Ficha do Proponente
Proponente
- James Zortéa Gomes (UNISINOS)
Minicurrículo
- Doutor em Poéticas Visuais pelo Programa de Pós Graduação em Artes Visuais do Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS; Mestre pelo mesmo programa. Atualmente é professor dos Cursos de Realização Audiovisual (CRAV), Jogos Digitais, Design na Universidade do Vale dos Sinos – UNISINOS. Pesquisador do projeto de pesquisa e grupo de estudos “Imagem movente: das ações com a câmera à instalação narrativa”.
Ficha do Trabalho
Título
- Apagamento como potência lacunar nas poéticas da animação experimental
Resumo
- O apagamento é procedimento artístico, metodológico e político na poética da animação experimental, entendido não como correção, mas como prática produtiva que desloca a imagem da representação para processos e vestígios. Enquanto potência lacunar (CHIRON, 2005), o apagar instaura vazios projetivos que ativam o olhar e desestabilizam sentidos. Em diálogo com Foucault (2001) e Azoulay (2024), analisam-se animações de Kentridge, Engel, McLaren e Naomi Uman como contragestos ao arquivo imperial.
Resumo expandido
- Este trabalho investiga o apagamento como procedimento artístico, metodológico e político na animação experimental, compreendendo-o não como gesto corretivo ou etapa intermediária do fazer, mas como prática produtiva que desloca a imagem da lógica da representação para a inscrição de processos, vestígios e temporalidades heterogêneas. Entendido enquanto potência ambígua, o apagamento desencadeia uma percepção lacunar, ora atenta à falha daquilo que foi subtraído, ora projetiva sobre um campo reminiscente, ativando modos de ver fundados na incompletude e na instabilidade.
A partir de obras que operam por borrar, raspar, velar ou remover, o apagamento é discutido como potência lacunar capaz de tensionar tanto os regimes modernos da visualidade quanto as infraestruturas imperiais do arquivo. O trabalho articula um conjunto de práticas da animação experimental — observados nas obras de William Kentridge, Jules Engel, Norman McLaren, Naomi Uman e Julian Grey — para pensar o apagamento como campo no qual matéria, memória e gesto se entrelaçam. Como marco conceitual, toma-se Erased De Kooning Drawing (1951), de Robert Rauschenberg, como obra paradigmática do debate sobre o apagar na arte contemporânea, a partir da qual se observam desdobramentos na imagem animada.
Em William Kentridge, o apagar não elimina, mas acumula: os vestígios do carvão permanecem como memória visível, instaurando uma imagem em permanente transformação. Em Accident (1973), de Jules Engel, o apagamento atua como perturbação do ciclo animado, dissolvendo progressivamente a forma sem extinguir o movimento, em diálogo indireto com as sequências cronofotográficas de Muybridge. Em Norman McLaren, raspar, riscar e remover o suporte fílmico constituem intervenções materiais que produzem a própria visualidade da imagem em movimento. Essa dimensão crítica se intensifica em Removed (1999), de Naomi Uman, em que o apagamento literal dos corpos femininos com água sanitária revela, pela ausência, as estruturas de poder que organizam a imagem pornográfica. Já em Forgetfulness (2007), Julian Grey transforma livros esvaziados em espaços brancos, mobilizando o apagamento como figuração da memória e da perda, em resposta à poesia de Billy Collins.
Para além do âmbito formal, o apagamento é aproximado da crítica de Ariella Aïsha Azoulay à violência arquivística, entendida como infraestrutura imperial que classifica, captura e apaga mundos para tornar corpos governáveis. Ao propor o “letramento do imperdoável” e o gesto de “manter os obturadores abertos”, Azoulay (2024) convoca uma recusa do instinto arquivístico que neutraliza a imagem e perpetua apagamentos históricos. Em consonância com Eliane Chiron (2005), o apagamento é compreendido como potência lacunar que confronta a impossibilidade do pleno, instaurando vazios produtivos que exigem do observador um gesto de projeção. Como aponta Michel Foucault (2001), esse vazio convoca um “retorno” ao esquecido, não para restaurar uma plenitude, mas para redescobrir a lacuna como condição de abertura do sentido e do exercício da autoria.
Nesse contexto, argumenta-se que muitas práticas poéticas da animação experimental (XAVIER,2001) operam como contragestos ao arquivo imperial e às imagens totalizantes do projeto moderno. Ao inscrever falhas, resíduos e lacunas, essas obras confrontam o esgotamento das visualidades dominantes e apontam para a emergência de regimes visuais abertos à indeterminação. Em diálogo com o tema da SOCINE XXIX: Fins do mundo, mundos sem fim; o apagamento emerge como estratégia para pensar o fim da imagem enquanto instrumento de domínio e classificação, não como aniquilação do visível, mas como abertura à reinvenção de mundos possíveis, instáveis e abertos à memória, à reparação e ao comum.
Bibliografia
- AZOULAY, Ariella Aïsha. História potencial: desaprender o imperialismo. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
CHIRON, Eliane. Desenhar: uma prática do lacunar. Porto Arte, Porto Alegre, n. 23, p. 11–20, nov. 2005.
FOUCAULT, Michel. Ditos e escritos III: Estética – literatura e pintura, música e cinema. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
GOMES, James Zortéa. Transpasses: uma poética em desenho e animação experimental. 2023.
KRAUSS, Rosalind. “The Rock: William Kentridge’s Drawings for Projection.” October, v. 92, p. 3–35, spring 2000.
XAVIER, José-Manuel. Poética do movimento. Lisboa: Edições da MONSTRA, 2007.
WELLS, Paul; HARDSTAFF, Johnny; CLIFTON, Darryl. Re-imagining animation: the changing face of the moving image. Lausanne: AVA Publishing, 2008.