Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Jonathan Humberto Pereira Carrijo (UFSCar)

Minicurrículo

    Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Imagem e Som da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), vinculado à linha de pesquisa História e Políticas do Audiovisual. Bacharel em Cinema e Audiovisual pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR) e Licenciado em Letras: Português/Inglês pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (UFTM). Autor do livro “Ao Fechar os Olhos” e membro do grupo de pesquisa CINEMÍDIA – Estudos sobre História e Teoria das Mídias Audiovisuais.

Ficha do Trabalho

Título

    Entre Monstros e Armários: A Representação Queer em Filmes Slasher da década de 1980

Eixo Temático

    ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS

Resumo

    Este artigo analisa a representação queer no subgênero slasher do cinema de horror, investigando como personagens LGBTQIA+ foram retratados em produções da década de 1980. A fundamentação teórica articula estudos do cinema de horror e da teoria queer e o método adotado é a análise fílmica de caráter qualitativo e interpretativo, a partir de um corpus composto por dois filmes: Acampamento Sinistro (1983) e A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy (1985).

Resumo expandido

    Os filmes slasher fazem parte de um subgênero do cinema de horror caracterizado pela presença de um psicopata (geralmente mascarado) que assassina diversas pessoas em um local, via de regra, isolado. Essas produções apresentam estereótipos reconhecíveis, como a protagonista virginal, o nerd, o atleta popular e o viciado em drogas. De acordo com Adam Rockoff (2002), esses filmes exploram personagens e situações que reforçam estereótipos culturais sobre sexo e moralidade. Sendo a sexualidade um aspecto central nessas obras (já que personagens com comportamentos desviantes segundo uma moral tradicional tendem a morrer), torna-se necessário compreender como a comunidade queer é representada nesse subgênero.

    O termo queer, oriundo do inglês, pode ser traduzido como “estranho” ou “desviante”. Inicialmente utilizado como ofensa, passou por ressignificações ao longo do tempo, sendo associado a identidades que não seguem normas cis-heterossexuais. Segundo Judith Butler, em Problemas de Gênero (1990), gênero não é algo que se é, mas algo que se faz, constituído por práticas sociais e culturais.

    Além de Rockoff, este trabalho se apoia em Carol J. Clover (1992) e Vera Dika (1990), que discutem características do slasher. Dika aponta que os estereótipos não visam complexidade psicológica, mas organizam moralmente a narrativa dos assassinatos.
    Com esse aparato teórico, realizo um panorama dos slashers na década de 1980 e analiso “Acampamento Sinistro” (1983) e “A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy” (1985), obras centrais em debates sobre representação queer no período.

    Em “Acampamento Sinistro”, acompanhamos Angela, que, após sobreviver a uma tragédia familiar, vai com seu primo Rick ao Acampamento Arawak. Uma série de mortes ocorre, e revela-se que Angela é a assassina. A reviravolta final indica que Angela é, na verdade, Peter, seu irmão, criado como garota por imposição da tia Martha. Tal abordagem é vista como transfóbica por autores como Larocca (2018), ao afirmar que “o fato de Angela, uma garota na puberdade, ser a assassina do filme não é o que mais causa surpresa ou horror no espectador, mas sim o fato de sua identidade de gênero não corresponder ao sexo atribuído em seu nascimento”. Contudo, em nossa análise, mostramos que, embora tal reflexão seja pertinente, devemos levar em consideração que Angela não é uma personagem trans por vontade própria, mas sim por imposição. Sendo assim, se lermos “Acampamento Sinistro” à luz do “Manifesto Contrassexual” de Paul B. Preciado (2000), torna-se evidente que Angela não é apenas construída como “monstro”, mas como vítima de um sistema sexo-político rígido.

    Já em “A Hora do Pesadelo 2: A Vingança de Freddy”, Freddy Krueger funciona como metáfora da homossexualidade reprimida. Ao tentar se apossar do corpo de Jesse, o filme apresenta elementos que sugerem o vilão como representação de uma sexualidade desviante. Considerando o contexto da epidemia de AIDS, essa abordagem mostra-se controversa e impactou negativamente a carreira do ator Mark Patton.

    Dessa forma, observamos que, de maneira geral, personagens queer são retratados em slashers da década de 1980 como monstruosos ou capazes de cometer atos criminosos, reforçando preconceitos presentes na sociedade da época, carecendo assim de uma maior discussão acadêmica a respeito dos riscos de representações negativas da comunidade queer em obras do período.

Bibliografia

    BUTLER, Judith. Gender Trouble: Feminism and the Subversion of Identity. New York: Routledge, 1990.

    CLOVER, Carol J. Men, Women, and Chain Saws: Gender in the Modern Horror Film. Princeton: Princeton University Press, 1992.

    DIKA, Vera. Games of Terror: Halloween, Friday the 13th, and the Films of the Stalker Cycle. Toronto: Associated University Presses, 1990.

    LAROCCA, Gabriela Müller. My god, she’s a boy! Puberdade, sexualidade e gênero no audiovisual de horror: uma análise do filme Sleepaway Camp (1983). Todas as Musas, v. 9, n. 2, jan./jun. 2018. Disponível em: https://www.todasasmusas.com.br/18Gabriela_Muller.pdf. Acesso em: 28 set. 2025.

    PRECIADO, Paul B. Manifiesto contrasexual. Paris: Éditions Balland, 2000.

    ROCKOFF, Adam. Going to Pieces: The Rise and Fall of the Slasher Film, 1978–1986. Jefferson: McFarland & Company, 2002.