Ficha do Proponente
Proponente
- Érico Oliveira de Araújo Lima (UFMG)
Minicurrículo
- Érico Oliveira é professor do Departamento de Comunicação Social da UFMG, onde integra os grupos: Poéticas da Experiência e Corisco. Doutor (UFF) e mestre (UFC) em Comunicação Social. Foi professor de Audiovisual no Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza. Fez parte da equipe pedagógica do Curso em Comunicação Social para Assentadas e Assentados da Reforma Agrária – Jornalismo da Terra (UFC/Pronera). Pesquisa cinemas e práticas moradoras.
Ficha do Trabalho
Título
- Caminhos de educação compartilhada e territorializada no Centro Cultural Bom Jardim
Seminário
- Cinemas, Comunidades, Territórios: interpelações aos gestos analíticos
Resumo
- Esta comunicação prossegue pistas abertas no ano passado, insistindo nas situações pedagógicas da Escola de Cultura e Artes do CCBJ, em Fortaleza (CE). Trata-se aqui de alongar um debate sobre os desafios para a construção de uma educação territorializada e compartilhada no campo do audiovisual, traçando paralelos com outras experiências de produção pedagógica situada. Pretendemos seguir ecoando os aprendizados com o CCBJ, com ênfase na descentralização da política educacional em cultura e arte.
Resumo expandido
- Nesta comunicação, pretendo dar prosseguimento a uma abordagem e a um enfoque iniciados no Encontro da Socine do ano passado. Trata-se de costurar a estratégia do relato e a indagação teórico-metodológica, ainda a partir de experiências pedagógicas vividas no chão de sala da Escola de Cultura e Artes do Centro Cultural Bom Jardim, em Fortaleza, Ceará. Desta vez, interessa enfatizar, mais longamente, o processo de construção de uma educação territorializada e de uma gestão compartilhada na instituição e na sala de aula, considerando gestos diversos de aproximação e escuta vividos no território.
Com essa ênfase, almejo tocar num debate de fundo. Se, por um lado, a realização de cursos de audiovisual em diferentes territórios se consolidaram, historicamente, como modos de autonomização da produção de imagens, garantindo a emergência de visibilidades, saberes e fazeres situados, também é notável a busca para que a própria construção pedagógica se tome por um processo de negociação, autonomização e franca horizontalidade. Em outras palavras, podemos pensar: se uma oficina de audiovisual é, fundamentalmente, um gesto que pode garantir produções autônomas nos territórios, é nítida a busca para criar também dispositivos – econômicos, sociais e sensíveis – que garantam autonomia institucional nos territórios e compartilhamento decisório radical no ato mesmo de desenhar as oficinas, seus métodos, suas práticas.
Na Escola de Cultura e Artes do CCBJ, o Projeto Político-Pedagógico e as ações concretas dos diversos cursos promovidos expressam esse desafio, que não tem respostas fáceis, para que formulemos propostas educativas em constante diálogo com o território. Se recorremos aqui à ideia de “educação territorializada”, trata-se, sobretudo, de uma inspiração na pesquisa de Célia Xakriabá (2018), em especial nas práticas conduzidas durante a Oficina “Reativadores de Memória”. Simultaneamente, as situações testemunhadas em publicação organizada por Clarisse Alvarenga (Aprender com imagens) nos indicam, com vigor, a emergência de práticas com as imagens e os sons que não partem de metodologias a priori, mas se confrontam com a densidade de cada encontro.
Também estamos interessados nas provocações que um curta-metragem recente realizou a respeito de processos pedagógicos com audiovisual. Em “Filme Sem Querer” (Lincoln Péricles, 2025), cifra-se, com aguda perspectiva crítica, os processos tensos e contraditórios de aliança entre projetos institucionais de audiovisual e as vidas nas periferias. Esse debate nos leva, em última instância, ao próprio campo da política pública e de uma economia do audiovisual, alargando ainda mais nossos desafios analíticos junto a cinemas, comunidades e territórios.
No caso de ações institucionais com a educação audiovisual no Ceará, seria possível perceber a convivência entre processos que ora expandem ora descentralizam as práticas audiovisuais. A expansão, arriscamos dizer, parece surgir da vontade em propagar um modelo (vindo de um centro) que pressupõe um formato pedagógico e um entendimento prévio sobre o próprio audiovisual (com pressupostos poéticos e metodológicos).
Na Escola de Cultura e Artes, percebe-se menos os efeitos da expansão e mais da descentralização da política educacional em audiovisual. Viver os cursos de audiovisual é habitar o vínculo, demorando-se com cada pessoa matriculada e com seus familiares; mergulhando em escuta e traçando proposições a partir dessa escuta; alterando trajetos e contribuindo para a relação entre audiovisual e direito à vida.
Bibliografia
- ALVARENGA, Clarisse. Aprender com imagens. 1. ed. Belo Horizonte: LAPA, 2022.
ARAÚJO, Joaquim; DI MONTEIRO, Altemar; et al. Projeto Político Pedagógico da Escola de Cultura e Artes do Centro Cultural Bom Jardim. CCBJ: Fortaleza, 2022.
PETIT, Sandra Haydée. Pretagogia: pertencimento, corpo-dança afro ancestral e tradição oral: contribuições do legado africano para a implementação da Lei no 10.639/03. Fortaleza: EdUECE, 2015.
RUFINO, Luiz. Pedagogia das Encruzilhadas. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2019.
SANTOS, A. A Terra Dá, a Terra quer. São Paulo: Ubu Editora/Piseagrama, 2023.
VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Os involuntários da pátria: ensaios de antropologia II. São Paulo: n-1 edições, 2025.
XAKRIABÁ, Célia. O barro, o genipapo e o giz no fazer epistemológico de autoria Xakriabá: reativação da memória por uma educação territorializada. 2018. 218 f., il. Dissertação (Mestrado em Desenvolvimento Sustentável). Universidade de Brasília, 2018.