Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Lucas Honorato Cordeiro Contreiras Teles (UFRJ)

Minicurrículo

    Graduado em Cinema de Animação pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Mestre e doutorando em Comunicação e Cultura no PPGCOM da UFRJ. Curador freelancer, realizador audiovisual e pesquisador de cinema, comunicação, raça e etnicidade. Redator na revista Descompasso e faz parte do coletivo Misturagens de Mundos.

Ficha do Trabalho

Título

    A Imagem-Estilhaço e o Caleidoscópio da Negritude

Resumo

    Na tentativa de fugir de sínteses de identidades essencialistas e essencializantes, o seguinte trabalho realiza uma análise comparativa de Caixa Preta (Bernardo Oliveira; Saskia, 2022) e Love is message and the message is death (Arthur Jafa, 2016) na finalidade de observar a produção do efeito fragmentário da experiência da diáspora negra nas américas, o caleidoscópico da negritude (HALL, 2024). Para isso, a análise compara o diálogo dos arquivos de terceiros, na montagem dos filmes.

Resumo expandido

    Este trabalho realizará uma análise comparativa do média-metragem Caixa Preta (Bernardo Oliveira; Saskia, 2022) e da vídeo instalação Love is message and the message is death Arthur Jafa, 2016) a partir de dois pontos, o uso arquivista na construção do “Vaso Estilhaçado” da imagem negra diaspórica e do diálogo transdisciplinar das obras com outras linguagens artísticas, tal qual a música e a escultura. Dessa maneira, a comparação opera na convergência e divergência das obras — visto seus contextos formais, sociais e discursivos — acerca de suas éticas e estéticas que buscam fugir de representações essencialistas, aqui situadas na identidade racial negra.
    As obras colecionam e alegorizam uma série de arquivos em torno da diáspora negra nas Américas. Com isso, pretende-se observar como as obras colocam em justaposição e sobreposição os arquivos sem a finalidade de conformá-los em uma síntese dessas experiências, ora em concordância, ora em dissonância. Assim, a análise comparatista busca investigar como os filmes produzem o que Hall (2024) chamaria de “efeito caleidoscópico” da negritude, o ato de “não apenas variar os estereótipos, mas entrar na própria imagem, desconstruí-la por dentro. […] Longe de produzir uma contra-narrativa essencial” (idem, p. 220, tradução nossa). Relacionamos este efeito aos filmes por evidenciarem a ficcionalidade da identidade racial através de sua montagem e estrutura fílmica que ao coletar variados arquivos de terceiros. Para isso, a análise utiliza-se de uma lente transdisciplinar entre cinema, música e escultura que utiliza o remix e a colagem desses cacos enquanto uma “imagem-estilhaço” (Marques, sd), por sua transtextualidade fragmentária e transluciferina.
    Dessa forma, observamos os modos de fuga e o mergulho nos sistemas de representação nos arquivos como ecos da elaboração da narrativa diaspórica negra regida pela continuidade e descontinuidade na montagem. Dessa forma, deseja-se observar os modos de fuga a partir da marronagem, o “fenômeno geral da fuga de escravos — [que] pode ser ocasional ou definitiva, individual ou coletiva, discreta ou violenta; pode alimentar formas de banditismo (caubóis negros do Faroeste, cangaceiros do Brasil, piratas negros do Caribe, etc.)” (BONA, 2020, pg. 16). Por outro lado, deseja-se observar o mergulho nos sistemas de representação dos materiais de arquivos sampleados e como eles agem como cacos que constituem tal efeito, no qual os samples são tratados como fragmentos da diáspora negra e a sua colagem enquanto ecos dissonantes da elaboração da narrativa diaspórica negra.
    Nesse sentido analisaremos as obras, através de ao menos 3 elementos da montagem como ecos da elaboração da narrativa diaspórica negra regida pela continuidade e descontinuidade: o desligamento do material de origem, a descontinuidade por meio do corte e os loopings que mobilizam o ritmo. A partir disso, a análise comparatista também reserva atenção à transdisciplinaridade pela relação com a música, tanto pelo uso do sampleamento quanto pela relação dos breakbeats e o Remix. Já a interseção com a escultura se dá através da montagem e o processo performático dos dispositivos enquanto presença física. Seja no Caixa Preta dentro da sala de cinema por meio dos artifícios da projeção luminosa e o uso da tela preta como performatividade da não-imagem luz, mas também como expressividade de uma atenção sonora. E, na “presentidade” da vídeo-instalação da obra de Arthur Jafa que dialoga com a teatralidade do objeto escultórico minimalista, criticada por Michael Fried no ensaio Arte e Objetividade (2002) e aqui valorizada por sua aura performática que chama para a ação.

Bibliografia

    CAMPOS, João Paulo. Trem Fantasma: João Paulo Campos conversa com Bernardo Oliveira e Saskia sobre Caixa Preta. Multiplot, 14 fev. 2023. Disponível em: https://multiplot.com.br/trem-fantasma-joao-paulo-campos-conversa-com-bernardo-oliveira-e-saskia-sobre-caixa-preta/. Acesso em: 22 abr. 2025.
    FRIED, Michael. Arte e Objetividade. Revista do Programa de Pós-graduação em Artes Visuais EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, v. 9, n. 9, 2002.
    HALL, Stuart. Selected Writings on Visual Arts and Culture. Organização de Gilane Tawadros. Durham; London: Duke University Press, 2024.
    LABELLE, Brandon. Agência sônica: som e formas emergentes de resistência. São Paulo: Numa Editora, 2022. 151 p.
    MARQUES, Luísa. A figura da quimera seria mais adequada: montagem e monstruosidade em práticas fílmicas e escultóricas. [S.l.]: [s.n.], [s.d.]. Trabalho de qualificação não publicado.
    SOUTO, Mariana. Constelações fílmicas: um método comparatista no cinema. Galáxia, São Paulo, n. 45, 2020.
    STEYERL, Hito. Em defesa das im