Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Milena Andrade da Rocha (UFRB)

Minicurrículo

    Cineasta e Mestranda no Programa de Pós Graduação em Artes, Criação e Produção do Centro de Cultura, Linguagens e Tecnologias Aplicadas da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), Santo Amaro da Purificação, Bahia, Brasil. mandapramilena@gmail.com

Ficha do Trabalho

Título

    Fabulações do real e epistemologias do registro em narrativas quilombolas

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Analisam-se filmes realizados em territórios quilombolas piauienses. Práticas que articulam documentário, fabulação e a vida à margem do arquivo tradicional. As obras costuram em tela: saberes incorporados, memória, oralidade e performance, propondo a invenção crítica e produção de contra-narrativas. A apropriação e o desejo por fazer cinema é um ato de reivindicar para os participantes da história a possibilidade de contar-lá desde outro ponto de vista.

Resumo expandido

    Analisam-se filmes realizados em territórios quilombolas piauienses. Práticas que articulam documentário, fabulação e a vida à margem do arquivo tradicional. As obras costuram em tela: saberes incorporados, memória, oralidade e performance, propondo a invenção crítica e produção de outras narrativas. A apropriação e o desejo por fazer cinema é um ato de reivindicar para os participantes da história a possibilidade de contar-lá desde outro ponto de vista.
    As relações entre memória e quilombo são atravessadas pela linguagem cinematográfica, o presente trabalho analisa os filmes O pagode de Amarante (1984), O Jucá da Volta (2014), Confluências (2024) rastreando como as obras contribuem para o cinema do Piauí, consideradas importantes práticas audiovisuais realizadas em parceria com territórios quilombolas. No Saco do Curtume, Volta do Campo Grande e em Amarante os filmes evidenciam modos singulares de articulação entre real e fabulação criada nas sutilezas que atravessam os corpos que enquanto atores que interpretam suas vivências, revivem memórias de outros tempos. O tempo extrapola o presente e baila se transfigurando e espiralando como defendido por Martins (2021). As obras operam em zonas híbridas entre documentário clássico e inventivo, instaurando outras epistemologias do registro. O Jucá da Volta (2014), é protagonizado por Mestre Ernestino, reencena a vida presente como um griô compartilhando a prática do Jucá e reencena memórias de um jovem negro, possivelmente contadas de outras formas nos arquivos históricos. Em Confluências (2024) Antônio Bispo dos Santos atua interpretando a si mesmo, questionando e salvaguardando os saberes do território. Os filmes são obras do cinema independente brasileiro, realizado com baixo orçamento e uma co-criação com quem está sendo representado em tela. O acesso aos modos de vida no quilombo são apresentados pela oralidade e gestos do corpo como dispositivos narrativos, tensionando os limites entre registro e fabulação. A busca pela borda, não há um compromisso com a transparência do real, se constitui a memória que a história deseja recontar com espaço para tratar com metáforas visuais o espiritual apresentado em meio ao cotidiano. Constroem imagens que elaboram o vivido por meio de encenações sutis, fabulações comunitárias e performances nas ligações com o sagrado, os saberes incorporados no dia a dia. Nesse sentido, o cinema se configura como espaço de invenção crítica, onde o documental é inventivo e com ele é possível recriar a partir de experiências coletivas que podem contribuir para contar histórias representadas ou silenciadas na história oficial.
    Em O Pagode de Amarante (1984), o registro documental de uma festa popular encontra respiros entre o observar e o intervir. A disposição dos corpos noite adentro, o espaço em que coletivas intercambiam a mobilização comunitária para fazer a festa e a mobilização da equipe para fazer o filme. A trajetória de Dácia Ibiapina, desde o coletivo Mel de Abelha entre 1978 e 1985 até suas produções contemporâneas com escolhas estéticas que mobilizam o território como elemento constituído por meio de quem nele vive e guarda seus saberes. A análise fílmica em dialogo com Vanoye (2008) nos permite compreender como o cinema realizado em co-criação com territórios quilombolas contemporâneo tensiona o que há nos arquivos tradicionais sobre questões como escravidão e acesso a terra. Aproximando-se de um registro feito contando com diversos recursos da linguagem cinematográfica, seja por meio de encenações do cotidiano, do acostumar se com a presença da câmera ou mesmo da co-criação com anfitriões do território mediando assim memória, corpo e território na construção da obra. As imagens e sonoridades produzidas guardam banalidades cotidianas e inventam mundos possíveis, fabulam origens e produzem contra-narrativas aos arquivos institucionais.

Bibliografia

    A bibliografia amplia a compreensão de quilombo, buscando referências além dos arquivos coloniais, a partir de autores como Beatriz Nascimento e Antônio Bispo dos Santos. No filme Ôrí, dirigido por Raquel Gerber, imagens documentais e trajetória pessoal se entrelaçam. O quilombo é entendido pelos autores como articulação entre território, corpo, memória e coletividade. A memória está atravessada pela ausência. Lacunas e questionamentos revelam disputas na construção de arquivos históricos, como aponta Diana Taylor.
    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Belo Horizonte: Mazza Edições, 2021.
    VANOYE, F., & Goliot-Lété, A. Ensaio sobre a análise fílmica. Papirus Editora (2008).
    TAYLOR, Diana. O arquivo e o repertório: performance e memória cultural nas
    Américas. Tradução: André Lepecki. São Paulo: Edições Sesc SP, 2021.
    SANTOS, Antônio Bispo dos. A terra dá, a terra quer. São Paulo: Ubu Editora/PISEAGRAMA, 2023.