Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Carolina Teixeira Ribeiro (UFF – PPCULT)

Minicurrículo

    Jornalista e produtora, mestranda em Cultura e Territorialidades pela Universidade Federal FluminenseCarol Ribeiro é atualmente Coordenadora de Seleção e Contratação de Investimentos da RIOFILME. Já passou por cargos estratégicos na Agência Nacional do Cinema (Ancine) e na TV Brasil. Foi pesquisadora do setor audiovisual no IPEA, parecerista de projetos da Ancine e consultora de canais públicos de TV.

Ficha do Trabalho

Título

    Efeitos do pensamento industrial nas políticas nacionais de descentralização do fomento audiovisual

Eixo Temático

    ET 4 – HISTÓRIA E POLÍTICA NO CINEMA E AUDIOVISUAL DAS AMÉRICAS LATINAS E DOS BRASIS

Resumo

    O artigo analisa como o “pensamento industrial cinematográfico” moldou as políticas de fomento ao audiovisual no Brasil, mesmo em iniciativas de descentralização. A partir dos Arranjos Regionais e da Lei Paulo Gustavo, demonstra que, embora haja ampliação territorial dos recursos, persiste a priorização de lógicas produtivas e de mercado, evidenciando tensões entre políticas culturais e modelo industrial no setor.

Resumo expandido

    O artigo investiga os efeitos do chamado “pensamento industrial cinematográfico” na formulação e implementação das políticas públicas de fomento ao audiovisual no Brasil, especialmente no que se refere às iniciativas de descentralização territorial dos recursos. Partindo de uma reconstrução histórica das políticas culturais e audiovisuais desde o século XX, o trabalho demonstra como o setor desenvolveu uma trajetória própria, marcada pela forte vinculação entre Estado e mercado e pela consolidação de uma lógica industrial que diferencia o audiovisual de outras áreas da cultura.

    A análise se concentra, de um lado, nos Arranjos Regionais implementados no âmbito do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), e, de outro, nas transformações recentes associadas ao Sistema Nacional de Cultura (SNC) e à Lei Paulo Gustavo. No caso dos Arranjos Regionais, o estudo evidencia que, embora tenham sido concebidos como instrumento de descentralização do fomento, sua operacionalização mantém características centrais do modelo industrial, como a predominância de investimentos retornáveis, a centralidade da produção e a priorização de formatos com maior potencial de mercado. A análise dos dados obtidos junto à ANCINE reforça essa interpretação ao mostrar a concentração de recursos em determinadas etapas da cadeia produtiva e em produtos mais alinhados à lógica comercial do setor.

    Ao mesmo tempo, o artigo discute o surgimento de novas formas de governança e execução das políticas culturais a partir dos anos 2000, com destaque para a criação do SNC e a ampliação da participação social na formulação das políticas públicas. Nesse contexto, a Lei Paulo Gustavo é apresentada como um ponto de inflexão, ao promover uma descentralização mais ampla e direta dos recursos, transferindo sua execução para estados e municípios e inserindo o audiovisual em um arranjo institucional mais próximo das políticas culturais tradicionais.

    Apesar dessas mudanças, o trabalho argumenta que não há uma ruptura completa com o paradigma industrial. Pelo contrário, observa-se a coexistência de diferentes lógicas — cultural e econômica — que se articulam e, por vezes, entram em tensão na definição das políticas para o setor. A descentralização, portanto, ocorre de maneira híbrida, ampliando o acesso territorial aos recursos, mas sem alterar profundamente os critérios que orientam sua distribuição.

    Conclui-se que o audiovisual brasileiro permanece estruturado por uma racionalidade industrial que influencia tanto os mecanismos de fomento quanto as estratégias de descentralização, revelando limites e possibilidades para a democratização das políticas públicas no campo cultural.

Bibliografia

    AUTRAN, Arthur. O pensamento industrial cinematográfico brasileiro. São Paulo: Hucitec, 2013.
    BAHIA, Lia. Discursos, políticas e ações: processos de industrialização do campo cinematográfico brasileiro. Organização da coleção Lia Calabre. São Paulo: Itaú Cultural: Iluminuras, 2012.
    BARBALHO, Alexandre; RODRIGUES, Luiz Augusto F. Situando a política cultural no Brasil: da era petista ao governo Temer. In: RODRIGUES, L. A. F.; BARBALHO, A. (org.). Política e emergência culturais: análises sobre a Lei Aldir Blanc. Maricá, RJ: Instituto Grão ; Niterói, RJ: LABAC-UFF: 2022.
    CALABRE, Lia. Políticas culturais no Brasil: dos anos 1930 ao século XXI. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2009.
    RAMOS, José Mário Ortiz. Cinema, estado e lutas culturais: anos 50, 60, 70. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1983.