Ficha do Proponente
Proponente
- Pedro Vaz Perez (PUC Minas)
Minicurrículo
- Doutor em Histórias e Políticas pelo PPGCine-UFF. Mestre pelo PPGCOM PUC Minas e graduado em Jornalismo pela mesma instituição. Professor Adjunto II, coordenador do curso de Cinema e Audiovisual e do Laboratório Universitário de Preservação de Arquivos e Acervos Audiovisuais (Lunar) da PUC Minas. Membro do Conselho Curador do Centro de Estudos Cinematográficos de Minas Gerais (CEC-MG).
Ficha do Trabalho
Título
- O superoitismo universitário em Belo Horizonte no acervo do Lunar PUC Minas
Seminário
- Arquivo e contra-arquivo: práticas, métodos e análises de imagens
Resumo
- Nessa comunicação apresentaremos resultados da pesquisa em desenvolvimento no Laboratório Universitário de Preservação de Arquivos e Acervos Audiovisuais (Lunar) da PUC Minas, a partir da análise de recorte pouco conhecido do acervo: os 25 curtas já digitalizados da produção superoitista universitária em Belo Horizonte (1974-1987). Vamos mapear seu modo de produção, suas escolhas temáticas, narrativas e estilísticas, construindo contextos para compreender tendências e a história dessa produção.
Resumo expandido
- Esta comunicação apresenta resultados da pesquisa desenvolvida no Lunar PUC Minas, vinculado ao INCT PreRes.
Em 1962, era inaugurada em Belo Horizonte a pioneira Escola Superior de Cinema (ESC) da então Universidade Católica de Minas Gerais (UCMG). A Escola teria intensa, mas breve, atuação, encerrando suas atividades no início dos anos 1970, dando lugar à atual Faculdade de Comunicação e Artes (Ribeiro, 1997). A formação em Cinema foi descontinuada e surgiram habilitações em Jornalismo, Publicidade e Relações Públicas, mas parte do corpo docente permaneceu atuante, mantendo viva a vocação à realização cinematográfica na cadeira de “Cinema”, para a qual gerações de alunos realizaram curtas em 16 mm e Super-8 entre 1973 e 1996, sob orientação dos professores Paulo Pereira e Hélio Gagliardi – ex-alunos da ESC.
Próximo ao fim de sua trajetória acadêmica, Pereira realizou o primeiro esforço conhecido de catalogação e organização deste vasto material. Parte dos filmes foi telecinada e o acervo analógico foi guardado em um laboratório da Universidade. Foram feitas anotações nos rótulos e um documento com datas e nomes de filmes e de alunos, onde são apontados 266 filmes realizados entre 1973 e 1996. Desse conjunto, destacam-se 218 filmes realizados em Super-8 entre 1974 e 1987. No acervo, hoje encontram-se 99 obras completas em Super-8. Estas fitas foram revisadas e analisadas em mesa enroladeira, com base no manual da Cinemateca Brasileira (Coelho, 2006), e catalogados em uma base de dados no AirTable.
A popularização do Super-8 no Brasil se deu justamente na década de 1970, com grande circulação entre artistas e aspirantes a cineasta, devido a seu baixo custo, portabilidade, descentralização da revelação e processos simplificados de carregamento e filmagem, dando origem a uma vasta – e até recentemente pouco estudada – produção com marcas estéticas singulares, ao passo em que surgiram festivais de Super-8 em várias cidades do Brasil e da América Latina: “uma técnica junto com toda uma época” (Machado Jr., 2011, p. 30).
Em BH, o ciclo superoitista passou pela produção universitária, com Paulo Pereira e suas turmas, e suas exibições ocorreram em 31 edições do Festival de Curtíssima Metragem Padre Massote, idealizado por Paulo e realizado semestralmente no teatro da universidade.
Do conjunto de filmes em Super-8, existem 25 cópias telecinadas por Pereira. Estes filmes configuram o corpus desta comunicação, que busca mapear seus modos de produção, suas escolhas temáticas, narrativas e estilísticas, com o objetivo de construir contextos (Bernardet, 2008) para compreender as tendências e contar a história dessa produção em Belo Horizonte.
Foram reunidos dados contidos nas diferentes fontes disponíveis (informações inseridas nas cópias editoradas em DVD, rótulos dos estojos, fichas técnicas nas cópias analógicas e o documento de Pereira), sistematizando informações como data, câmera, locação e ficha técnica. A partir disso, foi desenvolvido um calendário de entrevistas com ex-alunos envolvidos nas produções.
A análise do conjunto digitalizado permite apontar tendências que encontram eco no que se vê nos rolos revisados. Boa parte das obras traz reflexões sobre a forma de vida da época, expressando questões político-econômicas em um contexto de ditadura militar, dilemas da desigualdade social, e até ecos das Diretas Já. Em muitas, o tema da morte se faz presente, entre tiros e atropelamentos – em momento de acirramento da violência de Estado. Em outras, mais experimentais, alegorias exibem visões distópicas sobre as ruínas da civilização capitalista, com ares do desbunde marginal. E, em quase todas, o registro, hoje carregado de interesse histórico, das mudanças na capital mineira ao longo das décadas.
Olhar para este acervo é um convite para pensar imagens não canônicas que contribuem para uma revisão da escrita da história do cinema no Brasil, bem como da memória do país, da cidade e da universidade.
Bibliografia
- BERNARDET, Jean-Claude. Historiografia clássica do Cinema Brasileiro: metodologia e pedagogia. São Paulo: Annablume, 2008.
CAMPOS, Marina da Costa. Suspensões do tempo: o superoitismo experimental no Brasil e no México na década de 1970. Tese de Doutorado. São Paulo: USP, 2020.
COELHO, Fernanda (Org). Manual de manuseio de películas cinematográficas: procedimentos utilizados na Cinemateca Brasileira. São Paulo: Imprensa Oficial; Cinemateca Brasileira, 2006.
MACHADO JR., Rubens. “O inchaço do presente: experimentalismo super-8 nos anos 1970”. Filme Cultura, n.54, 2011, p.28-32.
JUCA, Mayra. O Super-8 no AI-5: memórias de cinema e juventude na década de 1970. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2025.
MOSTRA Memória. O Cinema nos 50 anos da FCA (Catálogo). Belo Horizonte: PUC Minas, 2021.
RIBEIRO, José Américo. O cinema em Belo Horizonte. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 1997.
SILVA NETO, Antônio Leão. Super-8 no Brasil: um sonho de cinema. São Bernardo do Campo, Ed. Do Autor: 2017.