Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Guilherme Souza Firmino (UnB)

Minicurrículo

    Graduando em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília (UnB). Desenvolve pesquisas e projetos em cinema e audiovisual, com interesse em estética, narrativa, território e cultura popular. Participou do Intercom com trabalho na área e atua na criação de projetos audiovisuais autorais.

Coautores

    Letícia Faro Ribeiro Alves (UnB)
    Gustavo de Sousa Camilo (UnB)

Ficha do Trabalho

Título

    Imagem, afeto e crise: o sensível como forma de resistência no cinema latino-americano contemporâneo

Eixo Temático

    ET 3 – FABULAÇÕES, REALISMOS E EXPERIMENTAÇÕES ESTÉTICAS E NARRATIVAS NO CINEMA MUNDIAL

Resumo

    O artigo analisa a crise no capitalismo contemporâneo como condição permanente que atravessa a experiência sensível. A partir de Bacurau (2019) e La Ciénaga (2001), investiga-se como o cinema periférico mobiliza a imagem-afeto para transformar o colapso em experiência estética. Com base na teoria crítica, propõe-se a forma cinematográfica como espaço de reorganização do sensível e possibilidade de resistência.

Resumo expandido

    Este trabalho parte da compreensão de que a crise, no capitalismo contemporâneo, não se configura mais como um evento extraordinário, mas como uma condição permanente que afeta as sociedades tanto em sua estrutura social quanto na experiência sensível. Conforme Fredric Jameson e Mark Fisher, essa continuidade da crise se manifesta na percepção fragmentada do tempo, na estagnação das expectativas e na normalização de um futuro sem alternativas. Em países periféricos, tal condição se materializa política e economicamente, sendo marcada por formas de precarização e violência, como discute Achille Mbembe em seu trabalho sobre a necropolítica.
    Nesse contexto, o cinema surge não apenas como representação, mas também como um espaço de reorganização das experiências sensíveis. A partir da concepção de imagem-afeto, de Deleuze, busca-se compreender como determinadas formas imagéticas do cinema periférico mobilizam afetos que tensionam a lógica do colapso social experienciado no tempo presente. Assim, por meio de Jacques Rancière e Theodor Adorno, interessa pensar a estética como espaço de reorganização e resistência.
    A metodologia adotada consiste na análise comparativa de natureza qualitativa, tendo como objetos centrais Bacurau (2019) e La Ciénaga (2001). O método articula o exame estrutural das obras à luz da Teoria Crítica e da filosofia da imagem. Busca-se decodificar como as materialidades estéticas dessas obras operam como manifestações físicas e políticas do colapso no capitalismo.
    Bacurau (2019) concebe uma comunidade sertaneja inscrita em uma realidade distópica, apagada do mapa e ameaçada por uma força estrangeira que subjuga seus habitantes. A violência estrutura a narrativa por meio de signos como o abandono estatal, a paisagem sitiada, o luto pela matriarca e o museu enquanto arquivo da memória coletiva, convertendo a crise em um ecossistema. Diante da ameaça de extermínio, o corpo social se reorganiza politicamente, de modo que o afeto mobiliza memória, pertencimento e insurgência. Assim, a vulnerabilidade marginalizada converte-se em resistência política, culminando no último ato da obra, no qual a população, em coesão comunitária, se une para vencer os forasteiros por meio de confronto armado meticulosamente ordenado.
    Já em La Ciénaga (2001), a insurreição coletiva e ativa dá lugar à percepção da crise pelo viés da estagnação. O filme explora uma família de classe alta que, após um acidente em uma viagem de férias, vivencia o tensionamento crescente de suas relações. A narrativa evidencia o esgotamento financeiro e social da família. A abordagem angustiante retrata uma burguesia em decadência, na qual o senso de urgência não existe mais. A casa de campo a ponto de desmoronar, a floresta invadindo o terreno e os personagens sofrendo com o calor são elementos transmitidos ao espectador pela linguagem cinematográfica.
    Mais do que representar o declínio, o filme opera na chave do realismo capitalista, instaurando a crise como uma paralisia crônica. Para isso, abdica da trilha musical e adota uma abordagem em que apenas os sons da mata, do telefone e da televisão são ouvidos. O desconforto sensorial transmitido pela imagem-afeto atinge o espectador de maneira tátil, sugerindo que, nesse contexto, o “fim de mundo” não é uma catástrofe, mas um colapso lento de uma classe social reclusa em suas próprias contradições.
    Ambas as obras partem da percepção do colapso social, ancorando-se em diferentes contextos socioculturais e linguagens imagéticas próprias, que induzem a sensibilização de diferentes afetos. Dessa forma, a análise evidencia que o cinema contemporâneo, ao discutir a crise no campo estético, não apenas a representa, mas a torna experiência coletiva. Ao mobilizar afetos e condicionar percepções, essas formas sensíveis instauram rupturas na realidade, nas quais a resistência surge como reimaginação das possibilidades de sentir e existir no mundo.

Bibliografia

    ADORNO, Theodor W. Teoria estética. Tradução de Artur Morão. Lisboa: Edições 70, 2008. DELEUZE, Gilles. Cinema 1: a imagem-movimento. Tradução de Stella Senra. São Paulo: Brasiliense, 1985. FISHER, Mark. Realismo capitalista: é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo? Tradução de Rodrigo Gonsalves. São Paulo: Autonomia Literária, 2020. JAMESON, Fredric. Pós-modernismo: a lógica cultural do capitalismo tardio. Tradução de Maria Elisa Cevasco. São Paulo: Ática, 1997. MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018. RANCIÈRE, Jacques. A partilha do sensível: estética e política. Tradução de Mônica Costa Netto. São Paulo: Editora 34, 2005. BACURAU. Direção: Kleber Mendonça Filho; Juliano Dornelles. Produção: Emilie Lesclaux. Brasil; França: CinemaScópio; SBS Productions, 2019. 1 filme (130 min.). LA CIÉNAGA. Direção: Lucrecia Martel. Produção: Lita Stantic. Argentina: Lita Stantic Producciones, 2001. 1 filme (103 min.).