Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    CAIO OLYMPIO MATOS DA ROCHA (UFBA)

Minicurrículo

    Doutorando em Comunicação e Cultura Contemporâneas (Póscom/UFBA), com bolsa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia. Mestre em Cultura e Sociedade (PósCultura/UFBA). Bacharel em Comunicação com Habilitação em Jornalismo (Facom/UFBA) e em Bacharelado Interdisciplinar em Humanidades (Ihac/UFBA). Membro do Grupo de Pesquisa A(n)arqueologia do Sensível e do Laboratório Experimental A(n)arqueologias do Sensível (Facom/UFBA).

Ficha do Trabalho

Título

    Fricções de metodologias comparativas: por um atlas transnacional entre Brasil, Portugal e PALOPs

Resumo

    Este trabalho apresenta um recorte da análise empírica da tese de doutorado sobre experiências cinematográficas transnacionais envolvendo Brasil, Portugal e PALOPs, entre 1995 e 2025, focalizando no percurso metodológico entre o cinema comparado e o atlas de imagens. Para tanto, compartilham-se os resultados de análise, apontando para uma fricção entre as diferentes abordagens, que explora os limites e as potencialidades de cada uma na defesa de um campo de força metodológico comparatista.

Resumo expandido

    Ao iniciar o desenvolvimento da pesquisa de doutorado dedicada a analisar as diferentes formas de transnacionalidade envolvendo Brasil, Portugal e países africanos de língua oficial portuguesa, entre 1995 e 2025, duas possibilidades metodológicas se mostram pertinentes para uma leitura comparada, são elas: o cinema comparado a partir da categoria de “série histórica” (Souto, 2022) e o atlas de imagens (Ribeiro, 2023; Didi-Huberman, 2013). Entretanto, no decorrer da análise, as diferentes abordagens, que se pretendiam em funções metodológicas específicas, começam a friccionar entre si, lançando luz para limites e potencialidades de cada uma, os quais serão expostos neste trabalho.
    Tendo em vista a especificidade do recorte temporal e territorial da pesquisa, a categoria analítica da série histórica se mostra pertinente para organizar o desenho dos contextos de produção e suas transformações em relação com os usos estéticos e políticos. Neste caso, abre-se a análise empírica da pesquisa com uma série histórica sobre o tema “colonização e seus pós-colonialismos” através dos filmes: O testamento do Senhor Napumoceno (1998), de Francisco Manso; Ilha dos escravos (2008), de Francisco Manso; Tabu (2012), de Marcelo Gomes; A rainha Nzinga chegou (2018), de Júnia Torres; e Memória (2022), de Welket Bungué.
    O desenvolvimento da análise mostra uma mudança latente entre os contextos de produção e as perspectivas estético-políticas mobilizadas pelos filmes a partir de 2015, quando Portugal perde o protagonismo da produção, abrindo espaço para o Brasil e países africanos. Enquanto, até 2015, Portugal era majoritário no financiamento e produção dos filmes, repercutindo em estético-políticas lusófonas (Ferreira, 2016), tendo a língua e a cultura luso como matriz cultural comum, a partir de 2015, brasileiros e africanos tomam a dianteira de co-produções e produções independentes, experimentando perspectivas críticas sobre a colonização através de afro-rizomas (Freitas, 2016), que têm o espaço cultural diaspórico e tradições culturais africanas como ponto de contato transcultural entre Brasil e países africanos.
    Ao passar da série histórica para o atlas de imagens, tendo em vista o objetivo de localizar as estético-políticas de acordo com sua proveniência territorial, percebe-se que o mapa inicial entre estados-nações é inundado por referências diaspóricas e africanas. Neste caso, a análise de imagens afro-rizomáticas se abre para relações de intertextualidades com um repertório suplementar, das imagens da diáspora, o qual ressignifica as imagens da colonização por fora de uma perspectiva lusófona. Isso acontece, por exemplo, quando a análise de Memória (2022) aponta para um diálogo com a performance, enquanto matriz estético-política da diáspora africana nos EUA (Carrascosa, 2024), e em A rainha Nzinga chegou (2018), quando elementos simbólicos estão relacionados com a cultura tradicional do Reino do Congo, que abrange os atuais territórios de Angola, Congo e República Democrática do Congo.
    Enquanto a série histórica é necessária para uma ancoragem do corpus da pesquisa em um recorte temporal e temático específico, que garante o desenvolvimento analítico coeso, o atlas de imagens convoca uma abertura perturbadora em direção a outras obras audiovisuais suplementares. Entretanto, a abertura proporcionada pelo atlas, que permite a justaposição de figuras analíticas entre territórios sem uma delimitação rígida, pode ocasionar uma perda de especificidade analítica, tendo em vista a diversidade estética e cultural colocada em relação, as quais possuem suas genealogias próprias, que precisam ser levadas em conta.
    Assim, a pesquisa aponta para o acolhimento da fricção metodológica no interior da análise, entendendo a metodologia como um campo de forças produtivo, em que diferentes abordagens ora se complementam e ora se repelem, proporcionando uma visão heterogênea, singular e inacabada do cinema e do audiovisual.

Bibliografia

    CARRASCOSA, Denise. Corpo de vento: Exu da Teoria: travessias crítico-performativas pelas artes negras. Salvador: EDUFBA, 2024.
    DIDI-HUBERMAN. Georges. Atlas, ou, O gaio saber inquieto. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2018.
    FERREIRA, Carolin Overhoff. O drama da descolonização em imagens em movimento – a propos do “nascimento” dos cinemas luso-africanos. Estudos linguísticos e literários, Salvador, n. 53, p. 177-221, 2016.
    FREITAS, Henrique. O arco e a Arkhé: ensaios sobre Literatura e Cultura. Salvador: Ogum´s Toques Negros, 2016.
    RIBEIRO, Marcelo. Em busca do mundo: literatura e cinema como dispositivos cosmotécnicos e aparelhos cosmopoéticos. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 25, n. 49, p. 22–50, 1 dez. 2023.
    SOUTO, Mariana. A metodologia da série histórica: o operário e o trabalho no cinema documental brasileiro. In: GONÇALVES, M. M.; PEREIRA, R. M. (org.). Cruzamento de rotas audiovisuais: cinema, televisão e streaming. Belo Horizonte: PPGCOM/UFMG, 2022.