Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lícia Cardozo Dalla (UFF)

Minicurrículo

    Mestranda em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense, na linha de pesquisa Histórias e Políticas. Graduada em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense. Pesquisa sobre arte brasileira e política, camp e queer. É também produtora, diretora de arte e artista visual.

Ficha do Trabalho

Título

    Afasta de mim esse cáqui: camp como resistência política no cinema brasileiro durante a ditadura

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Durante a ditadura civil-militar brasileira, o projeto de sociedade do regime era reforçado publicamente por perseguições e censura, e sustentava-se sobre os valores patriarcais capitalistas, reforçando “a moral e os bons costumes”. Nesse contexto, a arte alinhada a códigos do camp – enquanto paródia queer – possui uma potência política a ser ressaltada. Obras como A Rainha Diaba (1974), Guerra Conjugal (1975) e Onda Nova (1983), através de exagero e ambiguidade, transgridem as normas sociais.

Resumo expandido

    O período da ditadura civil-militar na história do Brasil foi marcado por contradições, especialmente durante os chamados anos de chumbo (1968-1974). De um lado havia o sentimento otimista provocado pelo milagre econômico, do outro, o endurecimento da repressão, das perseguições e prisões políticas. Os setores da cultura que se opunham ao regime, ligados à esquerda, viviam a desilusão do desmoronamento do projeto utópico de sociedade e da frente revolucionária pela repressão violenta e censura das manifestações artísticas militantes. Nesse momento, por exemplo, o Cinema Novo vivia seu momento mais pessimista e autocrítico. No entanto, paralelamente, construíam-se propostas alternativas de produção artística, que não aderiam aos modelos mais didáticos de oposição política. Essa geração se dedicou ao experimentalismo e, especialmente, à “avacalhação”, consolidando-se, por exemplo, no Cinema Marginal e no teatro de vanguarda.

    Durante a ditadura, o projeto de sociedade arquitetado pelo regime para a nação brasileira era reforçado publicamente através de censura e perseguições políticas. Além disso, a mensagem também era disseminada através da produção de instituições apoiadoras do regime, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais e a Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição, Família e Propriedade e publicações como Em Defesa da Moral e dos Bons Costumes (1970), de Alfredo Buzaid, Ministro da Justiça do governo Médici. Esse projeto sustentava-se sobre os valores patriarcais capitalistas, reforçando “a moral e os bons costumes”. Nesse contexto, uma arte alinhada a códigos do camp possui uma potência política a ser ressaltada.

    Os anos 1960 marcaram a estreia do camp na academia, com o ensaio Notas sobre Camp (1964) de Susan Sontag – coincidentemente publicado no mesmo ano em que foi deflagrado o golpe civil-militar no Brasil. A definição de Sontag, na forma de apontamentos, em momentos, desconexos e/ou contraditórios, foi reavaliada posteriormente por diversos pesquisadores, destacando-se Moe Meyer (1994), que estabeleceu a ideia de camp como paródia queer, segundo a definição de paródia pós-moderna de Linda Hutcheon (1987). O camp parodia os sistemas da sociedade patriarcal capitalista, exacerbando o caráter performático e artificial (ou construído) das estruturas sociais. Para isso, o camp apropria-se de signos da cultura hegemônica e os veste com extravagância, teatralidade, ironia, etc. Nesse procedimento de apropriação, se constrói uma carga de ambiguidade, por vezes necessitando o espectador de uma série de “pistas” contextuais para apreender o teor paródico, afastando, assim, essas obras de projetos mais didáticos de construção de discursos políticos.

    Este trabalho visa uma análise estética e narrativa de filmes que aderem aos códigos do camp, buscando avaliar que discursos políticos podem ser apreendidos, considerando o contexto histórico em que foram produzidos, lançando, assim, um outro olhar para obras que não constam no cânone do cinema político do período. Serão objetos dessa análise A Rainha Diaba (1974, dir. Antonio Carlos da Fontoura), Guerra Conjugal (1975, dir. Joaquim Pedro de Andrade) e Onda Nova (1983, dir. Ícaro Martins e José Antonio Garcia). É importante apontar que esses filmes não compõem uma tendência homogênea, tendo processos de produção e recepções muito diferentes: enquanto A Rainha Diaba foi financiada com recursos do Estado, lançado sem cortes da censura e bem recebido por público e crítica, Onda Nova foi produzido de maneira independente e completamente censurado após sua primeira exibição. No entanto, essas obras apresentam características em comum, dialogando com os códigos do camp através da ênfase à performance e ao artifício, uma visualidade exacerbada e personagens imorais, em tensão constante com valores e sistemas da sociedade da época. Podendo, assim, ilustrar uma forma de resistência política que circulou, nesse período, na arte que se opunha ao regime.

Bibliografia

    FICO, Carlos. Reinventando o otimismo: ditadura, propaganda e imaginário social no Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 1997.

    GUERRA Conjugal. Direção: Joaquim Pedro de Andrade. Curitiba: Filmes do Serro, 1974. 89 min.

    HUTCHEON, Linda. The politics of postmodernism: parody and history. Cultural Critique, n. 5, p. 179-207. Modernity and Modernism, Postmodernity and Postmodernism. 1987.

    MEYER, Moe. Reclaiming the discourse of camp. In: MEYER, Moe (Org.). The politics and poetics of camp. London: Routledge, 1994.

    ONDA Nova. Direção: Ícaro Martins e José Antonio Garcia. São Paulo: Olympus Filmes, 1983. 98 min.

    RAINHA Diaba. Direção: Antonio Carlos da Fontoura. Rio de Janeiro: Lanterna Mágica SRL/Canto Claro Produções Artísticas/Ventania Filmes/Filmes De Lírio/R.F. Farias, 1974. 100 min.

    SONTAG, Susan. Notas sobre Camp. In: ______. Contra a interpretação. Porto Alegre: L&PM, 1987, 311–322.

    XAVIER, Ismail. Alegorias do subdesenvolvimento: cinema novo, tropicalismo e cinema marginal. São Paulo