Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Matheus Rocha da Silva (Unespar)

Minicurrículo

    Mestrando do Programa de Pós-Graduação Acadêmico em Cinema e Artes do Vídeo (PPG-CINEAV) da Universidade Estadual do Paraná, vinculado à linha de pesquisa Teorias e Discursos no Cinema e nas Artes do Vídeo. Bolsista da Fundação Araucária de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico. Desenvolve pesquisas nas áreas de narratologia cinematográfica, narrativas seriadas e ficção televisiva, estudos comparatistas e convergências midiáticas.

Ficha do Trabalho

Título

    Perspectivas comparatistas na obra cinematográfica de Stefan Zweig

Eixo Temático

    ET 2 – INTERMIDIALIDADES, TECNOLOGIAS E MATERIALIDADES FÍLMICAS E EPISTÊMICAS DO AUDIOVISUAL

Resumo

    Neste estudo, o objetivo é investigar elementos comuns entre filmes adaptados da obra de Stefan Zweig, como A Coleção Invisível (2009;2012), Schachnovelle (1960;2021) e Carta de Uma Desconhecida (1948; 1962; 2001; 2004). O aporte teórico articula teorias da adaptação e narratologia cinematográfica, enquanto a metodologia desenvolve análise fílmica em uma abordagem comparatista. Como resultado, observa-se a externalização da interioridade e reconfigurações temáticas conforme contextos históricos.

Resumo expandido

    Neste trabalho, o interesse principal é investigar como diferentes adaptações cinematográficas de obras de Stefan Zweig constroem, por meio de especifidades da linguagem audiovisual, a interioridade psicológica dos personagens principais e a figura do “vencido”. Em sua autobiografia, intitulada O Mundo de Ontem (2014), Zweig argumenta sobre seu interesse contínuo em desenvolver narrativas protagonizadas por figuras que, de alguma forma, foram derrotadas por situações cotidianas da vida. Com grande influência da psicanálise freudiana, o escritor austríaco faz uso recorrente de narrativas emolduradas, contando com diferentes pontos de vista guiados por instâncias narradoras distintas.
    Em A Coleção Invisível, novela publicada em 1925, há o encontro inusitado entre um mercador de arte e um colecionador cego durante o período entreguerras europeu. Na novela, que traz subtítulo “Um episódio da Inflação Alemã”, a narrativa se debruça sobre tópicos como a decadência moral, artística e cultural europeia no período citado, além da sobrevivência da arte por meio da memória. Enquanto isso, em Schachnovelle ou Xadrez, uma novela (1942), há pela primeira (e última) vez em sua obra citações e críticas explícitas ao nazifascismo por meio de alegorias com o jogo de xadrez. Episódios de tortura e superação, junto de tensões antagônicas são narrados por diferentes instâncias narradoras. Já em Carta de Uma Desconhecida (1922), Zweig contrói uma narrativa emoldurada guiada pela leitura de uma carta, na qual são expostas passagens da vida de uma admiradora secreta e sua relação conturbada com um artista decadente.
    Desta forma, o estudo desenvolve, a partir de uma abordagem comparatista, a análise fílmica das adaptações cinematográficas desses textos, incluindo A Coleção Invisível (2009), com direção de Rita Azevedo Gomes, e A Coleção Invisível (2012), dirigido por Bernard Attal; Schachnovelle (1960), dirigido por Gerd Oswald, e Schachnovelle (2021), com direção de Philipp Stölzl; além de quatro adaptações de Carta de Uma Desconhecida, lançadas, respectivamente em 1948 (com direção de Max Ophüls), 1962 (direção de Salah Abu Seif); 2001 (direção de Jacques Deray) e 2004 (direção de Xu Jinglei). A intenção é realizar comparações restruturais entre as obras adaptadas a partir da mesma novela, além de comparações entre todos os filmes citados. Nesta senda, parte-se da hipótese de que o interesse recorrente de cineastas do mundo inteiro, marcados por diferentes contextos culturais, por Stefan Zweig se relaciona à possibilidade de traduzir, em linguagem audiovisual, conflitos subjetivos intensos, ainda que essa tradução implique transformações significativas, uma vez que sua escrita vem marcada por personagens em crise, deslocamento e derrota, junto ainda do modo de desenvolver suas narrativas, quase sempre emolduradas, sob diferentes perspectivas.
    Conforme já citado, a metodologia combina análise fílmica, com base em Anne Goliot-Lété e Francis Vanoye (2012), por seu viés estrutural e narrativo, e abordagem comparatista, trazendo as contribuições de Mariana Souto (2020) como aporte teórico. A análise toma a focalização e as instâncias narradoras como operadores centrais, entendendo-as como dispositivos da linguagem audiovisual que estruturam os tensionamentos na construção das narrativas fílmicas das obras analisadas. Para a interpretação dos resultados, também há o aporte teórico de Alberto Dines (2012), Linda Hutcheon (2011), Jason Mittell (2017), Julie Sanders (2017), além de David Bordwell e Kristin Thompson (2013).
    Neste interim, a comparação entre todas essas versões pode, de alguma forma, evidenciar que essas escolhas formais variam conforme o contexto histórico e cultural, produzindo leituras distintas dos mesmos textos. Ainda assim, a recorrência da figura do “vencido” e da crise subjetiva podem sugerir a permanência de um núcleo temático que atravessa as adaptações, ao mesmo tempo em que se transforma cinematograficamente.

Bibliografia

    BORDWELL, David; THOMPSON, Kristin. A Arte do Cinema. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2013.
    DINES, Alberto. Morte no Paraíso: a tragédia de Stefan Zweig. 4. ed. Rio de Janeiro: Rocco, 2012.
    MITTELL, Jason. Narrative Theory and Adaptation. Nova York: Bloomsbury Academic, 2017.
    SANDERS, Julie. Adaptation and appropriation. 2. ed. London, New York: Routledge, 2017.
    SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia, n. 45, p. 153-165, 2020.
    STAM, Robert. Teoria e Prática da Adaptação: da fidelidade à intertextualidade. Ilha do Deserto, n. 51, p. 19-53, jul/dez, 2006.
    VANOYE, Francis; GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio sobre a análise fílmica. 7. ed. Campinas: Papirus Editora, 2012.
    ZWEIG, Stefan. 24 Horas na Vida de Uma Mulher e outras Novelas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.
    __________. Autobiografia: O Mundo de Ontem. Memórias de um Europeu. Rio de Janeiro: Zahar, 2014.
    __________. Novelas insólitas. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.