Ficha do Proponente
Proponente
- BRUNA MARTINS NOBREGA ARAUJO DIAS (UFPB)
Minicurrículo
- Graduada em administracao (UEPB), Mestre em Letras (UFPB), Doutoranda em Letras (UFPB), Pós Graduanda em Escrita Criativa (UNIESP). Fotógrafa, artista visual, poeta, roteirista e arte-educadora.
Ficha do Trabalho
Título
- O QUILOMBO COMO TECNOLOGIA ANCESTRAL DE RESISTÊNCIA EM SINNERS, DE RYAN COOGLER
Resumo
- Este artigo analisa o filme Sinners (2025), de Ryan Coogler, sob o conceito de quilombo de Beatriz Nascimento. Partiremos da compreensão do quilombo como tecnologia e território de resistência, produção de vida e arte, e outras formas de sociabilização negra, para refletir sobre como a obra audiovisual de Coogler constrói representações que tensionam o imaginário colonial.
Palavras-chave: Cinema; Quilombo; Representação.
Resumo expandido
- O cinema, enquanto linguagem e dispositivo de poder, é uma ferramenta que não apenas reflete a realidade social, mas também exerce grande influência na construção de imaginários. Assim, é válido compreender que a sua dimensão estética perpassa um movimento que define quais corpos e narrativas podem ser vistas como belas e legítimas, bem como aquelas que serão marginalizadas, silenciadas ou reduzidas a representações reducionistas.
Nesse contexto, por muito tempo, o cinema se constituiu como um território na qual narrativas e corpos negros foram reiteradamente apresentados por meio de imagens estereotipadas, violentas e desumanizantes, tornando-se urgente pensar estratégias para reconstrução desse imaginário, de modo a tensionar os modos de representação que historicamente reduziram a experiência negra a possibilidades limitadas de existência.
Torna-se, assim, fundamental afirmar o sujeito negro como protagonista de sua própria narrativa, deslocando-o da posição de objeto do olhar de outrem para constituir-se como sujeito e agente de enunciação, contribuindo para a criação de um imaginário afirmativo e para o fortalecimento de identidades e pertencimentos (hooks, 2019).
Esse deslocamento dialoga com o conceito de “máscara do silenciamento”, de Grada Kilomba, que remete a um artefato de metal que era colocado na boca das pessoas negras escravizadas, impondo-as “um senso de mudez e de medo” (Kilomba, 2020, p. 33). Assim, produções atravessadas por perspectivas negras podem ser compreendidas como gestos de retirada dessa máscara, ao possibilitar não apenas a fala, mas também a escuta e a autorrepresentação.
Em obras fílmicas onde o processo todo é atravessado por perspectivas negras, não apenas no nível dos personagens e narrativas, mas também nos modos de criação, pode-se pensar na retirada dessa máscara. Este movimento se refere a um gesto que vai além do direito à fala, mas também à escuta e a possibilidade de narrar-se a partir da própria experiência, se inscrevendo no mundo e produzindo imagens que venham a romper com o silenciamento imposto.
É nesse horizonte de deslocamento e reconfiguração do olhar – e da fala – que se insere o filme Sinners, de Ryan Coogler, que tensiona o olhar colonial ao apresentar personagens negros complexos, marcados por afetos, coletividade e luta.
Ambientado em 1932, o filme acompanha os irmãos Smoke e Stack, que retornam ao sul dos EUA e abrem um clube de blues como espaço seguro, onde pessoas negras possam tocar, dançar, beber e se divertir com seus pares, resistindo às marcas do racismo e da segregação racial presente na época. Contudo, terão que enfrentar forças que tentam impedir e subtrair o direito à vida e a liberdade dos personagens.
Esse espaço pode ser pensado à luz do conceito de quilombo, conforme Beatriz Nascimento (2018), como forma de organização coletiva baseada na resistência, coletividade e produção de vida. Mesmo diante da negação de sua humanidade, a população negra construiu espaços comunitários que afirmam sua existência.
Segundo Nascimento (2018, p. 126) “no momento em que o negro se unifica, se agrega, ele está sempre formando um quilombo, está eternamente formando um quilombo, o nome em africano é união”. Assim, o clube criado pelos personagens pode ser entendido como um aquilombamento: um lugar de encontro, onde a cultura, os afetos e a convivência operam como práticas de liberdade e resistência, reafirmando a potência da experiência negra em sua dimensão ética, política e afetiva.
Desta forma, ao articular cinema, representação e subjetividade negra com o conceito de quilombo, este texto busca evidenciar como o filme Sinners pode ser compreendido não apenas como uma obra narrativa, mas acima de tudo como um espaço de elaboração estética e política no qual se apresentam outras possibilidades de existências para pessoas negras.
Bibliografia
- FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afrolatinoamericano. São Paulo: UFMG, 2020.
HOOKS, bell. Erguer a voz: pensar como feminista, pensar como negra / bell hooks; tradução de Cátia Bocaiuva Maringolo. São Paulo: Elefante, 2019.
KILOMBA, Grada. Memórias da plantação: episódios de racismo cotidiano. Editora Cobogó, 2020.
MARTINS, Leda Maria. Performances do tempo espiralar: poéticas do corpo-tela. Rio de Janeiro: Cobogó, 2021.
NASCIMENTO, Beatriz. Beatriz Nascimento, quilombola e intelectual: possibilidades nos dias de destruição. In: União dos Coletivos Pan-Africanistas (Org.). Diáspora africana. São Paulo: Editora Filhos da África, 2018