Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Roberta Veiga (UFMG)

Minicurrículo

    Doutora em Comunicação pela UFMG, professora adjunta do Dep. de Comunicação e do PPGCOM da UFMG; coordena o grupo de pesquisa Poéticas Femininas, Políticas Feminista (UFMG-CNPq). Pesquisadora pelo Projeto Universal do CNPq, com a pesquisa Por teorias e métodos feministas no estudo do cinema. Autora e tradutora de artigos que abordam estudos de cinema e documentário, escritas de si e em perspectivas feministas. Pós-doutorado na CUNY (EUA), com Ivone Margulies (2025).

Ficha do Trabalho

Título

    Inventariar e diagramar filmes de filha: cuidado e complexidade (materna) para o cinema

Seminário

    Estudos Comparados de Cinema

Resumo

    Procedente de um inventário do que nomeamos “filmes de filha” — documentários em que as cineastas filmam suas mães — propomos um diagrama que se traça nas linhas de tensão entre essas mulheres. Da fricção inter-obras, sonda-se como a maternidade, ao fraturar arquétipos patriarcais, revela a complexidade relacional de cada dispositivo. O cuidado emerge como eixo ético, político e estético que, entre cinema e feminismo, mobiliza vínculos, memórias, o envelhecimento, e a responsabilidade afetiva.

Resumo expandido

    A partir de um inventário do que denominei filmes de filha – documentários e ensaios autobiográficos nos quais filhas filmam suas mães (e/ou imagem delas) – objeto da pesquisa que desenvolvo há cerca de três anos, proponho construir um dos possíveis diagramas que possibilitam colocar essas obras em relação. Se o inventário se constitui na premissa cinematográfica da relação filhas-diretoras/montadoras e mães personagens, os diagramas partem de um problema de pesquisa: como esses filmes exibem a tensão entre proximidade e distância na relação mãe e filha? Tal dialética se desdobra em outros pares antitéticos (ausência-presença; identificação-alteridade; devoção-animosidade) flagrados na defrontação mãe e filha que os filmes empenham.
    O ato de diagramar pressupõe ver as obras juntas, lado a lado, traçar entre elas linhas de força e fuga guiadas por essa questão, e geradas na fricção entre os filmes de filha que podem formar dípticos, trípticos, polípticos, de modo a singularizar cada diagrama. O objetivo do trabalho metodológico é prescrutar por meio dos atritos entre os filmes, modos como a mãe escapa a um imaginário materno calcificado, funcionalizado, compondo uma figura multidimensional dessa personagem na relação com a filha. Assim, o próprio diagrama se constrói politicamente de forma a convocar e tensionar códigos restritos através dos quais o capitalismo-patriarcal sumarizou um ideal de maternidade.
    Na comunicação, buscarei explicitar melhor esse método de comparação entre os objetos da pesquisa, através do exercício de um dos possíveis desenhos diagramáticos dos filmes de filha que venho inventariando. A princípio manejaremos três ou quatro obras de nacionalidades diversas em que a filha se depara como uma espécie de “pré-luto” uma vez que a mãe em cena vive um estágio da velhice de extrema fragilidade, muitas vezes adoecida, assombrada pela morte física, ou por uma morte identitária, como aquelas que estão a perder a memória. Trata-se de uma etapa na qual muitas vezes as necessidades da mãe colocam a filha no lugar de cuidadora, o que pode ou não revelar o filme como uma forma de cuidado.
    O cuidado surge como uma linha de força transversal aos filmes que recoloca a dialética proximidade e distância em termos específicos, sem perder a complexidade materna (o emaranhado de outras linhas) que o diagrama reivindica. No processo de (des)alinhavar forças e formas que juntos sublinham, será levado em conta a singularidade de cada obra, portanto da relação mãe e filha que cada dispositivo matiza por meio de três procedimentos formais/discursivos: a mise-en-scène materna, o antecampo filial, e a montagem na retomada de arquivos domésticos.
    Pensar no filme como uma forma de cuidado seja pela posição da filha no antecampo, seja pela forma como ela manipula os arquivos maternos como montadora, ou se imiscui no jogo cênico como personagem, nos permite adensar um liame caro para nós entre o feminismo e o cinema. O que a teoria feminista do cuidado pode oferecer como aprendizado ético, político, mas também estético ao cinema?
    Para Carol Gilligan, a tradicional moralidade patriarcal valoriza a autonomia e o desapego, sacrificando o amor e o comum em prol do status e da ordem. Essa filosofia moral que definiu o “humano ideal” como independente e racional, que ensejou a “ética da justiça” (baseada em regras abstratas e direitos individuais), historicamente silenciou as experiências femininas. Presas ao trabalho doméstico e de cuidado — que é, por definição, dependente e relacional, as mulheres foram excluídas das teorias de justiça. Contudo para feministas como Joan Tronto, a democracia só existe quando os cidadãos se sentem responsáveis pelo bem-estar uns dos outros, substituindo o domínio pela colaboração. O cuidado é uma ética contrária à superioridade da justiça, e substitui o “não interferir” pelo “não abandonar”. Promover a ética do cuidado seria, então, um ato de resistência que humaniza as relações políticas e sociais.

Bibliografia

    ELIACHEFF, C. et HEINICH, N. Mères-filles, une relation à trois. Albin Michel, 2002.
    FISCHER, Lucy. Cinematernity film, motherhood, genre. Princeton University Press,1996.
    GILLIGAN, Carol. Moral Injury and the Ethic of Care: Reframing the Conversation about Differences. Journal of Social Philosophy, 45(1), 2014.
    HIRSCH, Marianne. The Mother/Daughter Plot: Narrative, Psychoanalysis, Feminism. Bloomington: Indiana University Press, 1989.
    LAWLER, Steph. Mothering the Self: Mothers, Daughters, Subjects. London: Routledge, 2000
    TEYSSOT, G. O Diagrama como Máquina Abstrata. Traduzido do inglês por Paulo Ortega. V!RUS, São Carlos, n. 7, jun. 2012.
    TRONTO, Joan C. Moral Boundaries: A Political Argument for an Ethic of Care. New York: Routledge, 1993.
    Krtolica, I. Diagramme et agencement chez Gilles Deleuze. L’élaboration du concept de diagramme au contact de Foucault. In: Filozofija i društvo nº 20 (3). 2009, pp. 97-124.