Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    George Henrique Pinto Pereira (UFPE)

Minicurrículo

    George Henrique Pereira é mestrando na linha de pesquisa Imagens, Patrimônio, Museus e Contemporaneidade no Programa de Pós-Graduação em Antropologia (PPGA) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Licenciado em História pela Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). Integrante dos grupos de pesquisa Observatório de Museus e Patrimônios Culturais (OBSERVAMUS) e Rede Brasileira de Pesquisadores de Sítios de Memória e Consciência (REBRAPESC).

Ficha do Trabalho

Título

    Experimentando outros modos de ver e viver na ditadura: Viva o outro mundo (1972), de Kátia Mesel

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Viva o outro mundo (1972), curta em super-8 de Kátia Mesel, é analisado como prática de invenção sensível em meio à ditadura militar. Produzido no contexto do desbunde e da lisergia, o filme desloca o cotidiano urbano, tensiona formas de visibilidade e experimenta outras maneiras de ver e viver. A análise aborda ainda sua trajetória e recente digitalização, refletindo sua condição de arquivo, entre memória, esquecimento, sobrevivência e disputas.

Resumo expandido

    O presente trabalho propõe um experimento de leitura sobre uma trajetória do curta-metragem em super-8 Viva o outro mundo, realizado pela cineasta pernambucana Kátia Mesel no Recife/PE em 1972. A investigação toma o filme como um documento em devir, buscando compreender como um material não canônico tensiona as formas de visibilidade e as territorialidades urbanas sob a égide da ditadura militar brasileira. Em diálogo com os debates contemporâneos sobre arquivo e contra-arquivo, o texto aponta percursos analíticos nos quais a obra aparece como uma prática de invenção sensível, deslocando o cotidiano para produzir visibilidades marginais no auge dos “anos de chumbo”.
    Olhar hoje para estas imagens exige reconstruir uma legibilidade dos vestígios, pensando nas condições de produção de um cinema que circulou à margem das narrativas oficiais. A biografia visual deste curta ganha uma nova camada material com sua recente digitalização em 2K (2022-2023), realizada pelo projeto Digitalização Viajante, da Iniciativa de Digitalização de Filmes Brasileiros (IDFB), da Cinelimite, e Associação Brasileira de Preservação Audiovisual (ABPA), iniciativa que permitiu a sobrevivência desta película contra a ação entrópica do tempo e do esquecimento (LISSOVSKY, 2004). No suporte silencioso e granulado do super-8, as figuras mascaradas que dançam e interagem entre si e entre os transeuntes sobre a Ponte da Boa Vista instauram o que Celso Favaretto denomina como um estado de invenção (FAVARETTO, 2017) que dialoga com a proposta de Jacques Derrida (2012) sobre a ‘cegueira’ criadora: o artista deve ‘cegar-se’ do horizonte previsível para se entregar inteiramente ao acontecimento e ao traço que se inventa no momento. Assim, o que o filme dá a ver é sustentado por um suporte invisível (DERRIDA, 2012) – as zonas de silêncio da ditadura que permitem às utopias latentes ‘relampejarem’ no presente. Nelas, o corpo e o gesto se tornam uma estrutura-comportamento, transmutando a geografia urbana do Recife em um espaço de “disponibilidade criadora” que rompe o tempo cronológico da repressão (FAVARETTO, 2017).
    Inserida no contexto do desbunde, a obra de Mesel responde à atmosfera cinza do regime através do lúdico e do encanto, aproximando-se de práticas contraculturais que investem na criação de “outros mundos” diante da violência política (COELHO, 2010). Como aponta Ana Maria Mauad, imagens que capturam subjetividades em regimes de exceção são fundamentais para enfrentar as políticas de apagamento e a “memória enclausurada”, permitindo que o pesquisador possa refletir e colocar em debate experiências que habitaram zonas de interdição da história (MAUAD, 2017).
    Pensando a partir também de Maurício Lissovsky, o filme habita uma dimensão poética do arquivo (4+1), na qual o arquivo funciona como uma reserva do acontecimento constituída pelo próprio esquecimento (LISSOVSKY, 2004). Trabalhar com essas imagens implica habitar os “claros” ou “vazios” entre os documentos oficiais, buscando acessar a “memória do que poderia ter sido” (LISSOVSKY, 2004).
    Nesse sentido, Viva o outro mundo pode preservar um projeto de existência experimental e de sonho irrealizado que, ao visar o presente, convoca o pesquisador a pensar o passado através do reconhecimento de suas utopias latentes e bidimensionalidades (LISSOVSKY, 2004). Ao perambular pelo centro do Recife, as águas do Rio Capibaribe e os vôos da digitalização, o filme, e vê-lo, reativa um passado no presente, reconhecendo o arquivo como um espaço de disputa política e a imagem como um lugar onde a vida continua se reinventando (MACHADO, 2023).

Bibliografia

    COELHO, Frederico. Eu, Brasileiro, confesso minha culpa e meu pecado: cultura marginal no brasil das décadas de 1960 e 1970. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.
    DERRIDA, Jacques. Pensar em não ver – escritos sobre as artes do visível (1979-2004). Tradução de Marcelo Jacques de Moraes. Florianópolis: Editora UFSC, 2012.
    FAVARETTO, Celso. “O grande mundo da invenção”. ARS, v. 15, n. 30, p. 363-409, 2017.
    LISSOVSKY, Maurício. “Quatro + Um Dimensões do Arquivo”. In: MATTAR, E. (Org.). Acesso à informação e política de arquivos. Rio de Janeiro: Arquivo Estado do Rio de Janeiro, 2004. p. 47-63.
    MACHADO, Patrícia. “Do arquivo à montagem: uma análise da produção e usos de imagens públicas e domésticas dos anos da Ditadura Militar no Brasil”. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 36, n. 79, p. 316-335, 2023.
    MAUAD, Ana Maria. “Imagens que faltam, imagens que sobram: práticas visuais e cotidiano em regimes de exceção 1960-1980”. Estudos Ibero-Americanos, Porto Alegre, v. 43, n. 2.