Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    BRUNA MARTINS NOBREGA ARAUJO DIAS (UFPB)

Minicurrículo

    Graduada em administracao (UEPB), Mestre em Letras (UFPB), Doutoranda em Letras (UFPB), Pós Graduanda em Escrita Criativa (UNIESP). Fotógrafa, artista visual, poeta, roteirista e arte-educadora.

Ficha do Trabalho

Título

    O QUILOMBO COMO TECNOLOGIA ANCESTRAL DE RESISTÊNCIA EM SINNERS, DE RYAN COOGLER

Resumo

    Este artigo analisa o filme Sinners (2025), de Ryan Coogler, sob o conceito de quilombo de Beatriz Nascimento. Partiremos da compreensão do quilombo como tecnologia e território de resistência, produção de vida e arte, e outras formas de sociabilização negra, para refletir sobre como a obra audiovisual de Coogler constrói representações que tensionam o imaginário colonial.

    Palavras-chave: Cinema; Quilombo; Representação.

Resumo expandido

    O cinema, enquanto linguagem e dispositivo de poder, é uma ferramenta que não apenas reflete a realidade social, mas também exerce grande influência na construção de imaginários. Assim, é válido compreender que a sua dimensão estética perpassa um movimento que define quais corpos e narrativas podem ser vistas como belas e legítimas, bem como aquelas que serão marginalizadas, silenciadas ou reduzidas a representações reducionistas.
    Nesse contexto, por muito tempo, o cinema se constituiu como um território na qual narrativas e corpos negros foram reiteradamente apresentados por meio de imagens estereotipadas, violentas e desumanizantes, tornando-se urgente pensar estratégias para reconstrução desse imaginário, de modo a tensionar os modos de representação que historicamente reduziram a experiência negra a possibilidades limitadas de existência.
    Torna-se, assim, fundamental afirmar o sujeito negro como protagonista de sua própria narrativa, deslocando-o da posição de objeto do olhar de outrem para constituir-se como sujeito e agente de enunciação, contribuindo para a criação de um imaginário afirmativo e para o fortalecimento de identidades e pertencimentos (hooks, 2019).
    Esse deslocamento dialoga com o conceito de “máscara do silenciamento”, de Grada Kilomba, que remete a um artefato de metal que era colocado na boca das pessoas negras escravizadas, impondo-as “um senso de mudez e de medo” (Kilomba, 2020, p. 33). Assim, produções atravessadas por perspectivas negras podem ser compreendidas como gestos de retirada dessa máscara, ao possibilitar não apenas a fala, mas também a escuta e a autorrepresentação.
    Em obras fílmicas onde o processo todo é atravessado por perspectivas negras, não apenas no nível dos personagens e narrativas, mas também nos modos de criação, pode-se pensar na retirada dessa máscara. Este movimento se refere a um gesto que vai além do direito à fala, mas também à escuta e a possibilidade de narrar-se a partir da própria experiência, se inscrevendo no mundo e produzindo imagens que venham a romper com o silenciamento imposto.
    É nesse horizonte de deslocamento e reconfiguração do olhar – e da fala – que se insere o filme Sinners, de Ryan Coogler, que tensiona o olhar colonial ao apresentar personagens negros complexos, marcados por afetos, coletividade e luta.
    Ambientado em 1932, o filme acompanha os irmãos Smoke e Stack, que retornam ao sul dos EUA e abrem um clube de blues como espaço seguro, onde pessoas negras possam tocar, dançar, beber e se divertir com seus pares, resistindo às marcas do racismo e da segregação racial presente na época. Contudo, terão que enfrentar forças que tentam impedir e subtrair o direito à vida e a liberdade dos personagens.
    Esse espaço pode ser pensado à luz do conceito de quilombo, conforme Beatriz Nascimento (2018), como forma de organização coletiva baseada na resistência, coletividade e produção de vida. Mesmo diante da negação de sua humanidade, a população negra construiu espaços comunitários que afirmam sua existência.
    Segundo Nascimento (2018, p. 126) “no momento em que o negro se unifica, se agrega, ele está sempre formando um quilombo, está eternamente formando um quilombo, o nome em africano é união”. Assim, o clube criado pelos personagens pode ser entendido como um aquilombamento: um lugar de encontro, onde a cultura, os afetos e a convivência operam como práticas de liberdade e resistência, reafirmando a potência da experiência negra em sua dimensão ética, política e afetiva.
    Desta forma, ao articular cinema, representação e subjetividade negra com o conceito de quilombo, este texto busca evidenciar como o filme Sinners pode ser compreendido não apenas como uma obra narrativa, mas acima de tudo como um espaço de elaboração estética e política no qual se apresentam outras possibilidades de existências para pessoas negras.

Bibliografia

    FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

    GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano. São Paulo: UFMG, 2020.

    HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra / bell hooks; tradução de Cátia Bocaiuva Maringolo. São Paulo: Elefante, 2019.

    KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Editora Cobogó, 2020.

    MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.

    NASCIMENTO, Beatriz. Beatriz Nascimento, quilombola e intelectual: possibilidades nos dias de destruição. In: União dos Coletivos Pan-Africanistas (Org.). Diáspora africana. São Paulo: Editora Filhos da África, 2018