Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Renata da Silva Melo (UFRJ)

Minicurrículo

    Jornalista, mestre e doutora em antropologia pela UFRJ. Pesquisa as relações entre representações sociais e a construção de territorialidades, explorando interseções entre a comunicação e a antropologia. É autora do livro “Cinema, cidade e cerveja: reinvenções da periferia nos cineclubes da Baixada Fluminense” (Multifoco, 2026). Integra o Urbano – Laboratório de Estudos da Cidade- UFRJ. Tem experiência em diversos projetos de artes visuais. É comunicadora e educadora no CinEsquina e na Germinal.

Coautor

    LAURA BARROSO PECHMAN (UFRJ)

Ficha do Trabalho

Título

    Cinema e educação como espanto: terror e metodologias participativas numa favela carioca

Resumo

    Este trabalho tem como objetivo refletir sobre metodologias para abordagem do gênero do terror em processos formativos de educação e cinema. Busca-se debater sobre práticas de ensino e aprendizagem que contribuem para o questionamento de lógicas de instrumentalização da arte e da cultura em territórios marcados por vulnerabilidades sociais. Para tanto, será apresentado um relato de experiência etnográfico sobre um curso de audiovisual realizado em uma escola pública numa favela carioca.

Resumo expandido

    Este resumo tem como base as atividades do CinEsquina, um projeto idealizado pela Ong Germinal, criado em 2023 como um curso de extensão, em parceria com o NIDES-UFRJ e o Colégio Estadual Professor João Borges de Moraes, na Maré, Rio de Janeiro. Incorporado como parte de atividades curriculares e extracurriculares da escola, o projeto oferece aulas práticas e teóricas de cinema para estudantes do ensino médio. O CinEsquina busca explorar metodologias que provoquem o debate sobre temáticas relacionadas à vida cotidiana dos alunos e às imagens que povoam as esquinas por onde circulam, como sugerido desde o nome do projeto. Os exercícios propostos nas aulas são inspirados no Cadernos do inventar com a diferença (Migliorin et al., 2014) e buscam estimular a construção de novas formas de olhar e a ampliação de repertórios, indo além de uma formação tecnicista. Em 2025, o curso resultou em uma sessão de curtas de terror na escola, fruto de uma formação realizada ao longo de quatro meses pelas autoras deste texto. É sobre o processo de produção de um filme de terror pelos estudantes e a organização de uma mostra final em conjunto com eles que se debruça esta proposta. Isso porque nos chamou atenção o interesse de uma turma de adolescentes pelo terror e as reflexões que se desdobraram a partir disso sobre os limites e possibilidades de representação e formação em contextos de vulnerabilidade social. O terror é um gênero que contrasta com a abordagem geralmente utilizada pelos chamados “projetos sociais” realizados em favelas, muitos deles pautados em uma visão utilitarista que pensa a cultura como instrumento para resolução de problemas sociais (Yúdice, 2002). Seguindo essa lógica, o terror tenderia a reforçar estereótipos de violência e não contribuiria para uma construção pedagógica potencialmente transformadora de representações e histórias de vida. Embora concordemos que é preciso problematizar visões estereotipadas, acreditamos que é necessário ir além do pressuposto de que o chamado “cinema de favela” ou de “periferia” deve ser, necessariamente, “socialmente engajado e neorrealista” (De Tommasi, 2013, p. 27), perspectiva entranhada em uma “normatização implícita dos editais” (De Tommasi, 2013) e em olhares moralizantes sobre as favelas (Facina, 2013). Partindo do questionamento dessas perspectivas, foi interessante observar como emergiram subjetividades dos alunos e a construção de outras relações com o espaço escolar a partir do terror, em combinação com metodologias do cinema e educação (Duarte, 2009). O terror foi escolhido como gênero por um grupo de cinco estudantes, 4 rapazes e uma jovem, e resultou na realização de “Mistério Borges”, um curta de 3 minutos e 30 segundos que conta “a história do mistério do desaparecimento de alunos na escola”, como descrito por eles. Usar o colégio como cenário de gravação pareceu conferir certa liberdade aos estudantes, geralmente submetidos a lógicas disciplinares típicas do ambiente escolar. A gravação de um filme de terror permitia, em alguma medida, deixar-se “afetar” com a subversão daquele espaço (Freitas et al., 2019), o que se manifestou no arrastar de mesas e cadeiras, na mudança de objetos de lugar e em encenações carregadas de energia. Na preparação da mostra final, composta por 7 curtas de terror, foi o momento de refletir sobre o interesse dos alunos pelo gênero. Surgiram falas emblemáticas, registradas em diários etnográficos das autoras, sobre o prazer por sentir medo e o terror como forma de se sentir mais vivo. A sessão final não foi marcada pelo medo, no entanto, e sim por gargalhadas do público, que achou graça em ver os colegas como atores na tela, como se isso prolongasse um modo próprio deles de “brincar” juntos (Alvarenga, 2022). Pretendemos aprofundar a reflexão sobre essas questões no trabalho. A intenção é pensar o cinema e a educação como espanto, algo que desloca formas habituais de vivenciar os espaços, provocando novas relações com lugares cotidianos.

Bibliografia

    ALVARENGA, Clarisse (org.). Aprender com imagens: práticas audiovisuais em escolas da Região Metropolitana de Belo Horizonte e da Terra Indígena Xakriabá. Belo Horizonte, 2022.
    DE TOMMASI, Livia. Culturas de periferia: entre o mercado, os dispositivos de gestão e o agir político. Política & Sociedade, Florianópolis, v. 12, n. 23. 2013.
    DUARTE, Rosália. Cinema & educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
    FACINA, Adriana. Consumo favela. In: DANTAS, Aline; MELLO, Marisa S.; PASSOS, Pâmella (org.). Política cultural com as periferias: práticas e indagações de uma problemática contemporânea. Assis: Gráfica Storbem, 2013.
    FREITAS, Nilson et al. “Filme de Entrada”: o uso do audiovisual como método de pesquisa. Iluminuras, Porto Alegre, v. 20, n. 49, maio 2019.
    MIGLIORIN, Cezar et al. Inventar com a diferença: cinema e direitos humanos. 1. ed. Niterói: Editora da UFF, 2014.
    YÚDICE, George. El recurso de la cultura: usos de la cultura en la era global. Barcelona: Gedisa, 2002.