Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Isadora Rivera Guerra (USP)

Minicurrículo

    Isadora Rivera Guerra é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Meios e Processos Audiovisuais na Universidade de São Paulo. Graduada em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal Fluminense, concluiu um semestre de mobilidade no curso de Diseño de Imagen y Sonido na Universidad de Buenos Aires, na Argentina. Em 2025, defendeu seu TCC, de título ”O documentário como miríade de pontos de vista: morte, memória, e o lugar do outro em Cabra marcado para morrer, Babilônia 2000 e Jogo de cena'”.

Ficha do Trabalho

Título

    Espectro e embalsamento: atravessamentos entre imagem e morte na teoria do cinema e da fotografia

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    Busca-se investigar a relação da imagem audiovisual com a “morte” enquanto operador conceitual e condição fundamental para a construção da cena cinematográfica. Será analisada a transformação em espectro do instante engendrada pelo cinema e pela fotografia e o processo da objetificação e consequente morte dos indivíduos filmados a partir dos filmes Poison (1933, Man Ray), Pas pu saisir la mort (2007, Sophie Calle), Santiago (2009, João Moreira Salles) e The Grizzly Man (2005, Werner Herzog).

Resumo expandido

    A partir do surgimento do cinematógrafo e desde a sua matriz fotográfica, a película, enquanto suporte de registros ficcionais e não ficcionais, se prestou ao debate sobre noções de objetividade e neutralidade perante o mundo retratado: se há imagem, é porque aquele evento registrado de fato ocorreu. Partiremos do questionamento desse entendimento generalizado, sobretudo em produções não pertencentes à ordem da ficção, do estatuto da imagem fílmica como testemunho fidedigno do mundo “real” para investigar como o laço entre o registro audiovisual e a morte se expressa de duas formas principais, que se conectam e derivam uma da outra. Por um lado, há a percepção da morte como inerente à captura de imagens fotográficas e cinematográficas, que congelam o instante captado como espectro. Por outro, há uma preocupação ética e política, que busca investigar como aquele filmado sofre um processo de mortificação, ao ser transformado em “outro” perante a autoridade da objetiva. Posto isso, visamos investigar o elo íntimo com a morte existente na imagem como condição fundamental para a construção da cena no cinema.
    É recorrente a comparação com a morte na tradição de pensamento sobre o cinema, a imagem fotográfica e as imagens em movimento de modo geral. As reflexões de Roland Barthes e de André Bazin ocupam um lugar privilegiado nessa discussão, junto com Walter Benjamin, Susan Sontag, Laura Mulvey e Philippe Dubois. Na investigação aqui proposta, analisaremos aspectos das obras audiovisuais Poison (1933, Man Ray), Pas pu saisir la mort (2007, Sophie Calle), Santiago (2009, João Moreira Salles) e The Grizzly Man (2005, Werner Herzog). Ao selecionar para análise tanto documentários quanto obras do contexto da videoarte, seguiremos a posição de teóricos como Ismail Xavier, segundo a qual “a teoria do cinema não está isolada e deve dialogar com os mais diversos contextos da reflexão estética” (Xavier, 2009, p. 289), para estabelecer um diálogo entre o campo do documentário, do vídeo e da teoria da fotografia.
    A questão central que se coloca é: nos filmes analisados, a imagem mata (na medida em que congela o tempo em uma morte constante e materializada) ou faz viver (já que nos permite rever o tempo ido conquanto nossos olhares puderem olhá-lo)? Se o ato de filmar é entendido como algo que embalsama o instante por reiterar a mortificação dos corpos captados e ao mesmo tempo preservar algo do que eles foram, de forma similar ao que afirmava Bazin sobre a fotografia (apud Aumont, 2004, p. 36), o corpus fílmico parece evidenciar essa ligação indissociável da imagem com a morte, ao retratar de forma anedótica uma morte encenada (Poison); a morte da mãe da autora (Pas pu saisir la mort); e a morte anunciada dos seus protagonistas (Santiago e The Grizzly Man). Buscamos investigar, assim, até que ponto as obras escolhidas trazem uma “visão ‘antecipada’, uma espécie de premonição do fim” (Monteiro, 2010, p. 72, tradução nossa) e condensam a dualidade entre uma potência de morte e uma potência de vida na imagem cinematográfica.
    Estaria em jogo um constante díptico entre fazer viver e fazer morrer baseado na capacidade do cinema de trazer “de volta à vida, em forma de fóssil perfeito, qualquer pessoa que já tenha registrado” (Mulvey, 2006, p. 18, tradução nossa)? Investigaremos se tal relação com a mortalidade dos sujeitos e das coisas pode, na imagem audiovisual não ficcional, traduzir-se assim em uma ambiguidade entre perpetuar e mortificar. Dessa forma, evidencia-se também a relação do cinema com a catástrofe e a finitude, para além de proposições temáticas ou estéticas, a partir do entendimento de que há algo na construção da imagem e da cena que constantemente aponta para a iminência catastrófica da morte do instante e dos sujeitos representados. Afinal, como afirma Lúcia Ramos Monteiro, “a morte fixa, tal qual a fotografia; a imagem em movimento – vídeo, película – imortaliza, ou porta, uma certa vida eterna” (ibid., p. 78).

Bibliografia

    AUMONT, Jacques. O olho interminável. São Paulo: Cosac & Naify, 2004.

    MONTEIRO, Lúcia Ramos. “L’image filmique de l’imminence. Sophie Calle, Bill Viola, Abbas Kiarostami”. In: AUTELITANO, Alice (org.). The Cinematic Experience. Film, contemporary art, museum. Pasian di Prato, Campanotto, 2010, pp. 71-79.

    MULVEY, Laura. Death 24 x a second: stillness and the moving image. Londres: Reaktion Books, 2006.

    XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz e Terra, 2005.