Ficha do Proponente
Proponente
- Rebeca De Santana Matos (Unespar)
Minicurrículo
- Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV), da Universidade Estadual do Paraná (Unespar). Pesquisadora do grupo de pesquisa Arte, Cultura e Subjetividades – GPACS (Unespar/CNPq). Graduada em Cinema e Audiovisual pela Unespar, onde realizou a pesquisa intitulada “Tessisturas de meu ser: a realização de um curta-metragem a partir de uma reflexão sobre um corpo-afeto”. Dedica-se atualmente aos seguintes temas: angústia, maternidade e cinema.
Ficha do Trabalho
Título
- MATERNIDADE E MASTURBAÇÃO EM CENA: MODOS DE SUBJETIVAÇÃO NOS ATOS CRIATIVOS DE MULHERES CINEASTAS
Eixo Temático
- ET 1 – CINEMA, CORPO E SEUS ATRAVESSAMENTOS ESTÉTICOS E POLÍTICOS
Resumo
- Este estudo analisa como o cinema gestado nos atos de criação de mulheres cineastas tensiona imagens da maternidade. Pelo viés das constelações fílmicas, investiga-se como cenas de masturbação em A Filha Perdida (2021) e Nó (2025) provocam transgressões ao imaginário do que pode os corpos de mulheres atravessados pela experiência do “estar mãe”, refletindo como tais cenas instauram modos de subjetivação que dão a ver os domínios da sexualidade das protagonistas pelas experimentações de si.
Resumo expandido
- Historicamente, o corpo materno foi regulado entre o fetiche ambivalente da abnegação e da loucura. Busca-se nesta pesquisa compreender como a sexualidade pode irromper no cinema como gesto de agência, abrindo um campo de visibilidade que não destitua da mulher cuja experiência é marcada pela maternidade formas de experimentação e domínio de si.
Nesse contexto, o presente trabalho propõe uma análise das representações da maternidade e da sexualidade feminina na cinematografia contemporânea, com foco nos filmes A Filha Perdida (Maggie Gyllenhaal, 2021) e Nó (Laís Melo, 2025). A investigação parte da premissa de que o cinema é um campo de forças capaz tanto de cristalizar hegemonias quanto de instaurar modos de subjetivação que resistam às formas de sujeição (Fischer, 2018). Para operar esta análise, adota-se a metodologia das constelações fílmicas, conforme proposta por Mariana Souto (2019). Em sua obra Cinema e Experiência Precária, Souto sugere que o gesto analítico não deve buscar uma cronologia linear ou uma comparação de igualdade estrita, mas sim um arranjo de filmes que, ao serem colocados em proximidade, iluminam-se mutuamente. A constelação permite que fragmentos, imagens, cenas, elementos visuais e temas que circulam entre as obras revelem tensões políticas e estéticas que um filme isolado poderia não exaurir.
Ao constelar A Filha Perdida e Nó, não se propõe apenas semelhanças temáticas, mas como o trato criativo de mulheres cineastas permite a emergência da força da sexualidade de mulheres não descoladas de suas maternidades em agência de subjetivação, provocando a espectatorialidade a outras formas de olhar. A constelação, aqui, serve também para mapear como o cinema feito por mulheres desloca o olhar da espectatorialidade de uma posição passiva para um encontro com a alteridade e com o desejo irreprimível daquelas que, embora mães, não deixaram de ser sujeitos de sua própria vida composta por diferentes camadas de complexidade. O ponto de ancoragem desta constelação é o motivo visual (Balló; Bergala, 2016) da masturbação em cena como uma recorrência das obras cuja força da individuação se faz presente. Para além de uma mera provocação erótica, a masturbação é tomada aqui como concretude que fratura a narrativa da abnegação e da exaustão para restituir à mulher o domínio sobre seu próprio corpo e desejo que reivindica a existência de um “eu” para além das exigências do cuidado do outro.
Laura Mulvey (1983) e Teresa de Lauretis (2019) apontam como o prazer visual no cinema foi historicamente construído sobre o corpo da mulher como objeto. No entanto, a cinematografia como tecnologia social pode engendrar outras formas de representação da maternidade. A masturbação torna-se o gesto concreto que sinaliza que o corpo da mãe não pertence inteiramente ao filho, ao lar ou à norma social, mas, antes, é um ato de agência de subjetivação dentro da narrativa. Nesse sentido, a masturbação atua como uma imagem-resistência. Enquanto o imaginário hegemônico exige a abdicação de si em prol da maternidade, o prazer solitário reafirma a presença do “eu”. Como defende Mariana Souto, o cinema tem a potência de dar visibilidade a corpos que buscam frestas de existência em estruturas precárias ou opressoras. A sexualidade, engendrada no cerne da experiência da maternidade, desafia o essencialismo de gênero e o binarismo mãe versus mulher sexualizada. Além disso, a investigação demonstra que a presença desse motivo visual instaura diligências subjetivadoras que promovem autonomia dos corpos. Conclui-se que a análise por constelação permite ver o gesto da masturbação como uma enunciação política que fratura o “estar mãe”, convocando a espectatorialidade a um olhar que reconheça um “entre maternidade”. A resistência à abnegação não é um abandono da maternidade, mas a recusa de que esta seja o fim da história do desejo de uma mulher.
Bibliografia
- BALLÓ, Jordi; BERGALA, Alain (Eds). Motivos Visuales del Cine. Barcelona: Galaxia Gutemberg, 2016.
FISCHER, Rosa Maria Bueno. A subjetividade como resistência às formas de sujeição: o cinema na educação. Entrevista concedida a Beatriz Vasconcelos e Juslaine Abreu Nogueira. Revista Científica/FAP, Curitiba, v. 18, n. 1, jan./jun. 2018. Disponível em: https://periodicos.unespar.edu.br/revistacientifica/article/view/2305.
LAURETIS, Teresa de. A tecnologia de gênero. In: HOLLANDA, Heloisa Buarque de. (org.). Pensamento feminista: conceitos fundamentais. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019. p. 121-155.
MULVEY, Laura. Prazer Visual e Cinema Narrativo. In: XAVIER, Ismail (Org.). A Experiência do Cinema. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1983, p. 437-453.
PEREIRA, Ana Catarina. A mulher-cineasta: da arte pela arte a uma estética da diferenciação. Covilhã: LabCom.IFP, 2016.
SOUTO, Mariana. Cinema e experiência precária: o cinema contemporâneo no Brasil e na Argentina. Belo Horizonte: Editora UFM