Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    MILENA SZAFIR (UFCE)

Minicurrículo

    Concursada na área de Edição e Montagem Cinematográfica há mais de 13 anos, formulou as disciplinas “Montagem, Teorias e Estéticas” (2022) e “Laboratório em Expressões Contemporâneas” (2013), entre outras. Pós-doutora em Design e IA, também elabora e ministra projetos poético-pedagógicos em “Videoarte”, “Poéticas da Criação e do Pensamento em Artes”, “Tópicos Avançados em Projeto Gráfico” etc. Compartilha-se em www.projetares.art.br e www.manifesto21.tv

Ficha do Trabalho

Título

    Quem tem medo da Montagem? Composição, Design e Edição via IAG desde uma Genealogia da Videoarte

Seminário

    Edição e Montagem audiovisual: reflexões, articulações e experiências entre telas e além das telas

Resumo

    Sim, “é preciso ir além da imaginação apocalíptica”. Esta proposta investiga os gestos de montagem desde uma genealogia da videoarte, pressupondo uma busca estética e videográfica no acervo do MACUSP, a fim de trazer compreensões sobre recentes experimentações brasileiras via Inteligência Artificial Generativa (IAG). Visa compreender o papel criativo de montadoras e montadores – artistas – desde “um lócus privilegiado do experimentalismo … nos filmes sem câmera”: i.e. hoje criados por prompts.

Resumo expandido

    Como sou professora de artes audiovisuais e uma fiel praticante nos gestos de montagem com 30 anos de experiência, é natural para mim abordar essa questão comparando cada novo meio a todos os outros que utilizei em minha prática artística (entre o analógico, eletrônico e digital). E, como teórica-colaboradora-orientadora no Programa de Pós Graduação em Artes (PPGARTES/UFC), interesso-me igualmente pelos usos da inteligência artificial (IA) ora que dá continuidade a trajetórias artísticas, midiáticas e históricas anteriores ora frente ao desespero proibitivo de colegas acadêmicos urgindo por leis de autoria ou por uma suposta morte da criatividade na pesquisa universitária. Sim, “é preciso ir além [do medo e] da imaginação apocalíptica”.

    Parafraseando Lev Manovich (2026) e Hito Steyerl (2025), busco trazer à luz – também junto à SOCINE – o que há de pesquisa brasileira em meio ao mar internacional de publicações a nível stricto sensu. Dessa maneira, ora assumo o papel de uma antropóloga – que rastreia eventos em tempo real -, ora o de uma historiadora cultural (dada a aceleração contínua das forças tecnológicas); tendo em vista que a evolução da Inteligência Artificial Generativa (IAG) tem sido tão rápida que qualquer coisa sobre a qual valha a pena escrever ontem ou hoje já se torna obsoleta entre o hoje mesmo e o amanhã. Por exemplo, Metamorph/Metáfor(m)a alude a um jogo de palavras entre o gesto de montagem sob análise, a figura de linguagem empreendida como um alcance à distopia narrativa e a metalinguagem implícita na forma (ou formação) da imagem em movimento. No entanto, averiguou-se que o design pretendido à vinheta tipográfica não encontrou eco à hipótese original com relação às combinações sintético-geométricas da mudança temporal à espacial, precisando ser analisado sob outras óticas da montagem desde distintas referências – “de todo acúmulo histórico de visualidade disponível digitalmente” – nos presets da IA utilizada: trata-se de nosso período de distorção da realidade associado às culturas baseadas em dados que amplia exponencialmente a biopolítica foucaultiana.

    Em tempos de TikTok, Instagram e IAG, há urgência em revisitarmos as estéticas do vídeo pelos artistas que transformaram tal aparato tecnológico em uma série de práxis poético-política. Ou, de modo flusseriano, subvertendo tais aparelhos a partir de propostas criativas de utilização a fim de retirá-los de sua função maquínica original. Lembremos que a videoarte, no Brasil, já nasce política (em tempos de ditadura militar) e o Museu de Arte Contemporânea da USP, sob a liderança de Zanini, teve um papel importantíssimo aos artistas da época, apresentando-se como um espaço voltado para o fomento, a formação, a crítica e a realização dessa arte midiática.

    Se “o vídeo é uma forma que pensa”, presta-se à IAG ser considerada uma “mídia que pensa”? Como pensar, hoje, a edição videográfica (composição/ design) via IA tomando por pressuposto uma genealogia da videoarte a partir do histórico do MAC-USP como um laboratório aberto de criação? E, ainda, como analisar o acesso à história da videoarte no Brasil pela lente do acervo audiovisual do MAC-USP à necessidade de uma engenharia reversa? Afinal, muitas das estéticas comuns nas atuais plataformas de IAG tratam-se de manipulações, efeitos, combinações sintético-geométricas da mudança temporal à espacial sem contraste às instruções textuais (prompts), mas em clara cognição midiática embutida (extração e catalogação de padrões estéticos) desde nossa história cultural.

    Propomos compreendermos o papel criativo de montadoras e montadores – artistas audiovisuais – desde “um lócus privilegiado do experimentalismo e da liberdade figurativa nos filmes sem câmera” (AVs através de prompts), lembrando que há pouquíssimo tempo (cerca de trinta anos, na virada do século XX ao XXI) debatíamos as gestualidades da montagem via remix e material de arquivo como potência da imagem em movimento. Portanto, quem tem medo da montagem?

Bibliografia

    CRUZ, R. Exposição Vídeo_MAC. SP: MACUSP, s/d.
    DUBOIS, P. Cinema, Video, Godard. SP: Cosac Naify, 2004.
    FLUSSER, V. Filosofia da Caixa Preta. SP: Annablume, 2011.
    MACHADO, A. A arte do vídeo. SP: Editora Brasiliense, 1997.
    MANOVICH, L. A Medium That Thinks. USA: Online, 2026.
    STEYERL, H. Medium Hot. USA: Verso Books, 2025.
    SZAFIR, M. Data Art: Obsolescências Tecnológicas e Estéticas dos Bancos de Dados. Fortaleza: Pinacoteca do Ceará, 2024.
    ___. Entrevista: O que é inteligência artificial hoje? Fortaleza: Pinacoteca do Ceará, 2024. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=b2ihveFY-JE (acesso em 26/4/26)
    ___. Metamorph/Metáfor(m)a. São Paulo: FAUUSP, 2024. Disponível em: https://www.acervosdigitais.fau.usp.br/metamorph-metaforma/ (acesso em 26/4/26)
    VERAS, L. SZAFIR, M. et. al. Conversa de Ateliê – Síntese: Arte, Ciência, Arte-Ciência. SP: Itaú Cultural, 2024.
    ZYLINSKA, J. The Perception Machine. Cambridge: MIT Press, 2023
    ___. AI Art. London: OpenHumanities Press, 2020.