Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Pedro Peixoto Curi (ESPM Rio)

Minicurrículo

    Pedro Peixoto Curi é doutor em Comunicação pela UFF, onde desenvolveu a pesquisa “À margem da convergência: hábitos de consumo de fãs brasileiros de séries de TV estadunidenses”. Jornalista formado pela UFRJ e mestre pela UFF, investiga assuntos ligados aos estudos de fãs, audiovisual, públicos, plataformização, publicidade e convergência midiática. Atualmente é professor na ESPM Rio, onde coordena os cursos de Cinema e Audiovisual e Jornalismo.

Ficha do Trabalho

Título

    Da interrupção à integração: publicidade como infraestrutura do audiovisual contemporâneo brasileiro

Seminário

    Políticas, economias e culturas do cinema e do audiovisual no Brasil

Resumo

    Vinte anos após a publicação de Cultura da Convergência, este trabalho busca refletir sobre o papel da publicidade nesse contexto, atuando, hoje, não apenas como uma forma de financiar o audiovisual, mas, também, estruturando-o. Entre TV e plataformas, conteúdos, públicos e mercados se integram, enquanto métricas, algoritmos e estratégias comerciais orientam produção, circulação e comportamento, tensionando a criação e redefinindo o papel do espectador no ecossistema midiático contemporâneo.

Resumo expandido

    Vinte anos após a publicação de Cultura da convergência, de Henry Jenkins, este trabalho propõe uma atualização crítica do conceito a partir do audiovisual brasileiro contemporâneo, marcado pela plataformização e pela centralidade da publicidade como lógica estruturante. Se, nos anos 2000, a convergência dizia respeito à circulação de conteúdos entre mídias e à participação ativa dos públicos, o que se observa hoje é um deslocamento: a publicidade deixa de ser um elemento externo e passa a constituir a própria forma dos conteúdos, reorganizando narrativas, performances e modos de engajamento.

    Para explorar essa hipótese, o trabalho pretende analisar comparativamente o Big Brother Brasil, do Grupo Globo, e Casa do Patrão, produzido por Boninho em parceria com a Record e a The Walt Disney Company. No caso do Big Brother Brasil, observa-se a consolidação de um modelo em que a publicidade estrutura provas, cenários e dinâmicas narrativas. Mesmo com oscilações de audiência, o programa mantém alta rentabilidade e forte presença de marcas, expandindo-se por múltiplas janelas, como TV aberta, streaming e redes sociais, evidenciando a capacidade da Globo de operar de forma integrada. Nesse contexto, o público não apenas consome, mas participa ativamente da circulação de conteúdos e marcas, tensionando as fronteiras entre recepção e trabalho.

    Casa do Patrão aponta para outro estágio desse processo. Com uma proposta transmídia desde sua concepção, o programa articula televisão, streaming e redes em uma experiência integrada, mobilizando estratégias já testadas em formatos como The Voice Brasil, que fez muito sucesso na Globo e recentemente, foi levado para o SBT também pelo Boninho. Esses movimentos indicam a circulação de expertise e padrões produtivos no campo audiovisual, ao mesmo tempo em que revela disputas por legitimidade. Diferentemente de A Fazenda, da Record, que não alcança o mesmo nível de articulação digital, o programa surge como tentativa de reposicionamento, aproximando-se de lógicas nativas das plataformas e da cultura de influenciadores.

    Mais do que opor televisão e internet, os dois casos evidenciam um contínuo de transformações em que diferentes agentes disputam a articulação entre conteúdos, públicos e mercados. Nesse cenário, a publicidade emerge como infraestrutura do audiovisual, atravessando formatos e definindo condições de produção e circulação, enquanto a participação do público assume caráter ambíguo.

    Em diálogo com pesquisas anteriores, o trabalho mobiliza conceitos como mediadores de acesso e centralidade dos algoritmos para analisar como dinâmicas de visibilidade estruturam o audiovisual. A partir de uma abordagem comparativa, que combina análise dos formatos com seus desdobramentos em múltiplas plataformas, investiga-se como métricas de engajamento e lógicas algorítmicas orientam decisões produtivas, favorecendo a repetição do que funciona e tensionando a criação de novos imaginários. Nesse processo, observa-se como a internet passa a pautar a televisão, enquanto regimes de visibilidade digitais extrapolam o ambiente online e reconfiguram práticas sociais.

    Ao retomar, vinte anos depois, as proposições de Henry Jenkins em Cultura da Convergência, o artigo argumenta que a convergência, hoje, não pode mais ser pensada apenas como circulação de conteúdos entre mídias, mas como incorporação de lógicas publicitárias, algorítmicas e econômicas que atravessam todo o ecossistema audiovisual. Nesse cenário, participantes e públicos tornam-se agentes de circuitos ampliados de valorização, nos quais a performance de si, o engajamento e a circulação de conteúdos se convertem em ativos. Ao olhar para o passado para reavaliar os fundamentos da convergência, o trabalho busca oferecer ferramentas analíticas para compreender o presente e antecipar desdobramentos futuros, contribuindo para o debate sobre os rumos do audiovisual brasileiro em um contexto de crescente integração entre mídia, mercado e vida social.

Bibliografia

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