga a confrontar o desconforto de um sistema que nos quer jovens para sempre, a qualquer custo.
Bibliografia
- A Substância. Direção: Coralie Fargeat. Produção: Coralie Fargeat; Pascal Caucheteux; Vincent Maraval. [S. l.]: Mubi, 2024. 1 filme (131 min).
ECO, Umberto (Org.). História da beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004.
ECO, Umberto (Org.). História da feiura. Rio de Janeiro: Record, 2007.
FEDERICI, Silvia. Calibã e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva. São Paulo: Editora Elefante, 2017.
GIL, José. Monstros. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2006.
MARCHI, Salette Mafalda Oliveira. PRESENÇAS DO CORPO FEMININO NA ARTE: aproximações a partir de Orlan. 2009. 145 f. Dissertação (Mestrado em Artes Visuais) – Universidade Federal de Santa Maria, Santa Maria, 2009.
ORLAN. O manto de Alerquim. In: Performance Presente Futuro. Rio de Janeiro: Oi Futuro/Contracapa p. 41- 46, 2008.
VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. Campinas: Papirus, 1994.