Ficha do Proponente
Proponente
- Giordano Gio (UNISINOS)
Minicurrículo
- GIORDANO GIO é cineasta, roteirista e historiador da arte. Formado pelo Curso de Realização Audiovisual (CRAV), da UNISINOS e pelo Instituto de Artes, da UFRGS, onde também tornou-se mestre e doutor em História, Teoria e Crítica de Arte, desenvolvendo pesquisas sobre as relações da magia e do ocultismo com a história do cinema, em diferentes níveis. Atualmente, é professor de Teorias do Cinema e História do Cinema na UNISINOS.
Ficha do Trabalho
Título
- Cinema como Restauração de um Culto Solar: de Thomas Edison a Megalópolis
Seminário
- Estudos do Insólito e do Horror no Audiovisual
Resumo
- “O cinema é colocar um sol em cada imagem” disse Abel Gance. Ao pensar a ambígua relação da formação dos estúdios com a luz solar, Paul Virilio nos diz que “cinema é a restauração de um culto solar tardio”. Esse estudo propõe pensar as técnicas que demonstram as ambivalentes tensões ritualísticas do cinema com o astro-rei na conjuração de outras realidades, das experiências do primeiro cinema, passando pelo duplo pôr-do-Sol de “Star Wars” aos painéis de luz de LED de “Megalopolis”, de Coppola.
Resumo expandido
- A presente pesquisa tem como intenção um passeio pelas ambivalentes relações entre o cinema e o Sol para a conjuração de outras realidades através de diferentes práticas e tecnologias ao longo da história da imagem em movimento.
Era circular a plataforma que servia de base para aquele que é compreendido pela historiografia como o primeiro estúdio de cinema, um espaço construído com o único fim de conjurar imagens em movimento. Sua concepção antecede o cinematógrafo, e foi concluído no terreno dos laboratórios de Thomas Edison, em West Orange, New Jersey, em 1893. Nos interessa em específico, a maneira como a estrutura foi pensada. Uma sala de estúdio escura coberta de papel alcatroado, com um telhado retrátil que permitia que a luz do Sol entrasse de acordo com a intenção de quem conduzia o feitiço. O edifício inteiro girava sobre uma pista circular, que era movida de acordo com a posição solar, de maneira a não deixar que, devido à rotação terrestre, os raios do astro-rei fujam, prejudicando os feitiços ali realizados.
Do outro lado do atlântico, o ilusionista George Méliès batizou seu estúdio, e sua marca, de Star Film, e encontrou nos palácios de cristal das grandes exposições universais da modernidade o modelo para o templo no qual abriria seus portais para outras realidades. Inteiramente feito de ferro e vidro, o mágico e seus assistentes inspiravam-se nas trucagens de palcos de teatro italiano para realizar suas imagens: alçapões, coxias, paisagens secretas, cenários de pano que se desenrolavam, estruturas móveis que entravam e saíam de cena, enquanto o cinematógrafo rodava (2009, p. 24). Talvez a mensagem arquitetônica que a estrutura transmitia fosse a mesma que os palácios das exposições ofereciam: “que o Sol ilumine as maravilhas modernas que aqui dentro apresentamos ao mundo, e através dele que as eternizamos”. Foi ali que filmou, inclusive, Viagem Através do Impossível (1904), no qual um dos destinos da narrativa é uma visão imaginária da superfície terrestre.
As duas abordagens nas estruturas dos estúdios denunciam diferentes relações com a luz solar para a atividade mágica. Edison manipulava a influência do Sol durante o dia para otimizar a sua produção, enquanto Méliès deixava que a luminosidade invadisse completamente o seu círculo de criação, com a natureza determinando os horários ideais para as suas encenações. O que perceberemos é que, como o círculo mágico de um ritual, um estúdio de cinema tem como principal prerrogativa mediar as influências externas que impeçam a prática mágica ali realizada. O filósofo Paul Virilio nos dá uma chave para compreender o núcleo ritualístico das decisões arquitetônicas de Méliès e Edison: “o cinema é a restauração de um culto solar tardio’. Virilio atinge essa conclusão conectando a belíssima máxima de Abel Gance, “o cinema é colocar um sol em cada imagem” com o canto de Akhenaton, “o Sol cria milhares de aparências” (VIRILIO, 2005, p. 77).
O Sol pode incidir diretamente sobre os círculos nos quais abrem-se os portais, como nos estúdios de Edison e Méliès; pode ser neutralizado o máximo possível como influência externa (como nos sound stages hollywodianos), e mimetizado através de fontes artificiais (refletores); pode ser emulado com pinturas foscas sobrepostas no próprio set (como em O Mágico de Oz) ou em processo alquímico posterior; se há um Sol em cada imagem, então partimos do pressuposto de que no cinema, operamos em uma galáxia que permite a incidência de múltiplos sóis, uma galáxia talvez muito distante, mas acessível até mesmo através de um feitiço simples, como a dupla exposição de negativos de tomadas feitas em diferentes momentos do dia, como em uma das imagens iniciais de Guerra nas Estrelas (1977). Nosso ponto de chegada da viagem dessa pesquisa é o filme Megalopolis, de Coppola, na qual tecnologia que emula e controla as variações de luz solar, não à toa, leva o nome da entidade grega associada ao astro, Helios LED.
Bibliografia
- ANDRIOPOULOS, Stefan. Aparições Espectrais: O Idealismo Alemão, o Romance Gótico e a Mídia Óptica. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2014.
CROWLEY, Aleister. Liber Aba: Magia em Quatro Partes. São Paulo: Penumbra, 2023
EPSTEIN, Jean. Critical essays and new translations. Amsterdam: Amsterdam University Press, 2012,
KITTLER, Firedrich. Mídias Ópticas: Curso em Berlim, 1999. Rio de Janeiro: Contraponto, 2016.
MACHADO, Arlindo. Pré-cinemas e Pós-cinemas. Campinas: Papirus Editora, 2011.
MICHAUD, Phillippe-Alain. Filme: Por uma Teoria Expandida do Cinema. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 2014.
MOORE, Rachel A. Savage Theory: Cinema as Modern Magic. Durnham: Duke University Press, 2008.
RICKITT, Richard. Special Effects, History and Technique. Nova Iorque, Billboard Books, 2000.
SEGALEN, Martine. Ritos e rituais contemporâneos. Rio Janeiro: FGV, 2002.
VIRILIO, Paul. Guerra e Cinema: Logística da Percepção. São Paulo: Boitempo, 2005.