Trabalhos aprovados 2026

Ficha do Proponente

Proponente

    Hermano Arraes Callou (UFRJ)

Minicurrículo

    Hermano Callou é bolsista Faperj de pós-doutorado no PPGCOM – UFRJ e professor substituto na ECO – UFRJ.

Ficha do Trabalho

Título

    A alegoria da preservação: a imaginação do patrimônio material nos filmes de Kleber Mendonça Filho

Seminário

    Estudos Comparados de Cinema

Resumo

    Esta comunicação pretende interpretar a imaginação do patrimônio histórico e artístico nos filmes de ficção de Kleber Mendonça Filho, procurando compreender como seus filmes elaboram certas ansiedades e anseios em relação a disponibilidade no tempo presente do passado enquanto horizonte de sentido. O trabalho pretende interpretar comparativamente o modo como a ideia de patrimônio tem sido imaginada em seu cinema, tomando como quadro de referência a teoria da história.

Resumo expandido

    O cinema de Kleber Mendonça Filho tem sido marcado por uma interrogação sobre “o que é ter um passado”, sobre os modos como o passado pode ser dado como meu. Os filmes de Mendonça Filho parecem perguntar sobre as condições de possibilidade da nossa identidade, individual e coletiva, investigando sua dependência de uma estrutura de temporalidade socialmente partilhada, no qual a disponibilidade do passado enquanto um horizonte significativo no qual eu me oriento e me reconheço tem um papel privilegiado. Em seus filmes de ficção, percebe-se, contudo, uma ansiedade diante da possibilidade de que o passado não se encontre mais disponível em nossa situação histórica, que ele esteja ameaçado enquanto dimensão da experiência e, com ele, as próprias condições da identidade. Ao mesmo tempo, o passado é também visado em seus filmes por uma forma renitente de anseio, aparecendo nos seus filmes investido daquela qualidade redentora que na experiência moderna do tempo histórico costumávamos reservar para o futuro.

    A experiência de “ter um passado” é colocada tanto pelos dramas de seus personagens, que frequentemente sofrem de alienação e de dificuldade de apropriação do passado, quanto pelo tratamento do patriarcalismo brasileiro (Freyre, 2006; Holanda, 2015) enquanto espessura temporal de suas situações ficcionais, no qual seus personagens se orientam sem propriamente serem capazes de reconhecer. Deve-se destacar ainda, contudo, a presença significativa no seus filmes de uma série de figuras nas quais a experiência social do passado é articulada, como o arquivo e o documento, os filmes e as canções, os mortos e os fantasmas, a memória e a recordação, os temas da família, do sangue e da raça.

    Esta comunicação pretende comentar a principal figura na qual os filmes de Mendonça Filho tem elaborado suas ansiedades e anseios em relação à disponibilidade da nossa experiência do passado: o patrimônio histórico. O ponto de partida desta investigação é de que seus filmes lidam com a ideia de patrimônio histórico quando representam o patrimônio arquitetônico e artístico a partir de seu valor de preservação. Este trabalho pretende comentar comparativamente suas principais aparições, procurando interpretar os modos como o patrimônio é imaginado no seu cinema de ficção: o engenho do avô de João, protagonista de “O Som ao Redor”, e a casa da infância de Sofia, em processo de demolição no mesmo filme; o edifício Aquarius; o museu de Bacurau; o edifício Ofir e o cinema São Luiz, em “O Agente Secreto”.

    O patrimônio coloca questões bastante diferentes em relação à experiência do passado histórico que as figuras mais amplamente debatidas do arquivo e do documento, tanto no tratamento que recebe nos filmes quanto em suas ressonâncias sociais. O arquivo aparece em filmes como “Aquarius” e “O Agente Secreto” como instância de atestação da identidade, que se encontra sempre ameaçada: o documento é o objeto de desejo que move os personagens, pelo qual se espera que a verdade possa ser atestada publicamente. O patrimônio coloca, por sua vez, o problema do valor do passado. O arquivo atesta o que passou, dirigindo-se para o historiador enquanto instância autorizada de interpretação, que o organiza enquanto experiência histórica socialmente inteligível. O patrimônio é o passado que permanece, dirigindo-se a toda comunidade como valor socialmente disponível, colocando em questão, portanto, a luta pelo reconhecimento do seu valor.

    O patrimônio é uma ideia investida nos filmes de Mendonça Filho de uma qualidade utópica, na qual se imagina o que poderia ser uma forma de vida justa, adequada a nossos desejos de reconciliação com o passado. O seu cinema, contudo, elabora nossas fantasias com o patrimônio, revelando também seus anseios classistas, como expressão de uma “classe patrimonial” para a qual a riqueza herdada tem um papel estruturador de suas formas de vida, podendo o patrimônio ressoar profundamente como uma forma privilegiada de relação com o passado.

Bibliografia

    CHOAY, Françoise. A Alegoria do Patrimônio. São Paulo: UNESP, 2006.
    FONSECA, Maria Cecília Londres Fonseca. O Patrimônio em Processo. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 2017.
    FREYRE, Gilberto. Casa Grande e Senzala. São Paulo: Global Editora, 2006.
    HARTOG, François. Regimes de Historicidade. São Paulo: Ed. Autêntica, 2013.
    HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.
    HUYSSEN, Andreas. Culturas do Passado-Presente. Rio de Janeiro: Contraponto, 2014,
    KOSELLECK, Reinhart. Futuro Passado. Rio de Janeiro: Contraponto, 2007.