Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Rodrigo Fernandez dos Reis (UFRGS)

Minicurrículo

    Mestrando em Comunicação e Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É integrante do Grupo de Pesquisa Semiótica e Culturas da Comunicação (GPESC), com participação na Linha de Pesquisa Agenciamentos da Imagem (GPAGI) e no núcleo de Corporalidades.

Ficha do Trabalho

Título

    Variação como crítica do arquivo a partir de Lého Galibert-Laîné

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O trabalho investiga, a partir da obra de Lého Galibert-Laîné, a variação como um modo particular de lidar criticamente com o arquivo. Considerando a violência constitutiva do arquivamento e os limites da crítica moderna, destacamos o conceito como potencialmente capaz de deslocar a estabilidade do arquivo ao colocá-lo em um novo agenciamento que, por sua vez, pode dar a ver outros problemas teóricos.

Resumo expandido

    Lastreado na Teoria de Cineastas, o trabalho busca investigar a possível ocorrência de uma teoria da mídia expressa em dispersão na obra de Lého Galibert-Laîné, cineasta e pesquisador contemporâneo. Seus filmes transitam entre a tradição do ensaio fílmico e a forma contemporânea do vídeo-ensaio; na maior parte dos casos, surgem como resposta a outros materiais e são considerados como “documentários de desktop” (Anger e Lee, 2023). São feitos articulando o reemprego de materiais com origens diversas — de outros filmes a imagens amadoras da internet — com comentários expressos em voice-over ou escritos em tela. Trata-se de um cineasta que é, mesmo em sentido estrito, já um teórico: são de sua autoria uma série de artigos publicados em periódicos e dois de seus filmes foram feitos no contexto de uma tese de doutorado. Nosso objetivo não é traduzir suas proposições, mas lançar outra perspectiva possível sobre sua obra. Seus interesses de pesquisa declarados são a experiência de espectatorialidade e a negociação da alteridade na forma fílmica; buscaremos, aqui, identificar elementos que nos permitam lê-lo como um teórico da mídia preocupado com problemas relacionados aos modos de trabalho com o arquivo — que, a partir de um contato com os materiais que produziu, supomos poder sintetizar ao redor do conceito de variação.

    Consideramos que qualquer arquivamento não se dá sem que estabeleça uma partilha violenta na escrita da história e do conhecimento que divide o pertinente do impertinente. O fora do arquivo é a sua questão por excelência e, segundo Serge Margel (2017, p. 117), “a análise e crítica nos permitirão repensar suas fronteiras, a linha de partilha, sempre fictícia e fantasmal [mas] que se recompõe sem cessar”. Há de se interrogar, desmontar e restituir o dispositivo dos arquivos, deslocando-os de seu ordenamento estável e reconhecendo seu caráter cuja estrutura é a priori espectral (Derrida, 2001, p. 110), repleto de rastros dos apagamentos que sua inscrição instituiu — trataria-se, como coloca Margel (2017, p. 122—123), de uma investigação policial, aberta a uma comissão de “detetives, de criptólogos, de literatos e etnógrafos” dedicada a desvendar uma cena de assassinato e ocultamento de cadáver. E essa é, afinal, a operação crítica por excelência — como nota Flusser (2010, p. 113) ao destacar a etimologia comum entre crítica e crime, “quem lê criticamente um texto considera quem escreve um criminoso e comete crimes contra ele. O todo é banhado numa atmosfera criminalística. O leitor torna-se um detetive ou um assassino, e pode ser que […] o próprio detetive seja o assassino”.

    Problematizando esse tipo de procedimento fortemente vinculado à modernidade (cf. Foucault, 2025), autores como Bruno Latour (2020) e Rita Felski (2015) buscarão redimensionar os esforços da atividade crítica e propor formas distintas de produzir metalinguagem a respeito dos objetos — e, podemos acrescentar, dos arquivos — com os quais nos engajamos. Esse parece ser o caso de Galibert-Laîné. Apropriado da teoria musical, o conceito de variação surge, para o cineasta, nas conclusões da sua tese de doutorado como modo de descrever alguns de seus procedimentos; para ele, diz respeito sobretudo ao reemprego de determinada estratégia formal sem que deixe de se tornar reconhecível um mesmo “tema”, “significado” ou “substância” (Galibert-Laîné, 2021, p. 589). Para nós, no entanto, parece mais interessante compreendê-la de modo mais amplo, capaz de se realizar em diferentes níveis — varia-se, como o próprio coloca, operações formais, mas também filmes, conceitos, textos, pressupostos teóricos, imagens e práticas midiáticas; consideramos o conceito, aqui, sobretudo como um modo de endereçamento ao arquivo que, ao deslocar seus limites e dispor em cena seus processos de produção, é capaz tanto de desestabilizá-lo quanto de o enredar em um novo agenciamento e, assim, dar a ver outros problemas de natureza teórica.

Bibliografia

    ANGER, Jiří; LEE, Kevin B. Suture goes meta: desktop documentary and its narrativization of screen-mediated experience. Quarterly Review of Film and Video, v. 40, n. 5, p. 595–622, 2023

    DERRIDA, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.

    FELSKI, Rita. The limits of critique. Chicago, USA: University of Chicago Press, 2015.

    FLUSSER, Vilém. A escrita – há futuro para a escrita? São Paulo: Annablume, 2010.

    FOUCAULT, Michel. O que é a crítica? São Paulo: Ubu, 2025.

    GALIBERT-LAÎNÉ, Lého. Documenter internet: essais sur le réemploi d’internet dans le cinéma contemporain de non-fiction. 2021. 677 f. Doutorado – PSL Université Paris, Paris, 2021.

    LATOUR, Bruno. Por que a crítica perdeu a força? De questões de fato a questões de interesse. O que nos faz pensar, v. 29, n. 46, p. 173–204, 2020.

    MARGEL, Serge. Arqueologias do fantasma (técnica, cinema, etnografia, arquivo). Belo Horizonte: Relicário, 2017.