Ficha do Proponente
Proponente
- MONTEZ JOSE OLIVEIRA NETO (UFPE)
Minicurrículo
- Mestrando em Comunicação/ Cinema pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Bacharel em Cinema e Audiovisual pela mesma instituição. Editor-chefe da Revista Nostalgia. Montador. Curador do Janela Internacional de Cinema do Recife. Participou do Berlinale Talents, programa do Festival do Rio voltado à formação de novos talentos do audiovisual.
Ficha do Trabalho
Título
- Imagens Assépticas: A Estética Neoliberal e o Remake do Brasil
Eixo Temático
- ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL
Resumo
- O presente artigo investiga a “estética neoliberal” no remake de Vale Tudo (2025) a partir da desvalorização da experiência de Walter Benjamin (2012). Analisa-se como a imagem asséptica e a transparência, a partir de Han (2017), produzem um “melodrama de manequins”, que substitui o atrito pela limpeza imagética. Objetiva-se demonstrar que essa visualidade higienizada anula a potência do gênero, transformando o “espelho da nação” em um simulacro a-histórico de aspirações neoliberais.
Resumo expandido
- “As ações da experiência estão em baixa”, escreve Walter Benjamin em O narrador (2012, p. 214). Tal afirmação ganha relevo ao concentrarmos nossa atenção na palavra “ações”. No original alemão (“die Erfahrung ist im Kurse gefallen”), a expressão im Kurse gefallen utiliza uma metáfora financeira (literalmente, “cair no preço”). Em outros termos, a frase sugere que a experiência acumulada deixou de ser um “ativo” valorizado. A metáfora numérica sugerida pelo filósofo alemão antevê uma sociedade quantitativa, semelhante à contemporânea. É nessa sociedade anti-experiência e, por consequência, anti-narrativa, que valoriza os dados, que encontramos uma legibilidade não apenas no texto — Benjamin fala de uma sociedade da “informação”, periodista — mas, principalmente, na imagem.
Na sociedade da transparência, como notou Byung Chul-Han (2017), a experiência entra em colapso, afinal as ações foram transferidas para o que nomeamos aqui como “estética neoliberal”, que entre suas características, encontra a ideia de uma imagem asséptica, entendida aqui como aquela que foi completamente limpa tanto de suas impurezas quanto de qualquer fricção possível, seja ela do campo material ou reflexivo. As imagens geradas por inteligência artificial, a montagem acelerada das redes sociais, ou a incorporação do digital no cinema para a construção de um mundo higiênico e vítreo, são campos de estudo que ganharam força nos últimos anos, mas cabe, também, uma observação desses mesmos princípios na teledramaturgia nacional.
Como produto de maior audiência, a telenovela permanece relevante em diversos campos de discussão. Uma de suas produções de repercussão nos últimos anos foi o remake de Vale Tudo (2025). Baseada no original escrito por Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères, Vale Tudo retornou à televisão com uma distância de aproximadamente 40 anos. O Brasil de 1988 e o de 2025 se encontram em uma respiração ofegante em termos democráticos, mas se distanciam em como a representação do país traz as questões que atravessam sua população. Mais que os dramas éticos — discutíveis quando se pensa na releitura de Manuela Dias — o que chama atenção no produto recente é a absorção da estética neoliberal.
Essa assepsia da imagem produz um curto-circuito no próprio gênero. Historicamente, o melodrama sustentou-se no desejo pela expressão, na simplificação do mundo, com o embate entre virtude e vício, e “[…] uma pedagogia do certo e do errado que não exige uma explicação racional do mundo” (Xavier, 2003, p. 91, grifo do autor), ou seja, gerando uma materialidade que permitisse ao espectador sentir o peso da realidade projetada. Ao ser filtrada por esse tipo de estética, o remake de Vale Tudo esmorece a experiência e “[…] toda ambivalência e todo mistério são tomados como sujos” (Chul-Han, 2019, p. 19). O engajamento melodramático é mediado por uma visualidade que privilegia a perfeição técnica em detrimento das vilosidades da representação.
É o que poderíamos chamar de um “melodrama de manequins”: as paixões continuam lá, os diálogos mantêm a estrutura, mas a imagem não oferece nada além da superfície lisa. Se a imagem é imune à sujeira, ela se torna “[…] a-histórica e anti-mnemônica, […] embalado em micro fatias digitais” (Fisher, 2020, p. 48). É importante destacar que esta pesquisa não parte de um purismo visual, uma nostalgia do ruído ou uma crítica à imagem digital, mas de uma reflexão estética de um tipo de imagem que é sintoma de um tempo histórico que recusa a negatividade. Quando, por exemplo, o remake de Vale Tudo apaga as sombras do Rio de Janeiro em favor de uma luminosidade equânime, ele explicita a estética neoliberal. A telenovela de imagens assépticas sai da representação que comumente é chamada de “espelho da nação” para se tornar uma aspiração neoliberal de um país. Mais que refazer a novela, é um remake de um país.
Bibliografia
- BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Tradução de Sérgio Paulo Rouanet. 8. ed. São Paulo: Brasiliense, 2012 (Obras Escolhidas v. 1).
HAN, B-C. Sociedade da transparência. Tradução de Enio Paulo Giachini. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
HAN, B-C. A salvação do belo. Tradução de Gabriel Salvi Philipson. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019.
XAVIER, I. O olhar e a cena: melodrama, Hollywood, Cinema Novo, Nelson Rodrigues. São Paulo: Cosac e Naify, 2003.
FISHER, M. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo?. São Paulo: Autonomia Literária, 2020.