Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    José Emanuel Santos Silva (UFF)

Minicurrículo

    José Emanuel Santos Silva é maranhense e graduado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Roteirista, interessa-se por diversos campos da produção cinematográfica, tendo experiência na realização de curtas-metragens. Atualmente é mestrando pelo Programa de Pós-Graduação em Cinema e Audiovisual da Universidade Federal Fluminense, onde estuda a interseção entre cinema, teologia e nordeste.

Ficha do Trabalho

Título

    A imagem de Deus e a transcrise em O Auto da Compadecida 2: uma leitura à luz da Teologia Pública

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O estudo analisa a imagem de Deus em O Auto da Compadecida 2, compreendendo o cinema como espaço de expressão teológico-pública e como campo de reconfiguração da proposta teísta em um contexto de transcrise. Com abordagem qualitativa ancorada na Teologia Pública, investiga a manifestação do sagrado no cinema ambientado no Nordeste, evidenciando o potencial teológico e estético do sertão, no qual a pobreza extremada e institucionalizada e a atitude do sujeito religioso evocam ações de engajamento

Resumo expandido

    “Não sei, só sei que foi assim.” A frase, repetida com frequência por Chicó, personagem de O Auto da Compadecida (2000), de Guel Arraes, e de sua sequência O Auto da Compadecida 2 (2024), de Guel Arraes e Flávia Lacerda, traduz uma confiança sem garantias, uma espécie de fé narrativa que, em certa medida, ecoa o dinamismo da fé teologal, uma decisão a partir de “vestígios”, de aventurar-se no ver sem ver, sobretudo quando se volta aos modos populares de experimentar e representar o sagrado. Ainda que não configure uma proposta hermenêutica, a fala funciona aqui como figura retórica introdutória para o problema central desse estudo: qual e como a imagem de Deus é manifestada no longa-metragem O Auto da Compadecida 2?
    A metodologia adotada nesta pesquisa é de natureza qualitativa, caracterizada por uma abordagem interpretativo-analítico-comparativa, mediante avaliação de referenciais teóricos pertinentes, focados na compreensão da conjuntura contemporânea e iluminados pela Teologia Pública, abordagem que articula, crítica e autocriticamente, as questões sociais, políticas e culturais/artísticas com o sentido religioso.
    Essa estudo objetiva avaliar se e como os elementos cinematográficos abordam a imagem de Deus em O Auto da Compadecida 2; investigar a influência da transcrise na reelaboração, em comparação com o filme predecessor, da figura divina; correlacionar as representações teológicas do filme com debates acadêmicos sobre o pós-teísmo, autonomia interpretativa e o declínio das religiões institucionais; e compreender a importância do Nordeste enquanto território simbólico na cultura brasileira.
    A primeira análise visa elucidar a reconfiguração da proposta teísta em um contexto de transcrise, sendo uma condição histórica em que múltiplos âmbitos da vida social se encontram tensionados por colapsos sucessivos. Inspirada pela obra de Ariano Suassuna, marcada pelo entrelaçamento do catolicismo popular, da cultura nordestina e da crítica social, a adaptação cinematográfica atualiza discussões sobre justiça, salvação, transcendência e a própria imagem de Deus, que sofre uma transformação significativa. Na primeira versão, em que Deus, o Satanás e os julgados eram representados por atores diferentes, o filme de 2024 opta por fundir essas figuras em um mesmo intérprete. Uma escolha que sugere uma visão menos hierárquica e mais interiorizada do sagrado, uma das “transcendências horizontais” (VATTIMO; DOTOLO, 2009) quando, no íntimo do ser humano epifaniza-se Deus.
    Embora a essência dos personagens se mantenha, o enredo se transporta para um novo contexto histórico. O julgamento permanece como um dispositivo narrativo central, mas a disposição dos personagens e a forma como a cena é conduzida sugerem uma fusão entre os planos do sagrado e do humano. Situado no imaginário popular nordestino, o filme mobiliza referências culturais e religiosas profundamente enraizadas na região para apresentar uma transformação significativa na representação do divino.
    Portanto, evidencia-se que O Auto da Compadecida 2 reimagina a proposta teísta ao dialogar com a Divina Comédia, de Dante Alighieri, deslocando a compreensão de Deus de uma luz externa, associada à justiça, para uma perspectiva pós-teísta marcada pelo amor e pela compaixão que iluminam interiormente os sujeitos.
    A escolha de analisar O Auto da Compadecida 2 à luz da teologia pública pode, à primeira vista, parecer deslocada. Afinal, o filme carrega alusão à espiritualidade já no título, o que poderia induzir que trata-se de obra doutrinária, com viés catequético ou institucionalizado da fé cristã, ou seja, a presença da teologia seria óbvia e não revolucionariamente “pública”. No entanto, pelo contrário, a religiosidade encenada na narrativa, assim como na tradição do cordel, é marcada por um caráter profundamente cultural, comunitário e afetivo, moldado muito mais pelas vivências populares do que por dogmas oficiais. Eis o cinema como instrumento teológico-público.

Bibliografia

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