Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Maria Eduarda Lino Sande Santosouza (UFPE)

Minicurrículo

    Maria Eduarda Lino é graduanda em Cinema e Audiovisual na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Bolsista do CNPq, desenvolve o segundo ciclo de pesquisa sobre espaços e paisagens no cinema, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Angela Prysthon, no âmbito da sua pesquisa “Antes do fim do mundo, aquém e além da paisagem: corpos, espaços e natureza no cinema e nas artes visuais”. É também presidente do Diretório Acadêmico do curso.

Ficha do Trabalho

Título

    Quando a casa afoga: Das Unheimliche no cinema de Lucrecia Martel e Sol Berruezo Pichon-Riviere

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    Esta pesquisa investiga como a paisagem doméstica produz o efeito do inquietante em O Pântano (2001), de Lucrecia Martel, e Mamãe, Mamãe, Mamãe (2020), de Sol Berruezo Pichon-Riviere. A partir do conceito freudiano de Das Unheimliche, traduzido como o inquietante, o infamiliar ou o estranho, analisa como a casa deixa de ser um espaço de abrigo e familiaridade para se tornar território de angústia, desconforto e estranhamento.

Resumo expandido

    A pesquisa propõe investigar como a paisagem doméstica pode provocar a sensação de inquietante no cinema latino-americano contemporâneo, a partir da análise dos filmes O Pântano (2001), de Lucrecia Martel, e Mamãe, Mamãe, Mamãe (2020), de Sol Berruezo Pichon-Riviere. O estudo parte do conceito de Das Unheimliche, traduzido como o inquietante, o infamiliar ou o estranho, desenvolvido por Sigmund Freud em 1919 em diálogo com formulações anteriores, especialmente de Ernst Jentsch. Para Freud, o inquietante não corresponde ao desconhecido, mas àquilo que, sendo íntimo e familiar, se manifesta de modo ambíguo, produzindo angústia, desconforto e estranhamento. A hipótese central do trabalho é de que, nos filmes analisados, a casa deixa de funcionar como lugar de abrigo, segurança e estabilidade e passa a funcionar no domínio do inquietante.
    Em O Pântano, o inquietante se manifesta principalmente pela materialidade degradada da casa. A sujeira persistente, a umidade, a piscina suja, os objetos e superfícies gastas compõem uma atmosfera de estagnação e decomposição. A casa participa ativamente de sua construção sensorial, funcionando como uma espécie de organismo em deterioração. Sua materialidade contaminada parece afetar diretamente os corpos que a habitam, marcados pelo ócio, pelo álcool, pela apatia e por relações familiares igualmente deterioradas. Nesse sentido, a casa funciona como uma espécie de pântano anunciado pelo título: um espaço onde tudo parece pesado, úmido e em processo de apodrecimento.
    Para Emanuele Coccia, a casa pode ser pensada como uma continuidade entre subjetividade e mundo: “‘casa’ é apenas o nome para esse conjunto de técnicas de adequação entre o si mesmo e o planeta, uma dobra cósmica que faz coincidir, por um momento, psique e matéria, alma e mundo” (COCCIA, 2021). Em O Pântano essa continuidade aparece de forma adoecida. A casa parece absorver, condensar e devolver aos personagens seus próprios estados psíquicos e afetivos, como manifestação material de uma vida familiar igualmente saturada e em decomposição.
    Em Mamãe, Mamãe, Mamãe, o inquietante se organiza de maneira mais concentrada e simbólica. Realizado dezenove anos após O Pântano, o filme estrutura o espaço doméstico a partir de uma ausência: a morte de uma criança na piscina da casa. Esse acontecimento passa a reverberar silenciosamente ao longo de toda a narrativa. A piscina, tradicionalmente associada ao lazer, à infância e à convivência, adquire uma dimensão ambígua e passa a funcionar como um núcleo simbólico de luto. Ela deixa de ser apenas um elemento do espaço doméstico para tornar-se um ponto onde memória, trauma e perda se entrelaçam.
    Nesse caso, a leitura de Anthony Vidler sobre as unhomely houses permite compreender a casa como um espaço que guarda lembranças, mas não necessariamente lembranças acolhedoras. Em Mamãe, Mamãe, Mamãe, a piscina funciona quase como um museu da perda: sempre voltando à centralidade da história, sendo mostrada em diversos planos ao longo da narrativa e preservando vestígios do acontecimento traumático. A boia e os óculos usados pela menina no momento da morte permanecem na piscina, tornam-se marcas materiais de uma ausência que continua presente.
    Assim, o artigo busca compreender como o cinema latino-americano contemporâneo, especialmente a partir do olhar de duas cineastas mulheres, elabora a casa como território de ambiguidade estética e psíquica causando o efeito de inquietante. Esse efeito, não surge nesses filmes pelo horror explícito, mas pela fratura da própria domesticidade. A casa, lugar do conhecido, revela sua face instável, tornando-se um campo onde o íntimo e o estranho se encontram, se contaminam e se confundem.

Bibliografia

    COCCIA, Emanuele. Filosofia da casa: o espaço doméstico e a felicidade. Tradução de Alice Alberti Faria. 1ª. ed. Rio de Janeiro: Dantes Editora, 2024

    FREUD, Sigmund. História de uma neurose infantil: “O homem dos lobos”: além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução e notas de Paulo César de Souza. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

    VIDLER, Anthony. The architectural uncanny: essays in the modern unhomely. Cambridge: The MIT Press, 1992.

    LA CIÉNAGA. Direção: Lucrecia Martel. Argentina: Lita Stantic Producciones, 2001.

    MAMÁ, MAMÁ, MAMÁ. Direção: Sol Berruezo Pichon-Rivière. Argentina: Rita Cine; Bomba Cine, 2020.