Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Giovanni Luccas Saluotto Monteiro (Paris 3 / USP)

Minicurrículo

    Giovanni Saluotto é pesquisador, graduado em Midialogia pela Universidade de Campinas (Unicamp) e mestre pela Université Sorbonne Nouvelle (Paris 3). Atualmente, é doutorando em cotutela entre a Université Sorbonne Nouvelle e a Universidade de São Paulo (USP), e prepara uma tese sobre o longo primeiro cinema brasileiro, analisado a partir dos filmes cantantes (1908-1911) e dos filmes-revista (1931-1936).

Ficha do Trabalho

Título

    A atração da voz: aproximações sonoras entre os filmes cantantes (1908-1911) e o cinema de atrações

Resumo

    Desde suas primeiras formulações, o conceito de “cinema de atrações” privilegiou a análise de componentes visuais sobre elementos sonoros do fenômeno. Esta lacuna afeta os estudos de objetos como os filmes cantantes brasileiros (1908-1911), produções nas quais a “atracionalidade” se expressava, justamente, pela via do som. Assim, buscará-se delinear pontos de conexão entre as teorias do cinema de atrações e os estudos do som no cinema, discutindo-se noções como a de “som de atração”.

Resumo expandido

    O conceito de “cinema de atrações” ocupa uma posição central na paisagem dos estudos cinematográficos, constituindo-se uma ideia incontornável aos pesquisadores que se debruçam sobre o chamado “primeiro cinema” (Flávia, 2005). Desde sua elaboração formal efetuada por André Gaudreault e Tom Gunning (1986, 1989), o conceito foi objeto de importantes críticas (Musser, 1994) e de reformulações (Strauven, 2006; Gunning, 2025), que contribuíram para sua consolidação como uma ferramenta potente para o exame das práticas de produção, exibição e recepção de filmes oriundos das primeiras décadas do cinematógrafo e além.

    Apesar dos debates, nota-se, tanto nos textos de Gunning e Gaudreault quanto na produção bibliográfica decorrente, uma clara ênfase no componente visual do cinema de atrações, em detrimento de sua dimensão sonora – certamente, um reflexo do quadro mais amplo dos estudos audiovisuais. Exceptuando-se trabalhos que examinaram a atuação dos “explicadores” (do francês, bonimenteur) (Boillat, 2005), e produções de caráter mais amplo que investigaram as sonoridades do dito cinema silencioso (Altman, 2001; Pisano, 2005; Morettin, 2009), a associação entre o som e a atração, ou a sonoridade do cinema de atrações, ainda carece de aprofundamento.

    Dada lacuna teórica e conceitual é um percalço às análises de filmes que, desde ao menos o início do século XX, expressavam sua “atracionalidade” através do som. É o caso da série de Phonoscènes Gaumont, por exemplo, e também de todo um conjunto global de experiências de sonorização direta feita com atores (Lecasse, 2055; Pozner, 2005), prática que entre nós ganhou o nome de filme cantante.

    Objeto recorrente das historiografias do cinema brasileiro, os filmes cantantes se constituíam por projeções de cenas de temática musical (operetas, burletas, zarzuelas, revistas…) que eram sonorizadas “ao vivo” por artistas que se posicionavam detrás das telas de projeção e, em sincronia com as imagens, “cantavam” os filmes. Por vezes julgado erroneamente como uma técnica artesanal, a sonorização dos cantantes se produzia através de um conjunto de aparelhos (como tubos e cones) (Silva, 1940) que tinham a dupla função de amplificar a voz dos intérpretes e de mascarar sua origem real na sala, favorecendo a aderência da voz à imagem projetada. Apesar deste aparato técnico, existem evidências que indicam que o espetáculo dos cantantes não almejava uma ilusão total sobre seus espectadores, sendo a recorrência dos mesmos celebrados intérpretes em diversos filmes um exemplo.

    Constata-se assim uma determinada ambivalência no modo de apresentação dos cantantes. Um dispositivo que simultaneamente propõe um espetáculo ilusório e, por meio de um “impulso gnóstico”, o descortina, revelando seus truques, configuração ambígua que constitui componente primário do cinema de atrações e da experiência de seus espectadores (Gunning, 1989).

    Nesta apresentação, buscará-se delinear pontos de conexão entre as teorias do cinema de atrações e dos estudos do som no cinema, tomando como objeto de análise os filmes cantantes brasileiros, apresentados no Rio de Janeiro entre 1908 e 1911. Especificamente, discutirá-se a hipótese de que as vozes nestes filmes expressam uma forma atracional específica, que se constitui através de um “erro de atração” (fenômeno descrito pela linguística, em que a concordância entre termos de uma frase não segue os parâmetros da norma padrão) (Rodrigues, 2006) que desloca a fonte sonora dos tubos da sala e dos corpos dos intérpretes para a tela plana do cinema.

Bibliografia

    ABEL, R.; ALTMAN, R. (org.). The sounds of early cinema. Bloomington: Indiana university press, 2001.
    COSTA, F. C. O primeiro cinema: Espetáculo, narração, domesticação. Rio de Janeiro: Azougue, 2005.
    COSTA, Fernando Morais da. O som no cinema brasileiro. Rio de Janeiro: 7letras, 2008.
    GAUDREAULT, A.; GUNNING, T. Le cinéma des premiers temps, un défi à l’histoire du cinéma? In: L’histoire du cinéma : nouvelles approches. Sorbonne, 1989. p. 49–63.
    GUNNING, T. The Cinema of Attraction: Early Film, Its Spectator and the Avant-Garde. Wide Angle, v. 8, p. 63–70, 1986.
    PISANO, G.; POZNER, V. (org.). Le muet a la parole : cinéma et performances à l’aube du XXe siècle. Paris: AFRHC, 2005.
    RODRIGUES, E. S. Processamento da concordância de número entre sujeito e verbo na produção de sentenças. Tese (Doutorado em Letras) – Departamento de Letras, PUC-RJ, 2006.
    SILVA, G. P. da. Serrador, o creador da Cinelândia. Rio de Janeiro: Empresa de Propaganda Ariel, 1940?.